Polícia Judiciária investiga desaparecimento da jovem Cármen Achadinha em São Miguel

 A Polícia Judiciária iniciou ontem investigações para encontrar a jovem Carmen Achadinha que é dada como desaparecida na ilha de São Miguel, soube o Correio dos Açores.
A Polícia judiciária teve conhecimento deste desaparecimento pelas redes sociais e encontrou razões para iniciar as investigações, apesar de até ontem não ter sida informada do caso por familiares ou pessoas próximas. 
O desaparecimento de Cármen Achadinha Moniz desde o dia 16 do corrente, há sete dias, foi dado por Yara Moniz na sua página do Facebook. Yara tem no seu perfil a informação de que trabalha na Casa dos Manais, uma instituição que serve refeições a necessitados devidamente identificados e/ou pessoas sem abrigo em Ponta Delgada.
O Correio dos Açores fez uma reportagem, da autoria da jornalista Carla Dias, em Outubro de 2017 com Cármen Achadinha que é casada há sete anos com Nelson. A vida de ambos, até então, não tinha sido fácil.
Ambos assumiram, na altura, que tinham passados de toxicodependência, de tendências suicidas e com família que se recusava a ajudá-los. Os dois estavam há cerca de três meses em situação de sem-abrigo. Quer dizer, encontraram nuns armazéns abandonados em São Gonçalo aquilo a que chamam “abrigo” mas onde as condições não eram nem dignas nem de habitabilidade. 
Num barracão abandonado, o casal tinha o seu “quarto” que funcionava como cozinha, sala e quarto. O espaço está forrado com placas de cortiça, mas o mofo preto que se ia vendo nas paredes “não faz bem à asma dele”, disse Carmen que afirmou que, apesar do espaço ter limitações, “tem de estar sempre limpo senão é pior para ele”.
O espaço onde estavam os dois sentados, que servia de cama, só está ali há três dias, porque antes dormiam no chão daquele mesmo local. Nas paredes há declarações de amor, de família, escritas a negro e prateado. Na pequena mesa onde depositavam as velas que acendiam para ter alguma luz à noite, havia várias estampas de santos, sem esquecer o Senhor Santo Cristo dos Milagres. “Santos não faltam, é preciso é o milagre”, disse Cármen olhando em redor para a roupa que teve de colocar a um canto “para poder amparar a chuva” que ali escorre pela parede. 
O casal estava a viver no local há três meses depois de “ficarmos sem sítios para estar”, afirma Nelson Achadinha que refere que a escolha do local foi para se manterem os dois juntos porque “não a quero abandonar”. 
Cármen tem tendências suicidas e conta que já por várias vezes é Nelson que “chega na altura errada” e a consegue salvar das várias tentativas de cortes de braços ou de cortes de garganta. 
Antes disso, viveram num quarto alugado onde moravam com a filha que entretanto nasceu e que desde os seis meses está numa instituição. Tudo por “um mal-entendido”, garante Nelson já que a irmã de Carmen, a viver no Faial, terá dito que naquela ilha a vida era melhor e queria levar a bebé consigo para a tal vida melhor. Acabou por deixá-la numa instituição, dizem, onde a visitavam mas onde tinham “de ir em condições, com banho tomado e limpos”, caso contrário não os deixam ver a menina. 
O problema é que nas condições em que viviam tinham de andar a pedinchar água em garrafões para poderem fazer a sua higiene pessoal mas “vamos pedir e nem nos querem dar água”, afirma Nelson ao que Carmen complementou que “já não tomo banho há cinco dias”, fazendo apenas a higiene íntima. Antes de chegarem àquele antigo armazém, Nelson esteve no Drop-In da Associação Novo Dia e estava no CAT (Centro de Acolhimento a Toxicodependentes) da mesma associação enquanto Carmen estava em casa da mãe até que “a minha mãe escolheu o meu padrasto em vez de me escolher a mim” e pô-la fora de casa. 
A mãe de Cármen, entretanto, à data da reportagem (Outubro de 2017) tinha falecido há cerca de um mês, e o pai faleceu tinha ela 14 anos, altura em que, admitiu, “deixei a escola e entreguei-me ao vício”. 
Em Outubro de 2017 estavam ambos no programa de metadona, uma modalidade de tratamento da toxicodependência, e Nelson admitiu que foram novamente pedir ajuda à Associação Novo Dia antes de serem sem-abrigo. 
Referiram que o Drop-In (uma valência que oferece acolhimento de emergência por períodos de curto espaço de tempo) “tem muitas pessoas que estão na droga” e o casal tinha de estar separado: ela num espaço junto com outras mulheres e ele noutro espaço dedicado aos homens. 
Dizem que o assistente social que os acompanhava na associação “era o mesmo que nada” e acusaram a associação de estar desenhada apenas “para quem quer continuar nessa vida da toxicodependência” e de não apresentar soluções viáveis para casais que queriam ter o seu espaço e continuar como casais. “Preocupam-se mais com repatriados e com drogados do que com quem quer recomeçar a vida”, acusou Nelson Achadinha que diz que, entretanto, também já foram pedir ajuda à Segurança Social mas a única resposta é que apenas podem ser ajudados com apoio ao arrendamento. 
A questão, disseram, é que não conseguem encontrar um quarto para pagar porque ninguém lhes quer alugar um espaço dado o seu historial de dependências e sem-abrigo. A única ajuda que tinham, então, da Segurança Social eram 180 euros mensais de Rendimento Social de Inserção para poderem ter algo mais do que a refeição diária durante a semana que recebem na Casa dos Manaias. “E ao fim-de-semana?”, questionam relativamente ao facto de naquela Casa poderem ter alguma ocupação, poderem tomar banho e ter uma refeição à noite mas durante o fim-de-semana “não temos nada disso e a ocupação que têm é estarem lá e ir fazendo uns trabalhos manuais mas nós queríamos mais”. A comida que iam tendo durante o dia é a que costumavam pedir junto a uma superfície comercial e geralmente o pouco que conseguiam dava apenas para comprar duas embalagens de macarrão instantâneo que é geralmente o almoço que partilham. 
Cármen diz que “queríamos um sítio para estarmos, para poder dormir, porque ninguém consegue estar sem tomar banho e sem comer”, referiu ao acrescentar que só assim podem “procurar trabalho e tentar endireitar a vida”. 
Até lá, dizem que vão continuar a procurar uma solução mas “da associação Novo Dia e da Segurança Social já não espero nada”, afirmou Nelson Achadinha já desmotivado por nem sequer a família, de um lado e do outro, os querer ajudar. 
Confrontado com o caso deste casal que passou pela Associação Novo Dia, o coordenador da associação, Paulo Fontes, reconheceu que o casal já esteve várias vezes na instituição e Nelson Achadinha até abandonou o espaço que tinha na instituição para ir ter com a esposa, deixando o lugar vago. 
Paulo Fontes admite que a equipa de rua da Associação Novo Dia tem estado em contacto com Carmen e Nelson Achadinha. “Continuamos a ajudá-los”, admite o coordenador da associação que está disposta a ajudá-los se o casal assim o entender. 
A questão, refere Paulo Fontes, é que “é difícil dar resposta adequada a casais”.
Desde esta reportagem até hoje passaram dois anos e três meses até ao anúncio do desaparecimento de Cármen Achadinha e ao início das investigações da Polícia Judiciária.
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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