“A responsabilidade pela tripolaridade continua a ser uma questão política regional”, diz Vasco Garcia

A Universidade dos Açores assinalou esta semana, no dia 9, os seus  44 anos de vida. Vasco Garcia e Jorge Medeiros foram dois dos seus reitores e ambos tiveram que conviver conviver com dificuldades financeiras, com a vontade de internacionalizar a instituição e com a missão de procurar captar capital intelectual. Com a experiência acumulada, sendo ambos homens ao serviço da universidade, também como professores, o que pensam sobre como a nossa universidade se posiciona hoje no mundo académico.
Vasco Garcia: Se, como reitor, tivesse investido só no que refere, teria feito pouco, mas fomos muito mais além, criando novos cursos, construindo ou deixando preparadas construções nos três pólos, preparando os departamentos e serviços para a era digital, dinamizando a internacionalização da investigação e do ensino, qualificando um sólido corpo docente e investigador e afirmando tenazmente a Universidade dos Açores perante os poderes políticos. Hoje, sem Assembleia nem Senado universitários, apenas com um Conselho Geral, o Reitor e os estudantes perderam força institucional externa, por mais que se diga o contrário. 
Jorge Medeiros: A Universidade dos Açores passou ao longo do tempo por uma etapa de formação dos seus próximos docentes. Nessa altura a Região Autónoma dos Açores apostou no corpo docente que se foi especializando ao longo do tempo. Procurou universidades de renome internacional no País e no estrangeiro e deu-lhes a formação devida para num futuro estar entre as Universidades “de primeira linha”.
Salienta que hoje, a Universidade usufrui de um reconhecido “capital Intelectual”, com competências para desenvolver uma diversidade de áreas do saber que se incluem nas ciências exactas, ciências da saúde, ciências da engenharia e tecnologias, ciências sociais, bem como, nas artes e humanidades e com a possibilidade de o fazer interdisciplinarmente, assim como, dotada com as infra-estruturas necessárias para desenvolver uma actividade profícua e ao serviço da sociedade.

Qual a importância da instituição para a sociedade açoriana? Porque razão não há uma forte ligação da academia com o mundo empresarial açoriano?
Vasco Garcia: A importância mede-se financeiramente, pelos 20 milhões anuais que traz pelo simples facto de existir e pelo que poupa às famílias açorianas em custos de educação superior dos seus filhos; mede-se cultural e politicamente, pelo número impressionante de membros saídos da Universidade para as escolas, os governos e administrações públicas e empresariais (até temos um Ministro do Mar, ido do DOP/Faculdade de Ciências e Tecnologia) e os Parlamentos, nomeadamente eurodeputados, de que eu tive a honra de ser o primeiro da série. Vou agora ser um pouco provocador: como quer que haja “forte ligação” da Universidade com as empresas açorianas, quando estas estão descapitalizadas e dependem geralmente da banca, numa Região onde a economia é maioritariamente dependente de fundos públicos regionais, nacionais ou europeus? Há exceções, claro! Mas são poucas e limitadas.
Jorge Medeiros: A Universidade dos Açores tem por missão contribuir para o desenvolvimento da sociedade, desenvolvendo actividades em prol de uma sociedade mais qualificada, mais tolerante e mais aberta ao progresso social. Compete-lhe utilizar, o melhor possível, os recursos de que dispõe e contribuir para o progresso nacional e, em particular, o regional, nas áreas onde tem reconhecida competência. 
A cooperação, a todos os níveis, deve ser reforçada e incentivada pelo estabelecimento de acordos com empresas, autarquias e outras instituições, nacionais e estrangeiras, nos mais variados domínios. A responsabilidade social da UAc não se esgota no país e deve ser alargada às comunidades açorianas espalhadas pelo Mundo, ao espaço lusófono e aos países onde se fala a língua portuguesa. Há que promover meios de cooperação internacional, nas áreas tecnológicas, humanísticas e culturais contribuindo assim para o desenvolvimento dessas comunidades ou Países.
A dinamização do desenvolvimento do conhecimento e a sua transferência tecnológica constitui um dos aspectos centrais e mais relevantes da atividade da Universidade. 
Contudo, para que tal aconteça, é necessário apoiar os investigadores com os recursos técnicos especializados, nesta missão de gestão do conhecimento, de valorização, de transferência e de difusão. 
Esta situação constitui uma oportunidade para a investigação efectuada na Universidade, para difundir a importância dos problemas que aborda, para valorizar na sociedade a investigação como fonte básica do seu progresso e bem-estar.
Penso que  tal objectivo só será conseguido se forem tomadas uma série de iniciativas, como sejam, em síntese: O Fomento do empreendedorismo junto do corpo docente e discente; a utilização dos mecanismos da propriedade industrial para registo das invenções e eventual valorização comercial das mesmas; a dinamização da criação de micro-empresas, que se destinem à exploração dos resultados de projetcos de investigação ou ideias com capacidade de se transformarem em bens ou serviços; o estabelecimento de consórcios com empresas ou outras organizações, com vista ao desenvolvimento de serviços ou produtos; a gestão partilhada de incubadoras de base tecnológica ou de parques tecnológicos, na perspectiva de dinamizar a expansão das actividades de Investigação da Universidade na sua interface com a sociedade; a prestação de serviços avançados.
Para tal, certamente que o Governo dos Açores terá que apoiar a Universidade dos Açores pois só assim se conseguirá o desenvolvimento da RAA.
 
