Jogo tradicional faz reviver os momentos de convívio de antigamente

Marralhinha ganhou dimensão nos últimos anos na ilha Terceira e já se estendeu a várias ilhas do arquipélago

Com sede inaugurada em 2019, no edifício da antiga escola primária da freguesia da Ribeirinha, no concelho de Angra do Heroísmo, a Associação de Jogos de Sala da Ilha Terceira foi fundada em 2015 por João Teixeira e mais algumas pessoas: “a ideia surgiu porque já organizávamos torneios de sueca e na altura tinha muita saída na época de Inverno, todos os domingos, nas sociedades e casas de povo. E como envolve dinheiro, fomos praticamente obrigados a criar a Associação para não acabar os torneios”. E assim, foi criada uma associação sem fins lucrativos para continuar a organização de torneios. No entanto, a faixa etária que mais participa nos torneios de sueca é o mais idoso.
A par dos torneios de sueca, organizam torneios da marralhinha, promovendo o jogo na ilha Terceira. Sobre a origem da mesma, o presidente da Associação explica que existem duas versões sobre como surgiu este jogo tão popular na ilha Terceira. A mais credível é de um emigrante que se encontra nos Estados Unidos, havendo a marralhinha numa versão um pouco diferente daquela que é jogada hoje. “Não sei se foi esse senhor ou algum colega que trouxe a marralhinha feita em madeira e já com o sistema adaptado com o qual é jogado hoje”. No entanto, existe uma versão de que era jogada muito numa zona da França. Segundo relatos, a versão que se considera mais credível é a primeira visto que a marralhinha começou a ser jogada em casa do emigrante. “Por volta de 2012, como já organizava torneios de sueca, comecei com um primo meu a organizar torneios de marralhinha. “Quando se formou a Associação, é que foi aquele click! Já em 2012, fazia-se torneios com 10, 12, 18 equipas no máximo. São equipas pares.” Em 2015, houve um boom. O jogo popular já se estendeu a outras ilhas, como São Miguel, Pico, Faial e São Jorge. “Quase todos os carpinteiros da ilha fabricam o jogo e enviam para fora. A Associação já enviou para a Bélgica, Suíça, Estados Unidos. “Um dos nossos patrocinadores, no Verão passado, enviou mais de 600”. Para João Teixeira, a divulgação é uma das grandes prioridades e desafios da Associação. 
“Abrimos as inscrições nos primeiros 15 dias de Agosto para depois começar em Outubro. Os torneios são realizados praticamente na ilha toda. O calendário já está feito até ao final de Abril, tendo inclusive pessoas ficado fora dos torneios devido à afluência dos mesmos”. Realizado em cada freguesia ou mais do que uma vez na mesma dependendo do número de pessoas inscritas e também da finalidade: escuteiros, comissões de festas, casas do povo, a freguesia da Agualva é que tem sido palco de mais eventos nos últimos tempos. 
Para além do jogo, é um momento de convívio e de lazer. Nos torneios de marralhinha, encontra-se pessoas de todas as idades. “As crianças podem jogar também. O dado é que manda. Já na sueca, é um jogo diferente. O ambiente na marralhinha é espectacular”, diz João Teixeira. Jogado por miúdos e graúdos, acrescenta que a marralhinha tem a vantagem de tirar as tecnologias das crianças, havendo confraternização. São criados laços de amizade e por vezes, “quando alguém falta a um torneio, questionam-se o que poderá ter acontecido”. A par dos torneios, a marralhinha também encontra-se também nas casas dos terceirenses: “acredito que não haja uma casa na ilha Terceira que não tenha uma marralhinha.”
Regra geral, as marralhinhas são feitas para 4 jogadores. “Há também para 6 e há quem faça para 8, mas só realizamos torneios para 4 e a pares. Já organizamos também torneio individual”. Há quem também opte por adquirir marralhinha para 6 jogadores, por exemplo, para a família toda jogar, conforme foi dito por João Teixeira. Apesar de ter as suas regras, existe quem opte por inventar regras. “As pessoas começaram a querer impor as suas regras, mas nós [Associação] tivemos que bater pé para manter as regras iniciais. No jogo da marralhinha, podemos descontrair pois o dado é que manda.” As casas do povo, os salões, as sedes dos escuteiros são palco dos torneios. Deste modo, também dão alguma dinâmica aos espaços onde são realizados os torneios. Há pouco mais de uma semana, realizaram um torneio solidário para angariar fundos para que Margarida possa ir a Boston fazer o transplante devido à doença respiratória crónica grave que foi diagnosticada em 2018. O torneio foi feito na sede: “a pessoa mais velha devia ter 82 anos e a mais nova à volta dos 10 anos”.
Para quem nunca jogou, João Teixeira aconselha a experimentar e com alguém com saiba bem as regras. “Há pessoas que me ligam de outras ilhas para confirmar as regras a meio do jogo. E havia uma zona aqui da ilha que chamava a marralhinha o jogo da cruz, mas hoje em dia já não é tanto”. Na página oficial da Associação, é possível visualizar as regras, bem como fotografias de torneios e de outros eventos realizados.
O maior torneio já realizado aconteceu na Terceira, para uma comissão de festas, tendo 154 equipas na Ladeira Grande, na Ribeirinha. “Há 2 anos, fomos a São Jorge com 24 pessoas e no passado fomos ao Pico, à Criação Velha, para jogar a marralhinha. É uma maneira de incentivar o jogo também. Algumas das equipas que foram ao Pico, deslocaram-se de propósito do Faial. Este ano, ainda não sabemos onde será realizado. Já é considerado um campeonato a nível Açores” conforme explica João Teixeira. Apesar da marralhinha já se ter instalado na maior ilha do arquipélago, a realização de um torneio ainda é uma hipótese que está em cima da mesa.

Rita Frias

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Autor: CA

Categorias: Regional

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