‘O Lavrador’ quer aumentar produção e tornar-se ponto turístico

Em Janeiro de 2006, Luís Silva abriu a queijaria O Lavrador. Localizada na freguesia da Covoada, esta pequena indústria é um negócio de família. “Para além de mim, o meu filho trabalho comigo, juntamente com um colaborador”.
Com uma tradição de queijaria, a Covoada já teve uma, como conta o proprietário. “Onde havia a Fábrica da Bel, que se encontra desactivada, foi uma queijaria de uns senhores das Sete Cidades.” Para além desta, uma outra queijaria existiu, que já vinha do tempo do seu sogro, que se encontrava num caminho que ia dar à freguesia vizinha, Sete Cidades.
Tendo aberto as instalações em 2006, explica que começou a produção de queijo cerca de 3/4 anos antes: inicialmente, começou com o leite das cabras e fornecia o mesmo a um senhor que tinha uma queijaria, “mas devido a dificuldades económicas, ele também não podia aceitar todo” e Luís Silva viu-se quase na obrigação de abrir a queijaria.
Devido a um problema que ocorreu na sua exploração em 2014, conta que teve que abater as cabras e encerrou a queijaria durante aquele ano. “Reabrimos em 2014, mas aí já só utilizamos leite de vaca e produção de queijo fresco em folha de conteira. Na altura, ainda não era autorizado. Mas há uma norma comunitária que permite que todo o produto tradicional de cada região, independentemente de ser uma conteira ou uma planta endémica. Era tradicional fazer o queijo assim, enrolados nas folhas. Mantem-se mais fresco e com mais durabilidade. Fui-me informar com as pessoas que dão autorização para isso e começamos a fazer o queijo na folha”. 
No ano passado, a queijaria começou a produzir queijo curado: “houve necessidade de fazer este queijo porque encontramo-nos numa zona em que sempre aparece algum turista e transportar o queijo fresco é sempre mais difícil. O queijo curado já foi feito por causa disso, tanto para os turistas como para os locais”. Graças à colaboração de João Leite, biólogo, do INOVA – Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores, foram feitas experiências para se chegar ao queijo de cura que produz: “o João Leite é uma pessoa por quem tenho muita consideração e esteve sempre a tentar procurar fazer melhor. Fazíamos várias experiências até chegar ao que queríamos e o que as pessoas querem. As grandes indústrias corrigem a gordura e a proteína. Nós aqui não. A gordura que vem natural é o que sai. Por isso as percentagens oscilam muito. Mas consiste naquilo que vem da natureza, portanto uma boa matéria prima para ter um bom queijo. A massa do queijo é esbranquiçada: fizemos um trabalho aqui para ser diferente dos outros pois para ser mais um queijo igual aos outros, é mais um. Faz-se uma lavagem à massa. Quando esta está cortada, é introduzida a água com uma temperatura. O lavar faz com que a gordura saia da massa. Fica mais proteína e menos gordura, mais light”, explica Luís Silva 
Por dia, são produzidos cerca de 800 queijos frescos. A vantagem em relação ao queijo de cura, refere Luís Silva, é que “produz hoje e vende amanhã”. Relativamente ao leite utilizado para a produção dos queijos, este é obtido através da exploração que um irmão seu tem. O proprietário refere que compra somente a quantidade que necessita. Com cerca de 170 mil litros de leite por ano, produz 200 mil queijos frescos e 1500 quilos de queijo curado.
O nome O Lavrado” foi escolhido derivado à terra onde se encontra: “isto é uma terra de lavradores. Quando entramos numa loja, vemos tantos nomes… e isto é quase como uma homenagem à terra. O rótulo é uma fotografia antiga que minha mãe tinha em casa, com cerca de 60 a 70 anos. Meu avô vendia leite na cidade e a foto foi tirada numa pastagem sua aqui na freguesia. Fui pedir aos familiares das pessoas que se encontram na fotografia se poderia utilizar a mesma para rótulo e eles aceitaram. Muita gente conhecia o senhor aqui, que estava emigrado, o sr. Francisco Farias, que cantava ao desafio. Não se lembravam dele antes de ir para o Canadá e ele trabalhou com meu avô nessa altura. Para mim, é uma homenagem aos homens da lavoura.”

