19 de janeiro de 2020

Os Açores não estão defendidos…

1- A propósito de uma iniciativa do Partido Comunista na Assembleia Legislativa dos Açores, que pretendia instar o Governo da República a clarificar as condições dos prestadores de serviço na Base das Lajes, o Presidente do Governo retomou a proposta feita mais do que uma vez, afirmando que não se deve mexer apenas na questão laboral, mas sim, fazer uma profunda revisão do acordo existente entre Portugal e os Estados Unidos da América sobre a utilização dos Açores na defesa do Atlântico.
2- O Presidente do Governo tem publicamente pedido a revisão do acordo em vigor, que perdeu validade pela retirada unilateral dos americanos.
3-  Noutros e neste caso, a Região confronta-se com uma indiferença sobranceira do Governo Português, que para salvaguardar outros interesses, não quer afrontar o seu parceiro, a começar pelo tão estafado problema da contaminação dos solos na Terceira.
4- E a prova disso, são as sucessivas declarações do Ministro dos Negócios Estrangeiros português, algumas delas produzidas na Assembleia da República em Julho de 2018, e que merecem ser relembradas:
5-  Santos Silva dando conta dos resultados da reunião bilateral de Maio, entre Portugal e os EUA, disse: “É um erro pensar que a cooperação entre Portugal e os Estados Unidos da América se reduz à questão das Lajes e é um erro que se paga caro”. Depois acrescentou que “Há uma consciência clara, por parte dos norte-americanos, da importância estratégica, em questões de natureza militar, de segurança marítima e de segurança energética, dos Açores e, em particular, da ilha Terceira”, mas lembrou de seguida que 30% da importação europeia de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos entra na Europa via porto de Sines”. Isto é como quem diz: 
6- Os Açores valem o que valem para a América, mas não podemos abrir a caixa de Pandora porque queremos ampliar  a rede de negócios tal como o porto de Sines.
7- A esperteza do Ministro dos Negócios Estrangeiros vai ao ponto de afirmar na Assembleia da República “Os EUA pensam com cuidado e ponderação a utilidade de usarem a ilha Terceira e as instalações logísticas do município da Praia da Vitória em matéria portuária para darem mais corpo e mais robustez ao fluxo de exportação de GNL para a Europa através de Portugal”.
8- Ora, nada mais falacioso, porque o fluxo de exportação para a Europa através de Portugal já está a ser feito por Sines e não pelo uso da capacidade disponível na Terceira, onde se evaporou o projecto anunciado com pompa e circunstância para a instalação de um entreposto de gás natural liquefeito no Porto da Praia da Vitória, que seria uma ponte entre os EUA e a Europa. 
9- O dinheiro europeu previsto para a instalação do GLP nos Açores, foi “desviado” para reforçar a ferrovia nacional, conforme explicou a representante da Associação de Distribuidores de Propano Canalizado (ADPC), na Comissão de Finanças, finalizando que o Governo tinha desistido daquela iniciativa.
10- É de pasmar, que o Governo dos Açores venha a saber da desistência de um projecto tão importante, da responsabilidade da República, e com a participação da Região, pela declaração da representante da Associação de Distribuidores de Propano Canalizado.
11- Isso mais parece “uma brincadeira de rapazes”, se não fosse uma coisa tão séria.
12-  Estamos perante um acto inqualificável da República que se serve dos Açores pensando apenas nos interesses próprios. 
13- A teimosia do Governo da República em não desencadear o pedido de revisão do acordo entre Portugal e os EUA para uso dos Açores, prova que ele serve apenas para beneficio de Portugal, e a desistência quanto à instalação do GLP nas Lajes revela um desconjuntamento absoluto na cooperação entre a Região e a República.
14- O que é verdade num dia, passa a mentira no dia seguinte.
15- Falta firmeza perante a razão que nos assiste, e temos de concluir que os Açores não estão defendidos do centralismo atávico de Lisboa. 
 

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Categorias: Editorial

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