Armando Fontes, velha glória do futebol açoriano

“Há que inverter o rumo do Santa Clara porque quando se cai na zona de despromoção é muito difícil de lá sair”

 Como foi a despedida dos relvados.
Nunca é fácil para qualquer futebolista profissional se despedir dos relvados e eu não fugi à regra. Deixei os relvados aos 32 anos derivado a uma série de lesões e quando vi que não iria ter o mesmo rendimento dentro de campo, tomei a difícil decisão de deixar de fazer a coisa que mais gostava na vida. Ainda hoje quando vou a Braga e entro no antigo estádio 1º de Maio as lágrimas vêm-me aos olhos.

O futebol praticado actualmente é diferente do seu tempo como jogador? 
Estamos a falar de uma diferença de 30 a 40 anos, por isso não tenho qualquer dúvida que o futebol evoluiu nesse espaço de tempo: o departamento de futebol, os centros de estágio, a preparação física, os relvados, as bolas, as botas, o centro médico, os treinadores, etc. Em todas essas vertentes o futebol melhorou. Por isso, nos tempos de hoje, há uma forma de executar um passe e de fazer uma receção melhorada, de pensar mais rápido o futebol, de haver menos lesões, novas técnicas de recuperar um atleta e em menos tempo, pré-épocas, estágios e treinos a serem programados ao pormenor etc.., tudo isso levaria a que o jogador doutrora fosse mais capaz hoje em dia.

Que recordações tem da passagem pelo Braga?
As melhores. Passei lá 8 anos, numa terra que sempre me respeitou e me acarinhou. Além de ser uma cidade linda e acolhedora, foi onde nasceram os meus dois filhos, onde tive as maiores alegrias como profissional de futebol e também por ser uma cidade onde os adeptos não esquecem quem por lá passou e deixou marca, quer como jogador quer como profissional.

Que clube mais o marcou?
Todos me marcaram, uns mais do que outros, contudo o Sporting Clube de Braga ficará para sempre no meu coração.

Como aparece no mundo do futebol?
Após a minha transição do Desportivo da Vila Franca para o Lusitânia há um torneio, pela Páscoa, em que fazem parte as equipas do Lusitânia, Santa Clara, Nacional da Madeira e Académica. Esse torneio correu-me de feição e fui o melhor marcador. O convidado responsável para vir comentar esse torneio foi o senhor Frederico Passos, secretário técnico do Sporting de Braga, na altura. Depois de finalizado o torneio tenho em Angra do Heroísmo o chefe de departamento de futebol do Braga, Srº Oliveira que me contactou e convidou-me para jogar na equipa supracitada. A partir deste momento assinei contrato por 3 anos e fui ao encontro do meu grande sonho que era jogar ao mais alto nível.

O que mais o marcou no mundo do futebol?
O mundo de futebol é um mundo à parte, em que se vive diariamente essa paixão. A vivência diária com os colegas de profissão, jogar em alguns estádios com 70 mil pessoas, jogar em provas europeias, ser internacional, jogar uma final da Taça de Portugal, etc. São emoções fortes que ficam gravadas na memória para o resto da vida.

Qual o clube onde mais cresceu?
Como amador no Desportivo da Vila Franca do Campo, como profissional B no Lusitânia e para a alta competição no Sporting Clube de Braga.

Qual foi o lance que mais o marcou na carreira?
Tenho 2: na época 78/79, nos quartos de final para a Taça de Portugal, eliminamos o Benfica em Braga por 2-1, o Chico Gordo faz o primeiro golo e eu o segundo. Em 80/81, novamente em Braga, voltamos a eliminar o Benfica nas meias finais da Taça de Portugal pela mesma margem, 2-1 e eu faço os 2 golos.

Em que medida o futebol marcou o seu modo de viver?
O futebol, para mim, foi uma escola de virtudes, não só pelas alegrias que se vive, mas também pela tristeza nas derrotas, no sofrimento aquando das lesões e na resiliência que se adquire até superar todas as privações e dificuldades. Se quisermos ser um bom profissional, temos que ter em conta a pontualidade, as críticas a que somos sujeitos depois dos jogos, a aplicação do nosso querer e do nosso esforço ao limite, quer nos jogos e quer nos treinos. Tudo isso levou-me, ao longo do tempo, a saber ser e a saber estar de uma forma mais ponderada, sensata e disciplinada.

