Rotas gastronómicas (27)

Adoração por sushi transforma-se em negócio familiar no centro de Ponta Delgada

Procurando preencher uma lacuna no mercado da restauração açoriana, nasceu o P’alma Sushi, o primeiro restaurante em São Miguel que apresenta uma ementa exclusivamente dedicada ao sushi por excelência, fazendo do peixe fresco da Região o ‘ex libris’ num tipo de gastronomia que se vem tornando extremamente popular no mundo ocidental, importando técnicas e aspirações oriundas do Japão.
Apesar de contar com pouco mais de um mês de abertura, o P’alma Sushi – de acordo com aqueles que lhe deram o nome e a “alma” – tem já tido imenso sucesso, atraindo sobretudo clientes locais que na época baixa procuram novas experiências gastronómicas, longe da azáfama provocada pela enorme afluência de turistas que, de uma forma geral, têm vindo a ser cada vez mais comum durante o Verão.
Localizado na Rua Ernesto do Canto, num edifício de família, Cristina Machado conta que o nome escolhido para o negócio familiar – que gere em conjunto com o marido, com a filha e com o genro – incorpora diferentes ideais, todos eles com muito significado.
“O conceito escolhido direcciona-se “para a alma” mas não só, também desenvolvemos este nome pelo facto de haver aqui perto uma palmeira, pelo facto de eu ser de Moçambique e pelo facto de o Leonardo ser brasileiro. Foi por tudo isso que juntámos este conceito e daí surge o nome de P’alma”, explica.
A ideia de construir este negócio familiar no espaço onde hoje existe o restaurante começou a ser traçada há precisamente um ano, em Janeiro, quando em conjunto decidiram investir num elo que todos tinham em comum, o sushi.
“Começámos a pensar nas coisas de que gostamos e percebemos que gostamos de sushi. Este espaço entretanto tinha ficado vazio e inseria-se num edifício que está há muitos anos na família, por isso pensámos que deveríamos fazer algum negócio que tenha a ver connosco e com algo de que gostamos. Tanto eu como o meu genro e a minha filha gostámos da ideia e tudo partiu daí”, diz a empresária.
Leonardo Araújo, genro de Cristina Machado, conta no entanto que a sua paixão pelo sushi surgiu no Brasil, país de onde é natural, salientando que este fazia parte da ementa semanal obrigatória do casal enquanto viviam em Florianópolis, e onde afirma existir “um restaurante japonês em cada canto”.
Porém, os restaurantes que ali existem são “muito diferentes dos que existem nos Açores”, uma vez que para além do sushi costumam também existir outros pratos adicionais, variando entre comida chinesa ou até pratos de carne e peixe, tornando assim o P’alma Sushi no primeiro restaurante exclusivamente dedicado ao sushi.
Para além da paixão pelo sushi enquanto opção gastronómica, Leonardo Araújo é também um dos sushiman daquele que é um dos mais recentes restaurantes do centro de Ponta Delgada, salientando que esta é também uma forma de dar asas à sua criatividade, uma qualidade que aprecia muito no desempenho de uma profissão.
“Gostar de sushi e fazer sushi são sim coisas diferentes, mas vai-se criando uma linguagem do nosso gosto e acaba por ser como outra arte qualquer. (…) O sushi acaba por ser mais uma forma de criação e de expressão. Não gosto de trabalhos tradicionais. Não me encaixo muito bem porque gosto do processo de criação onde não há metas ou restrições, e na culinária dá para ser bastante criativo”, explica.
No que diz respeito ao conceito do restaurante, a família optou essencialmente por apresentar uma ementa dedicada na sua grande parte ao sushi de fusão pois, apesar de contar também com o sushi “cru” tradicional, é através do sushi de fusão que se consegue ajudar na transição daqueles que não apreciam muito este prato japonês.
“Ao optarmos pelo sushi de fusão achámos que seria uma forma de fugirmos ao sushi tradicional, àquele sushi que a pessoa diz não gostar por conta da textura ou por ser peixe cru, e achámos que o “hot sushi” poderia chamar mais pessoas”, adianta Cristina Machado.
O que acontece, explicam os empresários, é que o facto de existirem as duas possibilidades na ementa torna possível atrair dois tipos de público para o restaurante: “Isto faz com que mais jovens venham cá. Eles gostam do sushi tradicional mas depois trazem as pessoas mais velhas – muitas delas nunca experimentaram sushi – e saem daqui a achar que o sushi é bom e depois acabam por experimentar de tudo um pouco”.

