Fontes Vivas (24), em parceria com o Museu Militar – Alfredo Moniz

“A juventude da época do Ultramar foi um pouco sacrificada”

Comece por falar um pouco sobre si.
Nasci em 1934 e sou natural das Capelas, onde ainda resido. Fiz os meus estudos aqui em São Miguel e depois fui para a Academia Militar, que antigamente era a Escola do Exército. Quando saí no final da formação, fui logo para África, em 1957. Fiz uma comissão em Angola. 
Após o início da guerra, realizei mais 4 comissões até ao final, “até fechar a guerra”, ou seja, em 1975. Normalmente fazia-se uma comissão e regressava-se à Metrópole [Lisboa]. Durante o tempo em que estávamos cá, nem chegava a 1 ano. E foi sempre assim. Nunca cheguei estar 1 ano completo cá. O máximo que estive foram 11 meses. 

Como era Luanda antes da guerra?
Era uma cidade maravilhosa, uma “aldeia” grande. A vida era outra e mais fácil. E não se me apercebi bem daquela revolta que depois se deu em 1961, quando aquilo arrebentou, assim por dizer. Vim de lá em Janeiro de 1960 e não me apercebi que houvesse qualquer coisa. Embora já houvesse problemas relacionados com o país vizinho, o Congo, tanto que tivemos de reforçar as fronteiras com alguns militares. E é nesta altura, quando me encontrava em Luanda, digamos, que fui nomeado para um quartel que ficava em Maquela do Zombo. Entretanto, recebi um convite para os paraquedistas e aceitei. Já não cheguei a ir para o Norte, que foi quando finalizei a minha primeira comissão. 

Como foi assistir ao início da guerra?
Aquele princípio de guerra foi um bocado difícil. Vimos mortos, pessoas chacinadas…não percebíamos bem porque faziam aquilo. O movimento mais importante ou aquele que começou com aquilo tudo foi a FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola. Depois é que apareceu o MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angol- e por fim, a UNITA - União Nacional para a Independência Total de Angola. Este último movimento não era tão violento como os outros dois. A Frente Nacional de Libertação de Angola era muito violenta. Matava por matar! Alguns movimentos revolucionários são assim… agora, digamos que nós é que ganhamos a guerra.

Porque diz isso?
Quando em 1974, se deu a Revolução dos Cravos, já não havia guerra. Estávamos lá, mas era muito raro acontecer alguma coisa. Onde ainda havia resquícios mais violentos era na Guiné, mas em Angola e em Moçambique, não. 

Apanhou várias fases: o antes, o durante e o depois do Ultramar.
É algo difícil de acreditar… (risos). 

Já tinha um pouco de noção para o que é que ia ao longo das comissões.
Quem tinha alguma instrução, percebia o que estava a passar.

Esteve em Angola e em Moçambique entre que anos?
Estive entre Junho de 1961 e Setembro de 1963 no norte de Angola. Depois, fiz duas comissões seguidas em Moçambique: entre 1964 e 1966. Até 1965, estive em Niassa e depois fui para a Escola de Aplicação de Moçambique, em Boane, dar instrução a militares. Estive lá até a fins de 1966 e regressei para o norte do país. Foi uma experiência um pouco dura porque era uma companhia que estava durante 1 ano inteiro isolada. Recebíamos a alimentação por avião de 15 em 15 dias. Era uma companhia composta com soldados com penas de cadeia elevadas, nomeadamente homens violentos. Foi aí que apanhei o pior ataque. Devido a um rebentamento de uma granada, fiquei com dificuldades de audição no ouvido esquerdo. Voltei a Angola em 1971. Aliás, ofereci-me para ir.

Porque se voluntariou?
Gostava do Ultramar, da vida militar, mas mais da parte operacional. Estar num quartel, entre quatro paredes, não. Além disso, era uma vida diferente. Por vezes, tínhamos que engolir sapos, como em todo o lado. 

