Presépio com mais de 400 peças ocupou divisão da casa de Emanuel Maré na Lagoa

 Tudo o que a vista alcança passou pelas mãos de Emanuel Maré. Cada pormenor pode ser visto e revisto através de uma pequena janela, com vista para o mar que, durante a quadra natalícia, tem vista para o presépio.
No interior do quarto, há um mundo quase encantado de figuras, que mudam de posição a cada ano. São 10 metros quadrados de bonecos, casas, igrejas, manifestações religiosas e cenas da vida quotidiana açoriana. 400 peças organizadas e pensadas para cada recanto da divisão da casa que já foi sala de jantar, quarto de estudos, quarto dos brinquedos e agora, durante Dezembro e alguns dias de Janeiro, o quarto do presépio. 
Durante a época natalícia a casa tem um quarto a menos mas a família não se importa. Natércia Maré, a mulher de Emanuel, garante que “quando ele não o faz fica esmorecido, o Natal é diferente”. E Emanuel confirma: “quando não o faço, estamos muitas vezes sozinhos na sala, o Natal é mais pobre, não é tão rico porque não há convívio com as pessoas, o contacto é diferente”. O lagoense de 40 anos, que trabalha no ramo hoteleiro, conta que “este amor começou muito novinho. A minha mãe não tinha paciência para fazer o presépio, eu é que fazia e gostava imenso. Depois uma vizinha pedia-me também e o bichinho foi crescendo”.

Do papel para as paletes 

Décadas depois, passa horas, ao longo de serões inteiros, a compor o presépio que nunca é igual ao do último ano em que o fez. “Pode parecer que não, mas está aqui um mês e uma semana de trabalho, serões em que começava pelas 18h30 e terminava às 23h00 ou meia noite”. 
E tudo começa no papel. Emanuel desenha o que tem e como vai dispor cada peça. Depois é preciso garantir que os alicerces são firmes. “O presépio é todo assente em paletes, é como se fossem mesas, com barrotes e costaneiras para poder aguentar bem o peso porque eu ando aí em cima” explica com entusiasmo. O que está por baixo, coberto com tecido negro, é outro universo que os visitantes não vêem: “tem todo um outro mundo que eu não mostro a ninguém, desde tubagens, máquinas de fumo, máquinas de água, tudo isso está aí debaixo” esclarece.

Movidos com motores de microondas 

Emanuel garante que tudo o que lhe passa pelas mãos, tem cunho próprio. Para além de criar os seus próprios bonecos – já lá vamos – também cria as engrenagens que lhe dão vida. Um motor do prato de microondas, por exemplo, é o responsável por mover, de forma giratória, o grupo folclórico. E “quem diz aquilo, diz o moinho de água. A água que está a correr no canal do moinho não tem força para girar as pás, o que está fazendo girar a pá é um motor de microondas” explica.

“Faço os meus bonecos na sala”

O nível de pormenor dos quadros representados é elevado e vai para além do que se vê e do que se via na Lagoa. Há, por exemplo, a apanha do chá, uma plantação de ananases e as festas do Divino Espírito Santo. Nas Furnas, existem covas “onde o ar borbulha nas caldeiras e ao mesmo tempo há fumo”. Não falta o milho a cozer em sacas e depois a ser vendido por 100 escudos, que, Emanuel faz questão de inscrever numa placa como antigamente, sem a conversão para euros. Há também uma representação dos vários tipos de água que se podem beber, junto às fumarolas. Mas o destaque vai mesmo para a Igreja do Rosário que fez questão de decorar de acordo com a iluminação que é feita pelas grandes festas da freguesia, em Outubro, e que é o maior objecto que tem no presépio. No adro, está a procissão, com mais de 100 bonecos. “São todos diferentes, o “malcriado”vai de chapéu na cabeça, o pai vai com a criança na mão, o “cauteloso” está com o guarda-chuva. No fundo, é para quem gosta de apreciar e procurar” diz Emanuel. 
Algumas figuras são feitas por bonecreiros da Lagoa, mas a maioria, mais de 80 por cento, é do próprio: “eu faço os meus bonecos, aqui dentro, no quarto mas também na minha sala”. Usa moldes antigos e adapta-os a cada situação. “Está a ver o senhor que está sentado na amarração do milho? Saiu de um camponês que estava em pé, com uma cesta, com a enxada às costas, já não tem nada haver com o que está ali” garante.

Figuras expostas o ano inteiro

Ao contrário de grande parte das pessoas, Emanuel não guarda os bonecos. Faz questão de os deixar em vitrines, todo o ano, e explica porquê: “não se deve enrolar o boneco de barro porque quando não são cozidos, com a humidade, a folha do jornal, por exemplo, trespassa a tinta para as imagens”. 
Sempre que participou no concurso de presépios da Lagoa arrecadou o primeiro lugar, inúmeras vezes. Mas não concorre todos os anos e só faz o presépio de dois em dois porque, segundo ele, o orçamento acaba por ser avultado. “Gasto quase o triplo da electricidade que consumo mensalmente” garante. Mas isso não o demove de, ano sim, ano não, voltar a abrir as portas de casa para mostrar onde vive o seu menino Jesus. 
                                   

Jornal da Lagoa
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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