17 de janeiro de 2020

Chá da Cesta - 12

A aclimatação do chá fora da China

Na Coreia 
A Coreia fica situada a meio caminho entre China e o Japão. Apesar de a maioria das obras conhecidas ignorar o facto, a história do chá na Coreia é antiga e possui também, e citamos, “a sua via do chá, (…) os seus clássicos do chá, a sua poesia do chá.” 
Uma versão lendária refere que o chá foi levado para a Coreia no século II d.C. por uma princesa Indiana de Ayodhya que casou com o rei Suro, o primeiro rei de Garak, um pequeno reino no extremo sudeste da Península Coreana.  Lendas à parte, admite-se que a plantação sistemática e o consumo de chá foram introduzidos na Coreia a partir da China, por monges budistas, e desenvolvidos nos primeiros templos budistas do sudoeste da Península. Quando começou ao certo? A resposta, apesar de não ser lendária, continua a não ser factual, já que vários templos reivindicam a introdução da cultura do chá na Coreia.  Em termos factuais, “as primeiras provas claramente datáveis indicam que Heungdeok (r. 826-836) [d.C.], rei de Silla, recebeu em 828 sementes da dinastia Tang [618 d.C. – 907 d.C.], que enviou para serem lançadas à terra na Montanha de Jiri-san Mountain.” 
João Teles e Cunha diz que o chá começa a ser consumido na Península Coreana entre 55 e 668, no período conhecido por Três Reinos.  Existem provas de cultivo e fabrico do chá na Coreia a partir do Período de Unificação de Silla (618-935) [d.C.]. Prova do que se afirma é que, no século VIII, um Taoista Chinês, de visita à Coreia, elogiou a qualidade dos chás coreanos que, em sua opinião, apenas seria suplantada pela do chá da China.  Todavia, o chá na Coreia iria desaparecer gradualmente “com a grande purga do Budismo, em finais da dinastia Koryo [918-1392 d.C.], no século XIV.” 
No final do século XVI, já com os Europeus na Ásia, subsistiam poucas plantações de chá no sul da Coreia e a guerra de Sete Anos com o Japão (1592-1598) devastou o pouco que aí restava da sua cultura. Brother Anthony of Taizé, Hong Kyeong-He e Steven D. Owyoung, não são tão radicais a este respeito, pois falam, não em desaparecimento total, mas em declínio gradual, coincidente com a ascensão do Neo-confucionismo, a perda de influência do Budismo. No começo do século XIX, na Coreia poucas pessoas bebiam chá pelos métodos tradicionais. 
“A transmissão da via coreana do chá à geração actual foi quase obra da comunidade Budista; monges, continuando a fazer chá quando mais ninguém fazia.”  Ao fim de um longo interregno, “(…) a bebida viveu um notável renascimento no século XX, graças ao trabalho do grande nacionalista coreano, o monge Budista e Mestre do chá, Hyodang Choi Beom-Sul (1904-79), que, baseado na obra no monge Cho-ui, despertou o interesse dos Coreanos pelo chá.” 
Diferente da Coreia, será o caso do Japão, que iria desempenhar um importante papel inicial no comércio com a Europa.  

No Japão
De onde veio o chá para o Japão? A este respeito, em 1905, Wenceslau de Moraes (1854 Lisboa - 1929 - Tokushima, Japão), que residia desde 1897 no Japão, escreveu: “Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas não se sabe quando.”  Em 1906, o japonês Kakuzo Okakura (1862-1913) publica o seu livro The Book of Tea, em que diz: “Em 801 [d.C.] o monge Saicho trouxe da China algumas sementes de chá que lançou à terra em Yeisan.”  K. C.Wilson e M. N. Clifford, em 1992, seguem à letra Kakuzo Okakura. 
Mary Lou e Robert Heiss, em 2007, sem serem específicos, corroboram Kakuzo Okakura, reafirmando que foi no tempo do Imperador Saga: “(...) na era de Heian (794-1185), um período em que a influência Chinesa estava no seu auge e a classe dos samurais começava a ascender ao poder.”  Mary Lou e Robert Heiss, adiantam que o monge Japonês “(…) Kukai (774 - 835)” foi “o primeiro a regressar ao Japão a escrever sobre a sua experiência de consumidor de chá.”  Dando conta de outro momento, Mary Lou e Robert Heiss referem que, por volta do ano 1191, outro monge, da seita Zen, de nome Moyan Eisai trouxe sementes e plantas de chá para o Japão.” 

Rafael Buteau, ainda em 1712, referindo-se a Portugal, e comparando o chá do Japão com o da China, afirma que o chá do Japão era o melhor que se conhecia.  Em 1860, José do Canto manda vir sementes de chá do Japão e, em 1874, a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, não exclui a hipótese de mandar vir daí técnicos para o ensino do cultivo e fabrico de chá.  

Brother Anthony of Taizé, Hong Kyeong-He e Steven D. Owyoung, Korean Tea Classics, Seoul, 2010, p. 3. Tradução do original: “its way of tea, (…) and its own classics of Tea, its poetry of Tea.”
  Mok, Hanjae Yi, Venerable Cho-ui, Korean Tea Classics, Seoul, 2010, p. 3. Juntamente com o The Classic of Chá do Chinês Lu Yu (século VIII d.C), existem três livros coreanos que constituem a sua via do chá (ChaBu, de Hanjae Yi Mok – 1571-1498; Cha Sin Jeon; Dong Cha Song, de Cho-ui.
  Brother Anthony of Taizé, Ob. Cit., 2010, p. 3. Tradução do autor. 
  Idem. Tradução do autor.
  Enciclopédia Britânica: A Dinastia Silla unificada, (668-935), dinastia que uniu os três reinos da Península Coreana – Silla, Paekche e Koguryo. O antigo reino de Silla aliou-se à dinastia Tang (618-907) e conquistou a sudeste o reino de Paekche em 660 e o reino nortista de Koguryŏ – o maior dos três – em 668.
  Cunha, Ob. Cit., 2012, p. 290.
  Mair, Ob. Cit, 2009, pp. 250-51.Tradução do autor.  Mok, Ob. Cit., 2010, p. 4. Tradução do autor. 
  Mair, Ob. Cit., 2009, pp. 250-51. Tradução do autor.
  Para aprofundar o tema, por ordem cronológico de escrita, entre outros recomendados: Morais, Wenceslau, O Culto do Chá, 2007, Okakura, Kakuzo, The Book of tea, 2015, Sen Soshitu XV, The Japanese way of tea, University of Hawii Press, 1998.
  Moraes, Wenceslau, O Culto do Chá, Kobe, 1905, p. 11.Nasceu em 1854 na cidade de Lisboa e faleceu em 1929 na cidade de Tokushima, no Japão. Estabelece-se em Macau em 1885 e no Japão em 1897, onde era cônsul de Portugal em Kobe.
  Sen Soshitsu XV, Ob. Cit, 1998, p. 17. Tradução do autor.
  Wilson, Ob. Cit., p. 21.

Bela Aurora, Lugar Areias, Rabo de Peixe, Janeiro de 2020

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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