Onde estava quando ocorreu o 25 de Abril? E como foi saber deste acontecimento?
Estava em Cabinda, em Angola. Era o 2.º comandante do batalhão. Achamos normal porque estávamos um pouco saturados da guerra.

Principalmente no seu caso…
Sim. E lá, tive uma passagem um pouco infeliz. Fui preso 6 meses depois, em Novembro, por questões políticas lá dos movimentos. E por quê? Por dar o poder só a um partido e não concordávamos com isso. Se era uma democracia, era para todos e não só para um. Também estive preso por poucas horas. O General-comandante foi lá e libertou todos os que tinham sido presos. A revolução foi feita de uma maneira correcta. O que foi feito depois é que não. 

Refere-se ao processo de independência das colónias.
Devíamos ter preparado os países para serem independentes e não entregar a partidos que na altura não tinham pessoas preparadas para cumprir aquela tarefa. O que se passou depois do 25 de Abril em Angola e em Moçambique foi muito violento. E um pouco confuso. Estávamos à espera que se preparem-se os países com quadros para fazer aquilo tudo… e nada se fez. Em Luanda, houve muita violência. A nossa tropa reagiu, mas estava cansada.

Como era o ambiente entre a população local e as tropas militares portuguesas durante a guerra?
As populações viviam a sua vida. Todos se davam bem. Nós éramos todos iguais, embora haja quem diga que nós [militares] fomos racistas. Foram experiências realmente notáveis. Passei, vivi, uma passagem, de uma fase para outra. É bonito de se ver, mas triste de se assistir a essas coisas… O pior já tinha passado, que foi em 1961. 

Considera então o início da guerra o período mais complicado para si.
Sim, porque fomos para lá com poucos meios de apoio, mas com soldados que eram uma juventude extraordinária. Os jovens que foram comigo eram extraordinários. Fazíamos sempre tudo bem feito. 

O que fez durante as comissões?
A primeira comissão foi praticamente confronto militar. Nas outras comissões, além da guerra que já era menor, defendíamos a população local. A política não era connosco. Era algo que estava afastado de nós.

O que nos pode contar sobre a suposta missão clandestina em 1976?
Tinha acabado de chegar de Angola. E houve um colega que falou comigo dizendo que eu ia regressar com ele. Disse-lhe logo que estava maluquinho da cabeça. Então tinha acabado de regressar de Luanda e ia voltar? Mas fui… Apareceu-me um dia lá em casa e dali a uma hora, fomos para o aeroporto. Fomos para Angola através de África do Sul. Estivemos no sul de Angola cerca de 2 meses. Aqui, nesta zona, a violência era mais branda, ao contrário do que acontecia no norte. Também suponho que tivesse a ver com uma questão entre as tribos. A missão consistia em trazer cerca 9 mil pessoas que estavam lá encurraladas. Trouxemos 11 mil e tal.

O tal processo de descolonização que foi mal feito…
Foi muito difícil. Houve pessoas que perderam tudo! As que fomos buscar, a maior parte, não tinha quase nada. Mas algumas tinham grandes empresas e houve quem as transferisse para a Namíbia. Não havia possibilidade de transferir tudo para Portugal Continental. 
Tínhamos que ter aviões para transportar aquela gente toda. No meio daquilo tudo, houve muitas pessoas que quiseram vir. Mas correu tudo bem. Quem mandava naquela zona, era o exército sul-africano. Nós andávamos lá com a protecção deste. Não havia outra possibilidade porque já não havia tropas portuguesas.

