Gualter Couto em destaque no panorama do Metal Progressivo

“Espero que a minha banda continue a crescer e a chegar a palcos cada vez maiores”

Como e quando se apercebe deste seu talento musical? 
Considero mais um fascínio que tenho pela música e pela bateria, do que talento. A meu ver, o talento é consequência do gosto, empenho, dedicação e tempo que se investe numa actividade.
O meu interesse pela bateria surgiu aquando da minha descoberta do género musical Heavy Metal. Devia ter cerca de 12 ou 13 anos. A espectacularidade de bandas como Metallica e IronMaiden despertaram o meu interesse e quis aprender esse instrumento para poder ter a minha própria banda.
O meu pai ofereceu-me uma bateria quando fiz 14 anos e comecei a aprender sozinho, tentando imitar os meus ídolos.

Que razões o levaram a viver na Inglaterra? Como foi a adaptação? 
Eu queria experimentar viver no estrangeiro desde muito jovem. Inglaterra sempre me atraiu e Londres, para além de ser uma cidade incrível, é também uma das capitais mundiais em termos de arte, cultura e diversidade. Em retrospectiva, posso dizer que, naturalmente, iriam haver - e houveram de facto algumas dificuldades, mas conseguimos adaptar-nos bem. Eu e a minha namorada sempre vivemos nos Açores e mudamo-nos para um sítio com um ritmo, regras, valores, costumes e proporções muito diferentes que, em grande parte, nos eram desconhecidos. Já estávamos à espera que a adaptação pudesse levar algum tempo.

Como correu a audição para integrar a banda Flight of Eden?
 As composições da banda são extremamente ricas e complexas. Há bastante informação em cada tema. Precisei de várias horas de estudo para memorizar a quantidade de material e, igualmente, foi necessário algum tempo para conseguir reproduzir fisicamente o que me era pedido. Tive de me preparar em termos de independência e memória muscular para executar certos ritmos e padrões de forma natural. Foi um desafio, mas tive algumas semanas para me preparar. 
O facto de poder aprender coisas novas, tentar melhorar as minhas capacidades, poder criar e desenvolver ideias menos convencionais que sejam, sobretudo, interessantes, dá-me imensa satisfação pessoal.
A audição correu bem, as nossas personalidades, gostos e pontos de vista são similares em muitos aspectos. Musicalmente, funcionamos muito bem em conjunto e, por isso, considero que foi um sucesso.

Os Fligh to fEden foram um dos nomes de grande destaque na programação do Festival Monte Verde. Como viveste aqueles momentos actuando na tua terra de origem? 
Vivi com muito orgulho, com alguma ansiedade também, para que as coisas corressem bem, mas acima de tudo, estar entre amigos e antigos colegas de bandas e ter o apoio do público foi uma alegria muito grande. O facto de o recinto estar cheio aquando da nossa actuação e de o público nos apoiar com fervor e nos abordar após o espectáculo é, de certa forma, um prémio pelo que tenho feito ao longo dos anos, e significa que as pessoas reconhecem e dão valor ao meu trabalho e dedicação. Valorizo muito a sorte que tenho.

Vocês constituem uma banda de metal progressivo, estilo de rock mais pesado, certo? Como é a reacção do público às vossas actuações? 
O nosso estilo é o “metal progressivo”, com especial ênfase no emprego de compassos complexos (odd time signatures), métricas compostas ou polimétricas (polyrhytms), e estruturas menos convencionais.
Efectivamente, é um estilo mais pesado, mas tal como o “rock progressivo”, tenta expandir as fronteiras entres estilos musicais.
Normalmente, o público que nos vem ver, salvo alguns curiosos, já é de certa forma apreciador deste tipo de sonoridades mais pesadas. Regra geral, as pessoas assistem aos nossos concertos para se divertir, partilhar a energia e desfrutar do espectáculo. Outros preferem estar mais calmos ou absorver e apreciar as ideias que estamos a apresentar.

Qual a importância das redes sociais na carreira? 
São indispensáveis. Criei o meu vídeo portfólio no YouTube que, definitivamente, me tem aberto outras portas e permitido a minha candidatura a outros tipos de trabalhos e sessões. Para além de conseguir chegar ao meu público-alvo e criar contactos, tenho uma exposição e liberdade muito grandes.

A sua actividade artística centra-se muito como baterista. Acha possível uma eventual actuação a solo, já que há uma nudez artística na execução de temas? 
Um solo de bateria, se colocado numa situação específica, com as ideias certas tendo em consideração os ouvintes, pode ser interessante, propositado e de grande valor recreativo. De facto, já tive a oportunidade de executar alguns solos ao longo dos anos, como por exemplo na abertura da cerimónia “Prémios Música Açores” no Coliseu Micaelense em 2008.

Considera que há criação nesta vertente musical? Acha que a bateria é valorizada num concerto musical? 
Sem dúvida. Considero que existem imensas possibilidades criativas. Estão sempre a aparecer novas abordagens, técnicas, estilos e pontos de vista. 
Aprecio bateristas que conseguem enriquecer a música através das suas ideias peculiares ou cunho pessoal. O “feeling” ou mensagem transmitidas em uma composição ou performance podem mudar, conforme a abordagem do baterista para com as mesmas.
Parâmetros como o andamento, tempo, intensidade, orquestração, vocabulário e toque do baterista fazem a diferença na sonoridade das bandas e são apreciáveis. Muitas vezes, o ouvinte pode não notar ou prestar atenção especificamente ao que o baterista está a fazer, mas a sua presença e influência é complementar aos temas. A música, para além da melodia e harmonia, tem sempre uma base rítmica.

Estudou bateria no prestigiado BerkleeCollege of Music, EUA. Fale da experiência.
Visitei o campus em Boston por uma semana, aquando do Berklee Percussion Festival em 2010 e, depois, decidi estudar bateria online através da Berklee Online School. Visitar a Berklee e o festival foi uma experiência muito enriquecedora que recomendo fortemente. Vive-se um ambiente extraordinário entre colegas, e os conhecimentos transmitidos pelos professores nos workshops são vastos e diversos. Esta experiência serviu como forte motivação para estudar na Berkleeonline.

Qual foi o primeiro projecto musical?
O meu primeiro projeto foi aos 14 anos com os meus colegas de escola, formámos uma banda chamada First Commandment. Fomos fortemente inspirados pela explosão do subgénero musical “Nu Metal” com bandas como Korn, System of a Down e Slipknot a liderar o panorama.

Como foi a primeira vez em público? 
Foi com a mesma banda, First Commandment, em 2000, num festival da Juventude nos Fenais da Luz. Tínhamos todos entre 15 e 16 anos. Foi uma boa experiência, divertimo-nos bastante, lembro-me de estarmos felizes por estar no palco e por conhecer músicos mais experientes de outras bandas.

O que acha do panorama musical açoriano?
Têm surgido grandes jovens talentos a tocar música original nos Açores. Há também uma maior variedade de géneros a serem tocados e há mais lugares e oportunidades para os músicos se poderem exprimir. Penso que o panorama está mais rico neste aspecto. Igualmente, os músicos e compositores que resistem da “velha guarda”, continuam a criar bom material, de maneira consistente. 
Noto também que a comunidade musical não está tão unida como já foi, havia mais eventos criados por músicos para músicos e, estes, juntavam- se regularmente criando um meio forte em que se partilhavam ideias/pontos de vista. Havia uma maior comunidade de rock e heavy metal e havia também um sentimento de pertença e de orgulho colectivo no nosso meio musical. Mas, em geral, vejo a situação do panorama actual de uma maneira positiva. Deram-se grandes passos em termos de qualidade e projecção do que se faz na nossa terra.

Qual o sonho que gostaria de concretizar, enquanto músico?
O facto de ainda poder tocar música que gosto e ter a oportunidade de partilhar com um público, é muito importante para mim. O que vier por acréscimo é sempre bem-vindo. Quero poder continuar a desenvolver-me como músico, a divertir-me, e espero que a minha banda continue a crescer e a chegar a palcos cada vez maiores.
Espero também que haja uma boa recepção ao novo álbum de Flight of Eden (Dante`s Inferno). O álbum será lançado, em princípio, até ao mês de Março, e seguir-se-á um tour por Inglaterra, em conjunto com uma banda de maior renome e um forte “PR media promotion” para divulgação do mesmo.
 Agradeço quem nos quiser seguir através do link: www.facebook.com/flightofeden.
 

                                                   
                                      

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