Importação surge como principal 
dificuldade

O balanço do primeiro mês de actividade é positivo, indicam Leonardo Araújo e Cristina Machado, adiantando que a principal dificuldade se prende essencialmente pela gestão do stock e pela importação de alguns produtos japoneses que conferem ao produto oferecido aquela que é a sua identidade mais genuína.
“Este primeiro mês correu muito bem, tirando a dificuldade em garantir alguns produtos. Tentamos utilizar o máximo de produtos regionais mas a verdade é que muitos dos produtos japoneses não existem cá, temos que os importar e essa parte é um bocadinho complicada. A importação leva tempo e, por isso, o stock tem que ser pensado com bastante antecedência, tem que ser muito bem controlado e é uma coisa à qual ainda nos estamos a adaptar”, indica Cristina Machado.
Face a esta dificuldade, salienta, já aconteceu inclusive recorrer a grandes superfícies comerciais que têm disponíveis estes tipos de produtos essenciais para a confecção de sushi, embora em quantidades reduzidas: “Às vezes o nosso stock acaba e vamos a outros sítios buscar arroz de sushi, por exemplo, mas quando isso acontece acabamos com o que está na prateleira. Os supermercados têm eles próprios um stock muito limitado no que diz respeito a estes produtos”.
Também os produtos locais, nomeadamente o peixe, são por vezes difíceis de encontrar – principalmente no Inverno, devido ao mau tempo: “O produto açoriano que mais utilizamos é o peixe, que é todo de cá, mas este Inverno tem sido um bocadinho difícil por conta de todo este mau tempo. Temos que andar a correr de um lado para o outro à procura de atum, xaréu, lírio”, adianta a empresária.

Formação é dada ‘in loco’ por sushiman 
de renome internacional

No que diz respeito à formação, durante os primeiros cinco meses de abertura do P’alma Sushi, o restaurante contará com a presença de um sushiman altamente qualificado e reconhecido a nível internacional, responsável por formar Leonardo Araújo e um segundo funcionário, para que ambos possam dar continuidade ao trabalho e para que possam, no futuro, dar asas à criatividade.
“Em Lisboa um curso de sushiman pode demorar um ano a tirar e isso não significa que tenhamos aulas todos os dias. Aqui o chef estará durante cinco meses e isso resulta em cerca de 10 horas de aprendizagem diárias. É muito mais carga e muito maior a aprendizagem que inclui prática e não apenas teoria”, salienta Leonardo Araújo.
Graças à presença deste sushiman, a gerência optou por manter o restaurante aberto tanto na hora de almoço como na hora de jantar, sendo esta uma forma de maximizar – por um lado – a formação que é dada a quem ali trabalha, - e por outro – de potenciar a procura pelo espaço, uma decisão que se terá revelado acertada, uma vez que há clientes que procuram o local para qualquer uma destas refeições.
Daquela que é a apreciação dos proprietários do restaurante, 90% dos clientes são então locais, adiantando-se que apesar de ali passarem muitos turistas sobretudo devido à localização entre vários hotéis e alojamentos locais que surgem em maior abundância, são sobretudo os açorianos que frequentam o restaurante e que desfrutam do seu ambiente acolhedor.

No futuro esperam desenvolvimento 
da zona e mais aposta nas redes sociais

No entanto, e no que diz respeito às perspectivas que a família tem para o futuro, consideram espectável que cada vez mais turistas frequentem o local, pois apesar de pensarem inicialmente que este seria um espaço direccionado especialmente para os clientes açorianos, a realidade é que parece haver também a curiosidade em experimentar sushi em várias partes do mundo.
“Aqui passam muitos turistas, param, lêem a ementa e assim temos tido alguns clientes turistas. Inicialmente pensámos que este restaurante seria mais atractivo para o cliente local porque o turista que cá vem quer experimentar pratos regionais, mas compreendemos que as pessoas que gostam de sushi gostem de o experimentar também nos Açores”, salienta Cristina Machado.
Aos fins-de-semana, para garantir que ninguém fica sem direito a mesa, o restaurante funciona essencialmente sob reserva, algo que tem vindo a facilitar o funcionamento dos dois turnos de que dispõe actualmente.
Para o futuro, a família considera que a aposta que tem vindo a acontecer na zona da Calheta irá também beneficiar ainda mais a localização do restaurante: “Acho que esta zona da cidade está começando a melhorar muito. Acreditamos que com novos projectos apareça concorrência, mas é um bom sinal. Temos apenas que manter a nossa qualidade e tentarmos sempre ser os melhores”.
Futuramente, há também o objectivo de virem a fazer parte de redes sociais como o TripAdvisor ou o Google+, uma vez que esta é uma importante ferramenta para que os turistas tomem conhecimento dos produtos e serviços que são oferecidos por um determinado estabelecimento, permitindo que cada cliente faça uma avaliação referente ao local.
Actualmente a maior parte dos clientes chega ao P’alma Sushi através das publicações feitas no Instagram, adiantam os empresários também responsáveis pelo marketing e comunicação do espaço, referindo ainda que apesar de estarem de portas abertas há pouco mais de um mês, muitos dos clientes acabaram por regressar ao restaurante.

 

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