E mantinha contacto com a família?
Graças ao Movimento Nacional Feminino. As dificuldades eram muitas e no norte de Angola, fazer chegar correio lá, não era fácil. Recebíamos correio de 10 em 10 dias ou 15 em 15 dias. Outras vezes, nem isso. Era casado e a minha filha nasceu nas vésperas de ir para Angola. Nasceu em Janeiro de 1961 e fui mobilizado no dia do baptizado dela. Estava em casa com a família a comemorar e a fazer festa quando bateram à porta e entregaram um telegrama a dizer para me apresentar no dia seguinte. E foi aí que começou a minha odisseia do Ultramar. A minha mulher aceitou bem e foi ter comigo duas vezes. Aquando do 25 de Abril, encontrava-se comigo juntamente com a nossa filha e a minha sogra, mas depois mandei-as para Lisboa no início da “confusão” que estava por vir. Tinha que ser, por uma questão de protecção.

Como vê o estado das antigas colónias?
Penso que estão bem encaminhadas. Passaram por um período bastante difícil logo a seguir ao 25 de Abril. Foram períodos de vida muito difícil devido à falta de quadros políticos. 

Como foi o Ultramar para si?
Para mim, foi uma experiência extraordinária e enriquecedora. Outros povos, outros costumes, outras vivências…É bom viver isso. Se tivesse 20 ou 30 anos, tinha participado de outra maneira. Tenho realmente saudades de Angola e de Moçambique. Mesmo entre a população, nós tínhamos muitas amizades. 
Mas a juventude daquela época foi um bocado sacrificada. Actualmente, já é diferente. Existem outros meios para fazer uma guerra. Agora, já se faz guerra estando sentado numa secretária a controlar um drone! Ainda me recordo que em 1961, nas operações do norte de Angola, a nossa alimentação era uma caixinha por dia com duas latas de conserva e um pacote de bolachas. 
Há coisa de 1 mês e meio, estive em Lisboa. O meu curso da Academia Militar reúne-se todos os anos para um almoço. Um dos meus colegas de curso disse-me que às vezes se põe a ler coisas que foram escritas sobre o Ultramar: “muita coisa se disse”. E respondi-lhe: “nem todas são verdade”. 
Às vezes, ponho-me a pensar nas primeiras grandes operações que fiz no norte da Angola, nomeadamente as dicas que eram dadas entre os soldados. São coisas que ficam na memória, embora já não esteja muito boa… mas as saudades são muitas. 

Que memórias guarda da sua passagem por África?
Quando fui para Angola pela primeira vez, em 1957, desconhecia como era o clima. E aconteceu uma coisa engraçada. Num domingo, fui à piscina. Cheguei lá e a piscina vazia. Estávamos na época do Cacimbo (uma época de frio que decorre entre Maio e Agosto)! Mas para mim, estava calor. Em qualquer uma das épocas! 
Ainda me recordo que na minha primeira comissão, fui comandar um destacamento para a fronteira leste de Angola, mais propriamente na “zona dos diamantes” e lá vi as trovoadas mais lindas que se pode ver na vida! À noite, parecia que estava de dia! Impressionante… O nascer do sol também era diferente. O sol tinha o dobro ou o triplo do tamanho… Em Cabinda, um clima era um pouco violento. É muito quente porque encontra-se localizado perto da linha equatorial. O luar era uma coisa linda. Foram “espectáculos” que o Ultramar tinha. Para além dos animais. 

Apanhou algum susto com animais?
Apanhei uma vez com elefantes, isto em 1961. Estávamos a montar uma emboscada numa picada. A certa altura, começámos a ouvir um barulho e diz-me um soldado: “isto não é pessoal a partir rama”. Dali a uns 10 minutos, vemos passar a 30-40 metros de nós cerca de meia dúzia de elefantes. 
Um animal muito lindo de se observar, que tive oportunidade de ver, mas muito raro, era a palanca-negra. É um animal extraordinário. Já leões havia por todo o lado! E metiam medo. Uma vez, enquanto estava num destacamento em Lunda, estava à noite no quarto, numa casa próxima do quartel, e ouvi uns barulhos. E depois uns gritos. Vou à janela e vejo 3 leões a passarem em frente. Os gritos foram dados pelo sentinela que estava de vigia! (risos)

 

Print
Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima