26 de janeiro de 2020

A indiferença penaliza!

 1- Este fim-de-semana terminou o 50º  Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, fundado por Klaus Schwab. O encontro reuniu influentes líderes empresariais, políticos e da sociedade civil, incumbidos de tratar dos “desafios e oportunidades derivadas da quarta revolução industrial que está em marcha”.
2- Estes Fóruns têm servido para fortalecer, até à data, os mercados financeiros e o capitalismo puro e duro, desregulado, gerando gritantes desigualdades sociais ao criar uma pequena casta de muito ricos, e multidões infinitas de muitos pobres. 
3- Curiosamente, este ano, o Fórum preocupou-se com dois vectores que compõem a base da estabilidade mundial e que, consoante a sua progressão, terão efeitos bem diferentes.
4- Isto é, podem ser geradores de estabilidade capaz de promover o crescimento sustentável para manter o capitalismo tal como se tem desenvolvido à custa do liberalismo e da globalização dos anos oitenta do século passado, ou então gerar grandes tensões e catástrofes por falta de uma agenda política e social conjunta.
5- Daí os cérebros de Davos terem escolhido para debate as seguintes linhas de força: “Acção urgente na ecologia e no clima; economia inclusiva e prevenção de crises; igualdade de oportunidades; e formação para os novos desafios”.
6- Esta nova postura do Fórum Económico Mundial significa que os poderosos entram numa nova estratégia para rejuvenescer o capitalismo tal como está. Pretendem lançar as bases para um capitalismo mais inclusivo e sustentável, que reduza o conflito e crie novas instituições multilaterais que incluía a sociedade civil.
7- Esta é, portanto, a resposta a quantos defendem a transformação do capitalismo, mediante um contrato social que permita o crescimento, mas atenda à alteração da “forma em que vivemos, trabalhamos e nos relacionamos”.
8- O Professor Joseph Stiglitz, laureado com o prémio Nobel da Economia, defende numa entrevista que “Antes da crise, as pessoas acreditavam que os mercados eram eficientes, que a desigualdade de rendimento poderia ser incompreensível, mas era justificável pelos incentivos que oferecia ao crescimento económico. Agora aperceberam-se que os mercados não são eficientes, não são estáveis, e que os altos bónus recebidos pelos executivos dos bancos representavam um prémio às perdas recordes que aconteceram. As pessoas podem até entender que alguém inovador, que cria riqueza, seja premiado. Mas eles foram premiados por destruir riqueza - e isso minou a fé no sistema de mercado”.
9- Esta percepção é ainda hoje sentida na sociedade portuguesa, quando os Bancos perdoam de uma assentada cerca de trezentos milhões de euros de dívidas a quatro grandes devedores, alguns deles que viveram faustosamente e eram tidos como gestores de gabarito, isto enquanto aos pequenos empresários não perdoam um cêntimo sequer e exigem mundos e fundos aos que tudo fazem para cumprir os seus compromissos.
10- Igual sentimento se passa agora com o complexo processo “Luanda Gate”, que foi apoiado pelos mercados, pela banca e por empresas portuguesas e altos quadros, que são todos cúmplices dos actos praticados pela “grande” empresária Isabel dos Santos, uns por acção e outros por omissão. “Quem galinhas não tem, ovos não produz”. 
11- A propósito de culpas, precisamos saber o verdadeiro impacto que vão ter na economia dos Açores os anunciados acréscimos no preço dos combustíveis resultante das alterações impostas pela Organização Marítima Internacional, para vigorarem a partir de 2020.
12- Tais alterações têm origem na mudança dos combustíveis a usar pelos navios, mas isso era matéria que devia ter sido tratada atempadamente pelas autoridades regionais, em cooperação com as entidades empresariais, pois não se pode, de um momento para o outro, e depois do ano ter começado, alocar aos serviços e produtos um aumento adveniente do acréscimo de 10 a 17% no custo do transporte marítimo. 
13-  A indiferença apoderou-se dos responsáveis a todos os níveis, que deixam tudo para que o mercado resolva.
14- E, antes que seja tarde, seria bom que aparecesse publicamente um estudo do custo beneficio quanto à nova política de transporte marítimo que tem sido repetidamente defendida por uns e criticada por outros, mas sem sabermos que custos e benefícios ela representa.
15- É preciso revisitar o que se tem dito e feito sobre a política de portos e transportes.
                              
                             

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Categorias: Editorial

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