Presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores, Bento Barcelos

Desactualização dos valores cama/dia nas Unidades de Cuidados Continuados “exige a devida cooperação financeira” do governo

O presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores e da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo, Bento Barcelos, afirmou ao ‘Correio dos Açores’ que a falta de actualização dos valores cama/dia/utente das Unidades de Cuidados Continuados Integrados da Região Autónoma, é uma situação que “tem gerado défices acentuados nas instituições que as integram”.
Esta realidade, segundo Bento Barcelos, “preocupa muito” os dirigentes das Misericórdias e outras IPSS’s e “exigem, neste ano, a devida cooperação financeira do governo regional”.
O presidente da União das Misericórdias dos Açores revela, a propósito, que “está em curso o processo de revisão e actualização dos valores/cama/dia/utente” dos Cuidados Continuados Integrados da Região, “esperando-se que, em breve, sejam total e sustentadamente actualizados”.
Bento Barcelos considera que este é “um dossier deveras complexo, que está sempre em cima da mesa nas conversações entre as Misericórdias e o Governo Regional, e que vai ser retomado nos próximos meses”.
Bento Barcelos considera “do conhecimento público que a nova filosofia de financiamento das valências sociais, implementada em Janeiro de 2014, “não tem conseguido financiar o custo real médio mensal de um utente na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, não obstante ter havido, em resultado das negociações, realizadas entre a Senhora Secretária Regional da Solidariedade Social e o Presidente da Mesa Coordenadora da URMA e outros responsáveis, avanços positivos nos últimos dois anos, ou seja, 2018 e 2019, com aumentos percentuais mais significativos, mas ainda aquém do custo real mensal de um utente”.
O presidente da União Regional das Misericórdias dos Açores realça que são “vários os factores que contribuíram e contribuem para esta realidade, nomeadamente, os aumentos sucessivos do Rendimento Mínimo Garantido e Salário Mínimo Regional desde o ano de 2014 (últimos 4 meses), com o valor de 509,25€, até à entrada em vigor, a 1 de Janeiro deste ano, do novo valor do Salário Mínimo Regional, de 666,75 euros, um aumento de 5,8% em relação ao Salário Mínimo Regional de 2019, que era, na Região, de 630 euros que, como se sabe, tem uma majoração de 5%, o que representou um aumento peculiar entre 2013 a 2020, de 29,51 euros, muito superior aos aumentos do valor padrão para a Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, que aumentou de 2017 para 2019, 11,43%”.
Ora, prosseguiu, “este impacto financeiro nos orçamentos das Misericórdias, acrescido do aumento verificado, desde 2011, da Taxa Social Única (TSU)/desconto para a Segurança Social, que passou de 20%, no ano de 2011, para 22,3% em 2017, apenas nestas duas variáveis, implicaram verbas elevadíssimas e acréscimos orçamentais não compensados com o financiamento dos Acordos de Cooperação”.

Santa Casa de Angra com 5 séculos

A Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo, de que Bento Barcelos é presidente, foi fundada nos finais do século XV, com a integração do Hospital já anteriormente criado e sobre o impulso da Irmandade do Santo Espírito, sua génese fundacional.
Esta Misericórdia desenvolveu, ao longo de 5 séculos de existência, uma missão social e assistencial, nos cuidados de saúde e sociais, “difícil de qualificar e de quantificar, mas efectivamente, de reconhecido papel no cumprimento integral das Obras da Misericórdia e da solidariedade social e caritativa”, afirma.
Bento Barcelos considera “extraordinariamente complexo o papel das Misericórdias nos tempos que decorrem” e cita, a propósito, o Papa Francisco quando afirmou que “(…) A Misericórdia não é fazer um bem de passagem; significa comprometer-se onde está o mal, onde há doença, onde há fome. Onde há tantas explorações humanas. (…) Vós sois artesãos da Misericórdia: com as vossas mãos, com os vossos olhos, com a vossa escuta, com a vossa proximidade, com as vossas carícias… sois artesãos!”
Para além das 12 valências sociais e de saúde, que a Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo assume, desde a infância ao apoio às pessoas idosas e/ou dependentes (mesmo não sendo idosas) Bento Barcelos realça que a articulação entre a valência Lar de idosos, tipologia que passou a ser designada, de acordo com a nova regulamentação, por Estrutura Residencial para Pessoas Idosas com a capacidade de 153 camas contratualizadas e a Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI), incluída na Rede de Cuidados Continuados Integrados da Região Autónoma dos Açores (RCCIRAA), criada em 2015, com a capacidade para 36 camas, das quais, desde Setembro de 2017, com 8 camas destinadas a cuidados sociais de saúde de média duração e reabilitação e 28 camas para cuidados sociais e de saúde de longa duração e manutenção, “permitiu aumentar a capacidade de resposta às solicitações de admissão residencial na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas e de internamento na Unidade de Cuidados Continuados Integrados mas, “mesmo assim, continua a existir uma lista de espera para a ERPI, agora partilhada com as restantes ERPI’s da Ilha Terceira, no âmbito dum Acordo de gestão conjunta de admissões, quer propostas pelos próprios interessados, as famílias ou pela acção social pública ou pelo Serviço Regional de Saúde”.

