14 de janeiro de 2020

Crises ou capitalismo progressivo?

 


As sequelas da crise de 2008, ainda se fazem sentir, em Portugal e nos Açores, apesar de todos os sucessos, as desigualdades ainda subsistem? O salário mínimo, é dos mais baixos da União Europeia e por aí fora…
Diz-se por aí que a crise recessiva poderá atingir Portugal e os Açores já nos próximos anos. Estamos muito dependentes, das já tradicionais monoculturas, agora é o turismo. Não diversificamos. Vivemos como “num faz de conta”. Somos muito dependentes do exterior. Dos subsídios da Europa. Não produzimos. Não criamos riqueza. Estamos muito vulneráveis aos mercados, etc… Afirmam comentadores e observadores atentos à realidade açoriana.
Em Junho de 2018, um prestigiado académico da Universidade Católica Portuguesa, o Professor Doutor João César das Neves numa conferência proferida nos Açores, afirmava, ”…a próxima crise está-se a anunciar, já começa a haver sinais dela”, para e, referindo-se em particular aos Açores e aos subsídios, salientar “…o dinheiro grátis é uma coisa horrível. Conhece algum filho de pais ricos que seja bom e produtivo? A maior parte dos filhos de pais ricos são uns tipos que não fazem nada porque têm dinheiro grátis. O dinheiro grátis não é uma oportunidade, é um problema, é um defeito e esta região está mais em perigo…”
Crise antecipada? Percepção ou realidade? Vamos acreditar que na campanha para as eleições de Outubro de 2020, estas questões estejam na agenda dos candidatos, Sim? Não? Talvez?
 Na Holanda, por exemplo, o salário mínimo é quatro vezes mais. Será porque trabalham mais e têm ganhos de produtividade superiores? Ou será porque na Holanda, as grandes empresas da Europa, têm lá as suas sedes, pagando metade dos impostos, que pagariam nos seus países de origem, onde os lucros são gerados? Então como é isso possível? Se estão sempre a dizer-nos que o projecto europeu é para a união e solidariedade entre todos. Como ficamos? 
Não é isso, os holandeses são mais eficientes, enquanto os portugueses, açorianos, gregos, italianos, espanhóis, só pensam em “mulheres e copos”. Quem o afirmava, era o antigo presidente do euro grupo, o socialista e ministro das finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, entretanto substituído pelo “mago das finanças” português, Mário Centeno, que de cativação em cativação, e gestão rigorosa das contas públicas, conduziu o país ao equilíbrio orçamental, fundamental para receber o embate da crise antecipada que aí vem. Desconhece-se o que terá dito o camarada Mário ao homólogo Jeroen.
Centeno e Costa, hoje, aqui e agora, já estão a avisar que afinal o “ diabo sempre vai chegar”, não para já, mas lá mais para a frente. Qualquer semelhança, com o que em 2015 previa Passos, é pura coincidência. Vamos lá, não sejam “ingratos”, as conjunturas eram diferentes. Pois…
Ao contrário da de 2008, com o governo Sócrates, o actual procura antecipar a crise, que há-de vir, não se sabe é quando, por isso a frase chave dá pelo nome de “drama antecipado”. Na altura, certos comentadores, alinhados com as tendências neoliberais, procuravam passar a mensagem que se “ vivia acima das possibilidades”. Como sabemos, hoje, passados dez anos, os factos vieram comprovar e desmentir tais argumentos.
Os governos aceitam e antecipam, como o faz o português, o determinismo dos mercados financeiros, com as suas crises inevitáveis e com o incremento das desigualdades.
 Entretanto atente-se o que pensam académicos de inquestionável reputação, como o Prémio Nobel da Economia o americano Stiglitz.
 Em alternativa ao modelo neoliberal de demasiada desregulamentação financeira, que a globalização e o digital vieram agravar, Stiglitz propõe um novo modelo a que chama de “capitalismo progressivo”. Entre as várias linhas força destacam-se as seguintes:
-quebrar a ligação entre poder económico e político, começando por limitar a influência do dinheiro na política e reduzir a desigualdade na distribuição da riqueza, combatendo a demasiada concentração do mercado financeiro e assumir que é na investigação científica em prol do bem comum, que reside a riqueza das comunidades;
-reconhecer que o “mercado” é que gera, não só crises financeiras cíclicas, como as desigualdades e as alterações climáticas e ambientais, pelo que, não é nos mercados, que as soluções poderão ser encontradas, mas sim nos governos que têm de aumentar a regulamentação, em áreas como a saúde, educação, ambiente;
- os mercados ainda têm um papel crucial na facilitação da cooperação social, mas só cumprem esse objectivo se forem governados pelo Estado de Direito e sujeitos a controlos  democráticos. Caso contrário, as pessoas podem ficar ricas a explorar os outros, ao obterem riqueza através da procura de rendimentos, em vez de criarem riqueza por genuína estratégia. Muitos dos ricos de hoje seguiram o caminho da exploração para chegarem à posição em que estão. As economias com menos desigualdades têm melhor desempenho, salienta o defensor das reformas progressistas – capitalistas. 
Será que na interacção entre o capitalismo progressivo e o socialismo humanista, não poderá estar uma boa opção de política estrutural para o futuro? Não constituirá um bom ponto de partida, para dar resposta aos problemas concretos das pessoas, com bom senso e pragmatismo? Porque, afinal, como a história nos ensina, é ao “meio” que a virtude continuará a fazer o seu caminho… Contra os extremismos e as demagogias populistas, a Democracia e a Liberdade saíram sempre vencedoras!

 

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Categorias: Opinião

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