Fala-se muito de que a academia devia conquistar novos públicos no exterior. O que falta para isso acontecer?
Vasco Garcia: Falta estabilidade de financiamento, compatível com o assumir de responsabilidades orçamentais complementares pelo Governo Regional. Bastaria uma verba anual de 0,2 ou 0,3% do orçamento regional alocada à nossa Universidade, reforçando o que vem de Lisboa, para se abrirem os quadros e a tornar competitiva relativamente às congéneres nacionais. Seriam “peanuts”, comparados com os prejuízos de empresas públicas regionais açorianas que todos conhecemos. Enquanto andarmos pelo blá-blá do empurra, quem perde nem é a Universidade, são os Açores. 
Jorge Medeiros: A vinda de públicos não tradicionais constitui sempre um objectivo de uma Universidade. Para tal há a necessidade de levar a universidade a esses públicos, fora dela, através de, por exemplo, exposições, actividades culturais, competições desportivas ou programas científicos. 
Uma especial atenção deve ser dada a outro tipo de público não tradicional, correspondente ao denominado público sénior, carenciado de formação ou sequioso de informação e que também necessita de ser atraído para a Universidade. Todos serão multiplicadores da imagem da Universidade dos Açores. 
Contudo, a internacionalização das universidades torna-se numa perspectiva de desenvolvimento que pensamos ser obrigatória. As suas actividades de formação, de investigação científica, de parceria estratégica, de transferência de tecnologia ou de afirmação social e cultural ganham sentido através da sua inserção em redes ou na multiplicação de contactos permanentes entre comunidades universitárias e de I&D.
A captação de estudantes internacionais torna-se assim numa necessidade quer para a Universidade dos Açores quer para as outras nacionais. Contudo, enquanto as outras beneficiam de fundos ao abrigo de programas operacionais nacionais, a Universidade dos Açores não pode aceder dada a sua localização geográfica, pois é necessário que o Governo dos Açores disponibilize os fundos necessários para que a Universidade dos Açores possa competir com as suas congéneres em pé de igualdade.

 Justifica-se a tripolaridade nos moldes em que ainda era reitor?
Vasco Garcia: Os tempos são outros, mas a responsabilidade pela tripolaridade, criada quando fundámos há 44 anos o Instituto Universitário dos Açores (esclareço que entrei no grupo antes, em fins de 1975) continua a ser uma questão política regional. Era assim na fundação, no meu entender foi e será sempre assim, pelo menos enquanto formos uma Região Autónoma com um Estatuto Político-Administrativo.
Jorge Medeiros: Na altura, foi decidido que seria constituída por três campus, dotados com as infra-estruturas necessárias, localizados nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial. A Universidade dos Açores é actualmente uma realidade nas 3 ilhas, tendo assim contribuído para o desenvolvimento destas. Na Universidade dos Açores são desenvolvidas como  grandes áreas do saber, as Ciências Sociais e Humanas, as Ciências e Tecnologia e as Ciências da Saúde, que devem ser desenvolvidas nos 3 pólos.  Contudo, atendendo à especialização de actividades na área da Oceanografia e Pescas na ilha do Faial, foram aí instaladas as infraestruturas físicas e humanas necessárias, orientadas para o desenvolvimento dessas áreas. No mesmo sentido, na ilha Terceira foram instaladas as infraestruturas físicas e humanas necessárias, ao desenvolvimento, em especial das Ciências Agrárias e Ambiente. Estas áreas do conhecimento foram sendo desenvolvidas nas referidas ilhas e hoje há já um saber adquirido. Portanto, é uma realidade imutável. Aliás, desta maneira, a Universidade tem contribuído para o desenvolvimento destas três ilhas. 
Hoje, qualquer avanço científico necessita da conjugação de vários saberes, pelo que haverá sempre a necessidade de conjugar os conhecimentos existentes nos 3 pólos referidos.
Penso que num futuro, a Universidade, ao ser denominada “dos Açores”, terá que ter não 3 pólos, mas sim 9, quanto muito digitais.