Um projecto para o futuro: 
a expansão da infraestrutura

Sobre o negócio, refere que tem corrido bem, apesar da sazonalidade derivada do turismo. Fornecem hotéis, restaurantes e mini-mercados e fazem vendas porta a porta na Covoada. “Fazemos as vendas todas que são possíveis fazer, mas agora baixou um pouco. A partir da Páscoa, começa a aumentar e a vir mais turismo. De Verão, solicitamos mais algum colaborador e ficamos sem saber como fazer (risos).”
Encontrando-se no roteiro turístico da ilha de São Miguel, muitos turistas, sobretudo de Portugal Continental passam pela queijaria. Com o seu filho também no negócio, “está na hora de aumentar as infraestruturas e apostar um pouco mais no queijo curado”.
“Estamos no roteiro turístico e muitas pessoas do continente passam por aqui. Estamos com uma ideia para o futuro. Tenho o meu filho ligado também a este projecto, e também está na hora do seguimento, de aumentar as infraestruturas, apostar um pouco mais no queijo curado. Temos como ideia fazer uma sala de provas porque temos espaço suficiente. A propriedade anexada é da Junta de Freguesia e tem parque de estacionamento”, uma vantagem. Já tendo oportunidade de falar com vários guias turísticos, diz que a freguesia da Covoada, dada à sua localização, nomeadamente mais para o interior da ilha, quando as pessoas se deslocam para as Sete Cidades, vão geralmente por outro circuito, não passando pela freguesia. “Quando os turistas regressam de lá, há aquele intervalo pelo caminho que pode servir depois para pararem na queijaria. A sala seria para servir à volta de 70 pessoas, não mais do que isso. Para além dos queijos, seriam servidos chás e outros produtos regionais.”
A divulgação da queijaria é feita de boca em boca e também através dos locais onde os queijos se encontram à venda. Por exemplo, Luís Silva referiu que vai ao Mercado Agrícola de Santana que decorre todas as Quintas-feiras de manhã: “tenho lá um pequeno stand que vende os dois tipos de queijo”. Para lá, leva 60 queijos de cura que são praticamente todos vendidos. Na loja Rei dos Queijos, em Ponta Delgada, também é possível encontrar o queijo “O Lavrador”, que na opinião do proprietário da queijaria, “é uma casa que divulga tudo aquilo que é nosso, tudo aquilo que é açoriano. Temos uma produção de queijo curado muito limitada. O nosso forte é o queijo fresco. Só fazemos queijo curado uma vez por semana e na altura do Verão, temos semanas em que não conseguimos fazer porque não tenho capacidade de resposta. Mas com novas infraestruturas, pondo uma sala própria só para o queijo curado, poderemos produzir mais.”
Para além de aumentar o número de produção do queijo curado, Luís Silva também tem a intenção de produzir variedades dentro do mesmo, adicionando ingredientes como salsa, alho e orégãos. Produzindo actualmente apenas o puro, explica que tem uma vantagem “Fazemos uma lavagem grande ao queijo para retirar a gordura, mas mantendo a proteína. Assim tem uma textura diferente. Fez-se um contraste para que fosse diferencial porque para fazer igual aos outros, seria mais um queijo no mercado”.
A queijaria é uma referência na freguesia e muito conhecida na zona, sendo uma mais-valia na Covoada. “Temos que aproveitar o turismo pois não sabemos até quando vai durar. Temos que ter infraestruturas e condições para que possamos acompanhar, mas refiro turismo de qualidade, aquele que gasta e que nós precisamos, um turismo que preserve o que é nosso.”                                         

Enquanto a produção de queijo aumentou 12%, houve redução
 de igual percentagem na produção de leite UHT

A produção de menos leite UHT é um dos objectivos para o ano corrente, algo que já tem vindo a ser feito. “Verificou-se já uma evolução de indicadores em 2019. Houve um crescimento de 12% na produção de queijo e redução de leite UHT no mesmo valor. São indicadores positivos”, referiu João, Secretário Regional da Agricultura e Florestas, João Ponte, no âmbito da visita à queijaria O Lavrador. 
Segundo João Ponte, verificou-se uma necessidade das indústrias de disporem de melhores condições para as produções de queijo. Posto isso, o Governo Regional “vai abrir um aviso no decorrer deste programa do PRORURAL+, exclusivamente para reforçar a capacidade de frio e de câmaras de cura nas indústrias de produção de queijo que existem na Região porque esta é uma lacuna. Se queremos produzir mais queijo, pode resultar em mais valias e temos também de ajudar as indústrias através de camaras de cura e de câmaras de refrigeração de queijo, que é essencial para as indústrias darem esse salto. 
Reforçar a notoriedade dos lacticínios no mercado continental também está incluído no plano estratégico. “Vamos avançar com uma campanha de promoção dos lacticínios dos Açores no mercado continental ainda no decorrer deste 1.º trimestre porque entendemos que é importante promover e dar notoriedade àquilo que produzimos na região e associando a algo que temos muito a forte, a nossa imagem da natureza, a pastagem, e isso parece-me aspectos que podem no mercado marcar diferença em relação à nossa concorrência”, explicou o Secretário Regional. 
No âmbito da visita à queijaria O Lavrador, referiu que o objectivo da mesma serviu “para avaliar in loco um projecto interessante e que poderá ser replicado noutras ilhas do arquipélago”. Estando vocacionada para o mercado local, é uma micro-empresa “importante para a dinamização da económica local e para fixar as pessoas no território”. 
João Ponte acrescentou ainda que as pequenas queijarias “conseguem produzir mais produto, dar respostas às solicitações do mercado e conseguem criar mais postos de trabalho. O PRORURAL+ tem permitido esta evolução neste sector e queremos que no futuro continue a acontecer.”
 

 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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