Como tens acompanhado a prestação do Santa Clara na I Liga?
Tenho acompanhado regularmente, mas mais pela SPORT.TV porque o nosso estádio tem umas condições péssimas para se ver futebol de Inverno. O Santa Clara teve uma entrada muito boa no campeonato e com essa entrada esperava que houvesse maior tranquilidade, mais confiança, melhor gestão dos pontos alcançados e que nessa altura estivesse numa posição muito mais favorável na tabela classificativa. Mas o futebol é isso mesmo, não se rege pela lógica. 
O Santa já não ganhava para o campeonato desde 29/09/2019, precisamente contra o Gil Vicente por 1-0, é muito tempo! Há que inverter o rumo dos acontecimentos porque quando se cai na zona de despromoção é muito difícil de lá sair. Esta vitória sobre o Desportivo das Aves foi mais uma prova de que esta equipa está mais talhada para jogar fora de casa e os resultados desta época assim o demonstram.
O treinador fez uma excelente época na temporada passada e, no meu entender, tenho a noção que a esta situação só pode melhorar, porque o João Henriques não desaprendeu de uma época para a outra. Agora, que há jogadores com um rendimento abaixo do normal, não tenho dúvidas. As aquisições feitas no mercado de Inverno têm que ser mais valias de forma a que possam ajudar a equipa a subir na tabela classificativa, e assim poderem estar numa posição mais consentânea com o seu valor.
Houve também pessoas responsáveis que ao fim da 4ª ou 5ª jornada começaram logo a falar em competições europeias e isso não foi benéfico, uma vez que a equipa não está habituada a jogar para atingir tal meta, aumentando assim, a pressão sobre os jogadores. Um campeonato é uma maratona, por isso muita água irá passar ainda debaixo da ponte.

Qual a mais-valia para os Açores de uma equipa na primeira liga?
A mais valia será maior visibilidade para os Açores, em particular São Miguel, e daí o aspecto económico associado às áreas de hotelaria, restauração, empresas de aluguer de automóveis, meios de transporte etc., para além de ser um orgulho para qualquer Região ter uma equipa no mais alto patamar do futebol Nacional. A possibilidade da população micaelense poder ver de perto futebol de alta competição, admirar os seus ídolos, a motivação que pode provocar nos miúdos de hoje em dia, praticantes de futebol, de modo a pensarem que é mais fácil realizarem os seus sonhos, são também mais valias adjacentes à presença nos Açores de uma equipa na 1ª liga de futebol.

Qual a característica mais importante de um jogador para ter sucesso: dedicação ou talento?
Talento em 1ª lugar, dedicação em 2º . E passo a explicar a minha opinião sobre o assunto: hoje qualquer um seria profissional de futebol se a dedicação fosse a parte mais importante para se conseguir esse objectivo. Oliveira, antiga glória do futebol Clube do Porto e do futebol nacional, hoje advogado, dizia que para se ser médico, engenheiro, professor ou advogado, estuda-se, para se ser jogador de futebol com sucesso, nasce-se. A dedicação é uma componente essencial para o desenvolvimento desse mesmo talento … veja-se o caso do Ronaldo.

Que conselho dá a quem pretende iniciar-se no mundo do futebol?
Que tenham prazer e que se divirtam enquanto jogadores de formação. Ser algum dia jogador de futebol profissional tem de ser um sonho deles e não dos pais, pois a pressão que muitas vezes exercem sobre os miúdos, em tenra idade, só os prejudica. Tenham em mente que nada lhes será dado nem facilitado porque o mundo do futebol é extremamente exigente. Serão postos à prova todos os dias, semana a semana, nos treinos ou nos jogos quer fora ou dentro do campo, uma avaliação constante que não se encontra nas outras profissões, porém terão outras compensações que muitos gostariam de ter.

Como se sentes como velha glória do futebol açoriano?
Tenho algum orgulho da carreira que fiz como profissional de futebol, pelo que cheguei a atingir a nível nacional, por ser lembrado por tal e por aquilo que o futebol me proporcionou.

Nesta fase da vida, quais os passatempos preferidos?
Estar, passear e jantar fora com a família, ver programas desportivos, principalmente futebol, fazer praia, passear com o meu cão, fazer algum exercício quando os joelhos o permitem, entrar numa igreja e agradecer a Deus tudo o que me tem concedido. 

                                    
 

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