Acham que foi com a Universidade dos Açores que ao nível das empresas e das instituições públicas se melhorou o rácio sócio-cultural e atenuou-se as desigualdades sociais?
Vasco Garcia: Em relação às empresas e instituições públicas, sem dúvida que a Universidade foi uma lufada de ar fresco. Dos hospitais e centros de saúde, às escolas dos diferentes níveis de ensino, sente-se a presença benéfica e contagiante da Universidade dos Açores. Abriram-se portas e deram-se oportunidades sociais e culturais a quem de outro modo nunca as teria. 
Jorge Medeiros: Sem dúvida que a resposta é altamente positiva.
 A instalação da Universidade dos Açores na Região Autónoma dos Açores ganha contornos sócio-espaciais pela incorporação do contexto económico, político, cultural e histórico da sua envolvência nas funções que exerce, assumindo importância singular na dinâmica dos processos de desenvolvimento, articulados com a utilização dos espaços regionais.   
Através do desenvolvimento das suas actividades, orientadas para as diversas dimensões de intervenção no espaço geo-educacional, a universidade tem eleito políticas e definido o papel institucional necessário a uma interação entre a instituição e a comunidade da sua área de inserção. Assim, tem tido a possibilidade de oferecer condições para produzir e transmitir conhecimentos comprometidos com a realidade social, capacitar profissionais em estreita relação com as necessidades locais, desenvolver tecnologias adequadas ao meio, actuando como força impulsionadora do desenvolvimento regional, isto é, exercer um dos mais dinâmicos e importantes papéis, traduzido na formação de recursos humanos e no desenvolvimento da investigação e desenvolvimento tecnológico para colmatar carências regionais específicas. 
Por outro lado, há que considerar o impacto da Universidade dos Açores enquanto instituição empregadora e enquanto “cliente” de bens e serviços de empresas locais e regionais. O impacto no crescimento económico da região pode ser calculado em termos da criação directa ou indirecta de empregos e pelo consequente rendimento extra, gerado pela universidade que é incorporado na economia regional. Esse efeito multiplicador gera valores geralmente superiores aos da indústria devido à sua estrutura de mudança e à proporção dos gastos efectuados pelos seus funcionários e pelos seus alunos.
A UAc tem igualmente que ser considerada uma unidade indutora de crescimento económico da RAA pois afecta o mercado de trabalho, a taxa de formação de novas empresas, o desenvolvimento dos serviços locais e o efeito do capital humano nos padrões de investimento das empresas. 
Considerando o impacto no conhecimento, conclui-se que a difusão do saber para a Região tem sido transmitida por via dos estudantes da Universidade, através da realização de estágios ou projectos de investigação, dos diplomados e investigadores, bem como pela publicação e pela investigação, pelos contratos de investigação, missões de consultores que fomentam a inovação e a melhoria no domínio das tecnologias ou da gestão das organizações. Para além do retorno esperado em termos de produtividade a longo prazo, a presença de uma instituição como a Universidade dos Açores na Região tem influenciado a sua imagem, a capacidade de atracção de empresas, bem como altera as perspecivas culturais. A presença da Universidade dos Açores na Região Autónoma dos Açores confere-lhe uma dimensão significativa, em termos de estatuto intelectual, social e de aceitação, legitimando outras actividades na Região, como sejam, a realização de diversas manifestações científicas e culturais.

