21 de janeiro de 2020

Do Meu Olhar

Livrai-nos dos mentecaptos!

1. Um tal Ascenso Simões, que, ao que se sabe, desempenha funções de deputado da nação, eleito por Vila Real, que fica lá para Trás os Montes, pelas listas socialistas do nosso primeiro António Costa, chamou mentecaptos, alto e em bom som, das históricas bancadas do Parlamento nacional, aos Juizes do Tribunal de Contas do país chamado Portugal, referindo-se ao processo de venda de imóveis da Segurança Social à Câmara de Lisboa, com avaliações díspares, cujo Presidente, julgando-se o alcaide-mor do reino, também discordou de forma deselegante e grosseira da decisão daquele Tribunal. Ora, isto é um episódio inconcebível, intolerável e atrevido vindo de quem vem e com pontaria acertada aos juizes do Tribunal de Contas que, no mínimo, merecem respeito pelas altas funções que exercem e pelo Órgão de Soberania a que pertencem. Em democracia a liberdade de expressão possibilita-nos o uso de termos, adjetivos ou palavreado torto e azedo, quando não é ofensivo e excede os mínimos toleráveis pela Educação e pelos bons costumes, que hoje, em Portugal, passam por uma profunda crise, como se comprova por este lamentável episódio. Discordar faz parte do processo decisório seja em que setor for, mas há os canais próprios de discordância e de defesa dos pontos de vista das partes envolvidas, relevando-se sempre o contraditório. Mas não é na praça pública, seja em que edifício ou palácio for, que se digladiam razões e venenos, com respeito pelas mais elementares regras da convivência democrática! Depois queixamo-nos da forma como, nalguns casos, os cidadãos manifestam a sua discordância e pesar e às vezes raiva, pelas decisões dos Responsáveis detentores de poderes públicos pagos pelos nossos impostos. E para que este país não resvale para uma sociedade onde os padrões são a falta de educação, a falta de valores e a falta de respeito pelo outro e pelas Instituições, esperamos que o Tribunal de Contas não faça de conta que nada se passou e não deixe passar este triste episódio sem chamar à razão os prevaricadores! Mesmo que um deles seja deputado e o outro presidente da maior Câmara do país!

2. Em sequência daquele triste episódio, vamos falar novamente de Educação a propósito de um livro recentemente publicado nos EUA, da autoria de Martha Nussbaum, considerada uma da maiores pensadoras norte americanas da atualidade. E o que é que nos levou a isso ? Primeiro, porque nunca nos cansamos de falar no primeiro pilar do desenvolvimento de uma terra ou de uma região que determina o seu futuro, que é a construção da Educação e em segundo lugar, porque a autora do livro afirma que este processo está a passar por uma crise gigantesca no mundo em geral e em todas as regiões em particular e é mesmo o maior problema civilizacional da atualidade. Vale a pena repetir que tudo começa e acaba na família e, por isso, os investimentos devem ser canalizados para aquele núcleo da sociedade garantindo a sua permanente e indispensável participação. Que nos vale dar subsídios e elaborar leis se tudo fica na mesma, se não se registam progressos nem evolução nos resultados ? Que nos vale ter edifícios escolares modernos e até luxuosos com professores bem formados mas cuja organizaçãoe exigências burocráticas abafam o sistema ? Há sempre uns tecnocratas de secretária que desenham uns currículos irrealistas que obrigam a horários desfasados e a não olhar para o aluno tal qual ele é, respeitando o seu desenvolvimento e ritmo de aprendizagem, procurando respeitar os seus talentos nas mais variadas áreas, não os afogando apenas com as línguas e as matemáticas. O sinal dado nestes últimos tempos é mesmo esse, ou seja, esvazia-se sobremaneira as artes e as humanidades, a cidadania e a relevância dos valores que humanizam o ser humano, que elevam o pensamento e que lhes moldam o coração. Falta na Escola a reposição da Autoridade com urgência e a ligação imprescindível aos pais, numa caminhada lado a lado, sempre lado a lado, com novas estratégias, novas experiências, novas rotas pedagógicas, novidades didáticas, no respeito inviolável pela personalidade de cada aluno, pela sua velocidade de conhecimento, pelo seu interesse, pela sua capacidade de retenção da matéria lecionada, pela sua disponibilidade, pelo seu desempenho na sala e fora dela, pela capacidade de estudo, pelo espírito de equipa, pelo respeito por si e pelos outros e pela possibilidade de mudar quando os escolhos forem intransponíveis! Ou seja, é preciso reinventar a Educação neste ano da graça de 2020.

3. Dr. João Carreira é o novo presidente do IAC- Instituto de Apoio à Criança, substituindo a veneranda senhora professora, dona Cinelândia Cogumbreiro que, com a sua proveta idade, passou a gozar a sua merecida aposentação.
Dona Cinelândia, como é conhecida, foi ( e ainda é ) um exemplo de cidadã e de competente profissional da Educação. De uma educação e trato esmerados, sempre foi o exemplo mais sublime de uma dedicada docente que pensava a Educação a sério e se apaixonava por novos projetos de apoio à criança, a quem se dedicou de alma e coração toda a sua vida. O IAC muito lhe deve nos prestáveis serviços que desempenhou com arte e saber e com esforço e dedicação inigualáveis. Julgo que já lhe foram tributados os reconhecimentos oficiais de que é justa merecedora. Mas se ainda algum falta, é altura certa de o fazer. Da nossa parte, estas palavras não cabem no tamanho do nosso imenso reconhecimento e admiração pela sua pessoa e pelo seu laborioso currículo.

  Em dia de São Sebastião de 2020

 

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Categorias: Opinião

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