 

“Tem que haver uma constante educação para a utilização equilibrada e crítica das redes sociais”

 

 Partindo de uma citação atribuída aos filósofos gregos, que comunga, de que o “Homem é um ser iminentemente político”, Bento Barcelos afirma que o pensamento político e a própria política “é algo indissociável do processo constante, nunca acabado, de desenvolvimento integrado do Homem, das famílias, das sociedades, das nações…”.
Nesta perspectiva, afirma que continua a “valorizar a política em todas as suas vertentes, mas a verdadeira política, a política construtiva, de consciencialização e motora do progresso sustentado e sustentável da pessoa humana”.
Sublinha que já foi “um participante” na política “tão activo quanto me foi possível, em termos das minhas capacidades intelectuais e de conhecimentos, mas no que fiz, devo confessar, tentei sempre dar o meu melhor e com o maior empenhamento e dedicação possíveis”.
Neste enquadramento, Bento Barcelos confessa que “teve pena de não ter feito um maior percurso como Secretário Regional e como Deputado Regional, mas, factores diversos o determinaram assim e não esteve ao meu alcance contrariá-los”.
Deixa claro que sempre gostou “de comprar jornais e de os ler, apenas nos conteúdos noticiosos, de reportagem, editoriais e artigos de opinião, não perdendo tempo e não tendo qualquer motivação na leitura de conteúdos que não me interessam”.
Quando questionado sobre como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais, Bento Barcelos salienta que, “na maioria dos casos, é uma perda de tempo e é uma informação sem conteúdo de formação, podendo mesmo ser, enganosa e falaciosa”.
Em sua opinião, “tem que haver uma constante educação nas escolas, na comunicação social, na família, para a utilização equilibrada e crítica das redes sociais”.
Perante a pergunta se conseguia viver hoje sem telemóvel e internet, responde que o ser humano “tem grande capacidade de adaptação a novos contextos, mesmo que sejam desagradáveis, difíceis de enfrentar e, até mesmo, perigosos e prejudiciais”.
Sublinhou que já viveu décadas “sem telemóvel e internet e vivi sem angústia, concretizando os meus objectivos, realizando a minha formação académica, técnica e profissional e tudo se conseguiu com normalidade, quiçá, maior dificuldade e exigência”.
Reconhece, no entanto, que o telemóvel e a internet “são actualmente instrumentos e ferramentas fundamentais e acessíveis para a comunicação entre as pessoas, para as organizações, a gestão, o controlo, a supervisão, etc.” Por isso, completa, “nos tempos actuais, e com maior acutilância no futuro, será reforçada e valorizada a utilização destes instrumentos, sem se perder o sentido da moderação, do equilíbrio e da não viciação ou dependência destas tecnologias”.
Bento Barcelos considera, por último, que o seu “gosto e interesse” pelas viagens, além das que faz em serviço, “têm três pressupostos: estar acompanhado por familiares ou amigos, já que não gosto de viajar sozinho, ter pólos de interesse cultural, político, económico e ambiental que permita o conhecimento e a apreensão de outras realidades por mim desconhecidas e estar a viajar em segurança, o que valorizo muito”.
Nos últimos anos, realça, “a viagem que mais gostei de fazer foi em Março último a países árabes, à Índia, ao Sri Lanka e a Singapura, que foi, precisamente, o convívio familiar, o passeio, o conhecimento histórico e geográfico, a observação de outras e tão diversas culturas, religiões e vivências humanas”.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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