 Enquanto reitores, a questão do financiamento da Universidade foi um problema que tiveram de enfrentar. Em vosso entender, porque razão a República não compreende a insularidade académica e a necessidade de afectar mais meios financeiros à instituição?
Vasco Garcia: : Podia inverter a pergunta e interrogar qual a razão porque o Governo dos Açores não afecta mais meios a uma Universidade que, como o nome indica, é “dos Açores”. Suponho que é o velho jogo de pingue-pongue que satisfaz o sistema político-partidário e o enfraquecimento da autonomia universitária favorece.
Jorge Medeiros: Tive conhecimento, na cerimónia comemorativa do 44º aniversário da Universidade dos Açores, da situação financeira em que se encontravam as instituições de Ensino Superior nacionais, em especial, as situadas em territórios insulares e ultraperiféricos.
Se houve Governo português que, nas últimas duas décadas, se interessou pela resolução das questões financeiras relativas à Universidade dos Açores foi, sem dúvida, o XIX Governo Constitucional. Não quer isto dizer, que não houve que enfrentar enormes problemas financeiros que foram colocados durante a minha reitoria e que foram sempre do conhecimento público. 
Contudo, apesar da crise económica que o País atravessava (2010-2014) sempre tive, com os elementos do XIX Governo o melhor relacionamento e a ajuda incondicional na resolução dos gravíssimos problemas que se colocaram, especificamente à Universidade dos Açores, durante a minha Reitoria. Desde o seu início com o Secretário de Estado para o Ensino Superior, professor doutor João Fílipe Queiró e, posteriormente, com o professor doutor José Ferreira Gomes houve sempre um entendimento nas questões relacionadas com o financiamento da Universidade e uma vontade de resolvê-las.  
Quer por parte do Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, quer do Ministro da Educação e Ciência, professor doutor Nuno Crato, houve sempre a maior abertura possível na resolução dos problemas financeiros que se foram colocando. Desde a interrupção de recepções ao Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, por parte do Primeiro-ministro, até a múltiplas reuniões, algumas durante fins de semana, tudo aconteceu para resolver a situação crítica que a Universidade atravessava.
A iniciativa de avançar com um Plano de Recuperação Financeira surgiu por parte do Ministério da Educação e Ciência, com o apoio do Presidente do Governo dos Açores. Foi  apresentado aquando duma reunião de trabalho nos Açores. A Universidade dos Açores  apresentaria um Plano de reestruturação credível, bem como adoptaria medidas que, atendendo à sua natureza são de difícil quantificação, mas que visavam atenuar alguns dos efeitos resultantes das restantes medidas. Tais medidas relacionavam-se  com a rentabilização da oferta lectiva, e consistiam na diversificação da oferta do Ensino, alargando a abrangência da formação da Universidade dos Açores, captando novos públicos, com acções de formação contínua e de requalificação, aumentando o número de activos orientados para as necessidades da Região Autónoma dos Açores e do País, bem como, com a optimização da Relação Ensino/Investigação, aumentando o número de alunos de cursos de 2º e 3º ciclos, orientando-os para o desenvolvimento de projectos de investigação em áreas de excelência da Universidade dos Açores e ao mesmo tempo usando os bolseiros de doutoramento e pós-doutoramento na leccionação das disciplinas dos mesmos cursos.
Com o intuito de implementar tais medidas, após aprovação do referido plano, os défices dos próximos 3 anos seguintes seriam cobertos.
Apesar da incredulidade de alguns membros do Conselho Geral, a aprovação do plano foi célere permitindo assim a continuação do normal funcionamento da Universidade.
Se as medidas apontadas foram devidamente seguidas e cumpridas, não há razão para a Universidade dos Açores continuar numa situação de crise financeira. 
A situação actual poderá ser resolvida se o orçamento de Estado for indexado à população que cada instituição de Ensino Superior tem a seu cargo. É uma medida que está muito mais relacionada com a criação de uma Universidade, como polo de desenvolvimento de uma certa Região. Se no continente nacional proliferaram as instituições de ensino superior, a Universidade dos Açores foi a única instituição que foi criada na RAA.
 Acabava assim  a medida retrógrada da indexação do orçamento ao número de alunos de cada Instituição de Ensino Superior, que tem a ver com os anos anteriores, não permitindo às universidades antever o futuro e não estarem, muitas vezes, dimensionadas para oscilações anuais enormes da massa estudantil.
Finalmente, não há dúvida que os custos reais inerentes à existência da Universidade em mais do que uma Ilha, deverão ser cobertos, independentemente de serem tutelados ou não pelo Governo dos Açores, pela Região pois, como disse, o impacto da Universidade em mais do que uma ilha é enorme, permitindo o seu desenvolvimento sócio-cultural e financeiro. 

Qual a sua leitura do ensino académico na única instituição de ensino superior dos Açores?
Vasco Garcia:  Como em qualquer universidade, há áreas melhores, outras piores, tudo dependendo da qualidade dos docentes e da investigação científica que fazem, porque uma docência académica que não se apoia na experiência da investigação, não é universitária. Ora, para se fazer investigação de qualidade, são precisos meios e tempo, matérias inimigas da sobrecarga horária dos docentes. Temos equipas excelentes na avaliação nacional, outras classificadas com “bom”, mas é difícil avaliar o nível do ensino; nisso, os melhores avaliadores são os estudantes.

Como ex-reitor e ex-professor universitário, o que gostaria de ver acontecer na Universidade dos Açores?
Vasco Garcia: Aposentei-me como reitor em 2003, pelo que, se fosse na Universidade de Coimbra -- a minha “alma mater” -- seria Reitor Emérito. Estas tradições académicas devem ser acarinhadas, pois são essenciais para a vida estudantil. Falo com conhecimento de causa e efeito! A condição de professor catedrático, obtive-a por concurso público há 32 anos e procuro continuá-la nas intervenções que tenho na comunicação social e dentro da própria Universidade, a nossa “princesa das ilhas”, como lhe chamei há anos. Dêem-lhe condições para honrar os Açores, que ela os honrará no futuro, como soube fazer no passado.                       
 

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