12 de janeiro de 2020

Reivindicação cooperativa

1- O ensino superior nos Açores foi uma aspiração de há muito, e tornou-se assunto de discussão entre alunos do ensino secundário há mais de meio século atrás, alguns dos quais, na década de setenta, violando os cânones que regiam a política daquela época, resolveram criar uma comissão ad hoc, na qual participei activamente, e que produziu um documento que se tornou numa petição, subscrita por alunos do ensino secundário nos Açores, onde aparecia como primeiro subscritor Dr. Aníbal Cymbron Bettencourt Barbosa, antigo Director da Escola Industrial e Comercial, acompanhado de outros professores do ensino secundário, na qual se requeria que fosse criado o Ensino Superior em Ponta Delgada.
2- Essa petição foi entregue ao Doutor Augusto de Athayde, enquanto Secretário de Estado da Instrução e Cultura, que se encontrava em São Miguel integrado na visita do Ministro da Educação, Professor Veiga Simão.
3- Na ocasião foi prometido todo o empenho do Governo de Marcelo Caetano na criação do ensino superior, o que veio a acontecer em 1974, com a criação da Escola Normal Superior, decisão que frustrou as expectativas dos peticionários, porque o que se pretendia era a criação de uma universidade.
4- Com a Revolução de 25 de Abril, foi suspensa a instalação da Escola Normal Superior, e, em 1975, na Assembleia Constituinte é feito um requerimento acompanhado de uma intervenção política, a solicitar ao Governo que procedesse à criação de uma instituição de ensino superior nos Açores, vindo depois a ser criado o Instituto Universitário a 9 de Janeiro de 1976.
5- O projecto Autonómico que se vislumbrava ser aprovado pela Constituição de 1976, exigia que a Região tivesse capacidade para formar os quadros técnicos que precisaria para pôr de pé toda a nova estrutura governativa. 
6- Serve este intróito para lembrar que o ensino superior nasceu na Região por uma convergência reivindicativa que juntou estudantes, professores e poder político, que logrou depois, embora por etapas, que fosse criada a Universidade dos Açores, desdobrada por três pólos que respondem à nossa condição arquipelágica.
7- Convém não esquecer que há quem defenda o fim da tripolaridade da Uaç, tendo em conta os custos que acarreta para a instituição, enquanto que outros apostam na continuidade do modelo existente.  
8- A Universidade cresceu com a participação empenhada do Governo Regional que acudiu sempre de acordo com as disponibilidades financeiras em momentos dramáticos como foi o incêndio da Reitoria.
9- Construiu-se, imediatamente, um edifício de raiz para albergar os serviços desalojados, e procedeu-se à recuperação da reitoria, além da construção de um pólo situado paredes meias com o Jácome Correia.
10- Isto é, a Universidade foi sempre tida como um pilar determinante do edifício Autonómico e foi fundamental para a formação de quadros técnicos tão necessários para o desenvolvimento da Região. 
11- Na comemoração dos 44 anos da Universidade dos Açores, o Reitor João Luís Gaspar pôs a nu os constrangimentos financeiros que a instituição atravessa e realçou o alheamento político do Governo da República perante a realidade arquipelágica, consequentemente mais onerosa do que a realidade continental da generalidade das Universidades.
12- É lamentável o bloqueio político que existe quanto às necessidades financeiras da Universidade, e a passividade do Governo dos Açores perante a República, consequência da Autonomia cooperativa que afinal parece ser vantajosa só para emprestar dimensão e poder a Portugal.
13- Somos diferentes, porque estamos retalhados por nove Ilhas, sujeitos a terramotos, vulcões e outras tempestades. Resistimos com estoicidade, mas vive-se uma fase de resignação que afecta toda a sociedade e pode perigar o nosso futuro político. 
14- A Região tem de ter poder reivindicativo para ser tratada com justiça, e não se tornar submissa quando sendo desigual, for tratada de forma igual.
15- A cooperação não impede a reivindicação.
                    

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Categorias: Editorial

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