Codorniz é Ave do Ano 2020 em Portugal e “rainha das aves” nos Açores

 A codorniz-comum foi eleita Ave do Ano 2020, numa votação que, pela primeira vez foi organizada, em conjunto, pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e pela Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife). 
No entender da SPEA, “embora em Portugal ainda seja uma ave comum, a codorniz poderá brevemente deixar de o ser, se não forem implementadas medidas para travar o desaparecimento da diversidade natural dos nossos campos”. 
Acrescenta a SPEA que, “sem uma política agrícola sustentável, a codorniz irá certamente seguir o caminho de outras aves de zonas agrícolas: o declínio”.  
“A área de distribuição da codorniz diminuiu 30% na última década em Portugal, como resultado de alterações nas práticas agrícolas. A expansão das monoculturas, o desaparecimento dos pousios, e a eliminação das sebes e margens dos campos deixam cada vez menos habitat disponível para esta e outras aves típicas de zonas agrícolas”, refere a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. 
Esta ave alimenta-se de sementes, grãos de cereais e pequenos invertebrados, pelo que “tem sofrido também com o aumento do uso de herbicidas e insecticidas”.
“A população ibérica de codorniz é a mais importante da Europa Ocidental. Mas se não se fizer nada para valorizar a agricultura extensiva de sequeiro, vai seguir o caminho de outras espécies ameaçadas como o sisão e a águia-caçadeira”, diz Domingos Leitão, diretor executivo da SPEA.
Em Portugal, não há mais de 100 mil indivíduos desta espécie. “Ao impacto devastador da agricultura intensiva juntam-se a pressão da caça, a contaminação genética (com a introdução da codorniz-japonesa ou de híbridos para fins cinegéticos) e as alterações climáticas”. 
Em Espanha a espécie “está já em declínio evidente: o número de codornizes diminuiu 70% nos últimos 20 anos”.
A votação para Ave do Ano 2020 decorreu online este mês, promovida pela SPEA e pela SEO/BirdLife. A codorniz-comum foi eleita com 7 930 votos, à frente do tartaranhão-caçador (ou águia-caçadeira), que teve 6 130 votos e do picanço-real (5 156 votos).
A política agrícola “em de compensar” quem pratica uma agricultura “responsável e sustentável, contribuindo para a preservação dos valores naturais. Senão, daqui por uns anos poderá ser difícil ver codornizes nos nossos campos, não por serem mestres da camuflagem, mas por estarem a desaparecer”, diz Domingos Leitão.

Priolo apresentado como 
exemplo da eficácia
na preservação

O relatório Estado das Aves em Portugal 2019, que reúne pela primeira vez os resultados actualizados de grande parte dos programas de monitorização de aves no país, revela dados “alarmantes que exigem resposta urgente”. 
O documento, apresentado ontem, mostra efeitos “preocupantes” das actividades humanas, como “a degradação” dos meios rurais “e a intensificação da agricultura” que coloca “muitas espécies em queda livre, ou a situação de várias espécies de aves marinhas que têm sido afectadas por problemas como a captura acidental nas pescas e a poluição luminosa”. 
Apesar do panorama preocupante, feita no país ao longo durante mais de 15 anos, tem uma nota positiva: “a eficácia das acções de conservação de natureza”.
“A recuperação fantástica de espécies como o priolo mostra que é possível travar a catástrofe, mas é preciso agir já e pensar para lá do lucro imediato”, diz Domingos Leitão, Director Executivo da SPEA. “Sabemos as causas da maioria destes declínios; se não agirmos já para as travar estamos a colocar em risco a natureza e a qualidade de vida dos nossos filhos e netos,” conclui.
Aves como a rola-brava, o picanço-barreteiro, a águia-caçadeira e o sisão mostram declínios dramáticos (de 49% a 80%), e mesmo algumas aves comuns, como o pardal e o pintassilgo, têm visto as suas populações decrescer nos últimos anos no continente. Nos Açores ainda é vulgar ver, sobretudo, pardais, mas também bandos de pintassilgos.
 Segundo os especialistas, as aves dos campos continentais portugueses “estão a desaparecer a um ritmo assustador” e “também nos oceanos e na orla costeira, segundo a SPEA, “há dados inquietantes”.  
 “É preciso fazer mais pela protecção das áreas marinhas, e é preciso travar ameaças que estão bem identificadas, como a captura acidental nas pescas e a poluição luminosa”, diz Domingos Leitão.
 
A conservação faz a diferença

Algumas espécies raras ou ameaçadas aumentaram recentemente em Portugal, graças “em grande parte” a projectos de conservação dedicados. O priolo, ave que apenas existe na ilha de São Miguel, nos Açores, e que no início deste século era uma das aves mais ameaçadas da Europa, conta agora com uma população estável em torno dos 1000 indivíduos. 
Outro exemplo é a população de cagarras da ilha da Berlenga, que tem vindo a aumentar graças aos esforços para restaurar o ecossistema natural da ilha e acções direccionadas como a construção de ninhos artificiais.
“O investimento na conservação da natureza produz resultados, e não é só ao nível das espécies que são salvas. Proteger e recuperar a imensa riqueza natural do nosso país é contribuir para a economia local e promover actividades sustentáveis, é criar empregos e novas áreas de negócio. Só temos a ganhar com isso” salienta Domingos Leitão.
“Na SPEA estamos imensamente gratos às centenas de observadores de aves que dedicaram o seu tempo a estes projetcos. Sem eles não seria possível recolher estes dados que são fundamentais para se tomarem decisões políticas fundamentadas” conclui Domingos Leitão.
 

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Autor: CA

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