Ano novo, vida nova...

“A maior parte dos obstáculos às nossas metas não são externos e reais, mas sim impedimentos internos”

(Correio dos Açores) Segundo os princípios da psicologia, por que motivo se estabelecem tantas metas pessoais para o início de cada ano novo?
(Nuno Pavão Nunes, psicólogo e coach) O período de “ano novo” representa o final de um ciclo, não só no calendário, mas principalmente de um ciclo de atitude mental. Num mundo tão “exigente” – em que estamos constantemente em modo de resolução de tarefas -, é frequente para a maior parte de nós que só no final do ano tenhamos um momento de auto-reflexão.
É perante essa tomada de consciência que a mudança para novos hábitos e comportamentos se torna desejável perante os resultados negativos ou menos positivos do ano anterior no contexto das expectativas e valores de cada um.
Na realidade, o iniciar do ano pressiona-nos a definir um prazo para o início dos nossos objectivos, metas e sonhos, mas poderemos e deveremos fazê-lo durante todo o ano.

O que impede as pessoas de lutarem pelo que querem sem haver esta “procrastinação” pelo meio?
Procrastinamos mais facilmente quando não existe uma pressão externa. A maior parte dos seres humanos motiva-se com estrutura, hábitos e obrigações externas.
Um exemplo disso é que a maior parte das pessoas consegue cumprir consistentemente com um horário de trabalho “imposto” por uma entidade empregadora, mas depois tem dificuldade em organizar-se para encontrar disponibilidade, dentro do seu tempo pessoal, para realizar as suas metas pessoais, incluindo hobbies, tempo para família e amigos ou actividades que contribuam para a sua saúde.
Para a maior parte de nós é assim mais fácil arranjarmos “desculpas” internas (de cada um para si próprio) que justifiquem a procrastinação e o adiar de uma meta do que quando assumimos um compromisso perante o outro.
A procrastinação também ocorre quando minimizamos as nossas próprias prioridades e necessidades perante as necessidades e desejos dos outros (ex: em prol dos filhos).
E por último, a disponibilidade mental (versus disponibilidade física e de tempo) é um factor muito relevante na procrastinação. Com vidas profissionais tão ocupadas e exigentes é natural que no tempo que nos resta já não tenhamos a força e resiliência mental para lutarmos pelo que queremos.

Que reflexões devem ocorrer para criar metas que não decepcionem cada um?
As metas e objectivos de sucesso devem obedecer a determinados critérios. Devem ser realistas, claras e bem definidas no tempo e espaço. Além disso, objectivos descritos pela positiva, por exemplo ganhar saúde, versus pela negativa, como por exemplo “perder peso” ou “deixar de fumar”, são mais motivadores e aumentam as probabilidades de os concretizarmos.
Devemos ainda reflectir sobre os recursos internos e externos que precisamos desenvolver, como por exemplo “que competências ou conhecimentos preciso adquirir para chegar à meta final”, e decidir sobre os sacrifícios que estou disposto a fazer para alcançar o meu objectivo. Nada vem do nada. Sair da zona de conforto e fazer algo diferente do habitual é condição necessária para obter resultados diferentes.
Aqui, cada um funciona de modo diferente. Para algumas pessoas as mudanças drásticas funcionam melhor, para outras pequenas mudanças são mais benéficas. Não existe uma fórmula mágica para a auto-motivação, mas para não me decepcionar devo focar-me inicialmente em criar hábitos consistentes que sustentados a longo prazo vão produzir os resultados desejados.

O que pode justificar o insucesso dos objectivos traçados no início de cada ano?
Quando a meta ou projecto que temos de realizar não é algo que nos dá prazer torna-se mais difícil cumprirmos com os objectivos definidos. Neste caso, é importante realçar que a dimensão emocional da nossa atitude tem um poder maior como factor motivacional sobre os comportamentos e acções humanos do que a dimensão racional. Se não houver paixão, propósito e emoção por trás de uma meta, vamos ter uma tendência natural a procrastinar.

De que forma as expectativas relacionadas com o novo ano podem tornar-se perigosas para quem sofre de ansiedade ou depressão?
Objectivos e metas de sucesso devem ser personalizadas e ajustadas às condições e recursos internos e externos de cada pessoa. Metas ambiciosas, porém realistas, devem ser definidas por cada um independentemente do sofrimento mental. No caso da ansiedade e depressão, pelo menos um dos objectivos definidos pela pessoa, deve ser incluir alcançar maior bem-estar e equilíbrio mental e emocional.

Como lidar com o insucesso das metas planeadas? (A perda de peso que não aconteceu, a viagem que não se fez, o dinheiro que não se ganhou...)
Muitas vezes as pessoas focam-se no resultado final, mas é muito mais benéfico focarmo-nos nos objectivos de processo. Por exemplo, na perda de peso, eu posso não ter alcançado o peso final desejado (objectivo final), mas consegui estabelecer uma nova rotina semanal de exercício físico e executá-la consistentemente (objectivo de processo). Claramente o objectivo de processo foi atingido e devemo-nos focar no positivo.
Sobre um objectivo não atingido é ainda essencial não adicionarmos o “sentimento de culpa” quando falhamos. A culpa é um olhar sobre o passado e não é um “bom” motivador para o futuro.
Perguntar “o que posso fazer diferente no próximo ano” é muito mais útil do que focar-me no que “fiz mal”.

De que forma a psicologia ou o coaching ajudam a adequar expectativas ou a lidar com o insucesso das suas metas?
A psicologia e o coaching ajudam a pessoa a criar auto-conhecimento e a ganhar novas competências. Só depois de uma tomada de consciência sobre onde estou posso compreender para onde vou.
Com abordagens diferentes, tanto a psicologia como o coaching são muito benéficos e úteis nesse processo, partindo de uma auto-avaliação justa de cada um e acelerando os resultados individuais. Aliás, sempre que recrutamos ajuda externa profissional potenciamos os nossos recursos internos e aumentamos as probabilidades de alcançarmos os nossos resultados de uma forma mais eficaz, eficiente e segura.

De que forma o “sonhar acordado” permite que as pessoas consigam manter a esperança em relação às conquistas que desejam atingir?
Uma das funções do nosso cérebro é reflectir sobre o passado e imaginar e planear o futuro. Tudo o que acontece na realidade primeiro é criado na mente. A capacidade de sonhar e depois concretizar esse sonho é uma das grandes vantagens da humanidade sobre outras espécies animais e um dos alicerces das nossa sobrevivência e prosperidade.
Se quero construir uma casa nova primeiro imagino-a mentalmente e visualmente, para que depois um arquitecto a traduza para uma planta e projecto e só depois posso começar a construí-la. O mesmo processo será aplicável em qualquer tipo de projecto pessoal ou profissional.
Aliás, todos os grandes avanços na história da Humanidade foram promovidos por pessoas com uma grande capacidade de sonhar, visualizar o produto final e manter viva a esperança.
A maior parte dos nossos obstáculos para as nossas metas não são externos e reais, mas sim são impedimentos internos, criados por cada um e que incluem crenças limitadoras, pensamentos derrotistas e autocríticos que nos impedem de concretizar o (im)possível nos nossos sonhos e metas.
Walt Disney relembra-nos disso: “primeiro sonha, depois acredita, e depois, com coragem, faz e concretiza”.

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