I Gala da Marca Açores com momentos memoráveis na Gruta do Enxofre

Queijada da Graciosa e vinho Pedras Brancas são exemplos de produtos que rasgaram os horizontes da ilha e se afirmam nos mercados

O Vice-presidente do Governo, Sérgio Ávila, afirmou ontem na cerimónia de arranque da I Gala da Marca Açores na Furnas do Enxofre, na Graciosa, que as empresas açorianas são “exímias na produção de qualidade e na gestão da escassez que cria, precisamente, a arte de desenvolver produtos que não se caracterizam pela quantidade, mas sim pela qualidade”.
Sérgio Ávila salientou que os produtos regionais, oriundos destas empresas, têm uma pegada ecológica de “alto valor ambiental e livres” de modificações genéticas.
O governante açoriano deixou um recado para a Região: “Precisamos, antes de mais, que o reconhecimento da qualidade da nossa produção seja interno. Só tendo em cada um de nós esta percepção clara, podemos, juntos, de forma coerente e consistente, ser mais competitivos e afirmarmos a nossa dimensão qualitativa num mundo cada vez mais globalizado e num mercado cada vez mais exigente quanto a matérias como a qualidade, a segurança alimentar e a sustentabilidade de modos de produção”.
A cerimónia na Gruta do Enxofre teve momentos memoráveis, como aquele em que o Coro Juvenil da Matriz de Santa Cruz da Graciosa cantou a música açoriana ‘Ilhas de Bruma’
Sérgio Ávila distinguiu as primeiras 20 empresas açorianas que obtiveram o selo da Marca Açores.

A decisão visionária 
que veio da Graciosa

A empresa ‘Maria de Jesus Félix Queijadas da Graciosa’, sendo a primeira a aderir à Marca Açores, a partir da pequena ilha branca, é exemplo do desejo de afirmação de uma família visionária que faz hoje chegar uma média de 90 mil queijadas por mês a todas as ilhas dos Açores e atinge a sua maior quantidade de vendas na ilha de São Miguel. Uma pequena quota de produção, à volta de 10% vai para Portugal continental e para os Estados Unidos.
Paulo Félix, 39 anos, começou a laborar na fábrica desde os 20 anos e é um dos quatro sócios da empresa das Queijadas da Graciosa. Ele, três irmãos, uma delas, a Sara Félix, de 36 anos, chega a trabalhar 18 horas por dia na época alta para garantir o fornecimento aos clientes da empresa. O quarto sócio é o pai e a mãe, Maria de Jesus Félix, que fez tudo para que a receita fosse um sucesso, faleceu algum tempo antes da adesão à Marca Açores.
A unidade fabril já tem, no seio familiar, o futuro garantido. Os filhos de Paulo e Sara já frequentam a unidade fabril que continuarem a laborar numa base artesanal. A grande decisão que têm de tomar é se vão crescer e como irão crescer sem perderem a sua matriz artesanal.
“Em 2014, - o ano da crise – não foi fácil” para a empresa. Mas, mesmo assim, neste ano, atingiu um volume de negócios perto dos 300 mil euros. A partir do momento em que aderiu à Marca Açores, apostou em outros mercados como os Estados Unidos e reforçou a aposta no Continente português e em São Miguel. Na altura, conta Paulo Félix, “aproveitámos o facto de sermos a primeira empresa com o certificado da Marca Açores e fizemos uma grande campanha junto dos nossos principais clientes. De tal forma que fomos crescendo e duplicamos a facturação em 2019 para um volume de negócio que atingiu o meio milhão de euros. “Atingimos o nosso máximo de capacidade o ano passado. Foi um desafio diferente. Decidimos deixar de produzir outros produtos, como algumas referências de biscoitos, e concentram-nos na queijada”, explicou o empresário.
Paulo Félix explica que a queijada da Graciosa “é diferente. Primeira coisa, é da Graciosa, é de uma ilha mais pequena. É sempre mais difícil chegar lá fora. É uma queijada que tem um formato diferente, em estrela, e o tem um sabor que é diferente”. 
Produzem, em media por ano, cerca de três mil queijadas por dia e em Julho e Agosto chegam a atingir as quatro a cinco mil queijadas. E não trabalham com stock. Toda a queijada está, à partida, vendida. “Produzimos para vender diariamente”, explica. 
A funcionária mais antiga está na unidade fabril há mais de 30 anos. Foi para a fábrica, como diz com naturalidade, para aprender. Passei por um processo de aprendizagem. Ao longo do tempo, a unidade fabril foi evoluindo e o trabalho foi aumentando. Quando questionámos quantas queijadas passaram pela sua mão, ela responde, uma vez mais, com simplicidade: “não faço a conta, mas foram muitas”.
O Vice-presidente do Governo dos Açores, Sérgio Ávila não conseguia disfarçar a satisfação por estar na empresa que obteve o primeiro selo da Marca Açores. Destacou o facto de a empresa ‘Queijadas da Graciosa’ ter duplicado as vendas em cinco anos, o que considerou “muito significativo”.
Questionado sobre se pode considerar a ‘Queijadas da Graciosa’ uma empresa visionária, a sua resposta foi pela positiva. “Eu acho que sim. Foi uma empresa que teve a visão certa e, curiosamente, sendo da ilha Graciosa a primeira, ela teve visão estratégica, capacidade empreendedora a demonstrar que estas características não têm que estar apenas nos grandes centros urbanos. Podem surgir em negócios como este”.
Para o governante, esta é uma história “muito interessante. É uma senhora que tinha uma receita e partilhou com a família. Os filhos pegaram na receita e desenvolveram uma actividade empresarial que tem sido um sucesso e que, nos últimos cinco anos, duplicou a sua produção, o que é um aumento verdadeiramente interessante.
“E é muito mais interessante que tenha sido uma empresa que tinha um produto de qualidade mas que não tinha um reconhecimento e uma certificação que desse garantia ao consumidor da sua qualidade, Se calhar, também, porque sendo de uma ilha mais pequena dimensão, tinha menos possibilidades de serem conhecidos fora da ilha se não fosse a certificação”.
“O administrador (Paulo Félix) disse que depois de terem a Marca Açores conseguiram ter aceitação nos maiores mercados de consumidores da Região, o caso concreto de São Miguel. E é esse o objectivo. Terem sido os primeiros, acreditarem na Marca Açores, sem que quaisquer outros o tenham feito até então, em ilhas como São Miguel, Terceira e Faial, foi de uma enorme visão”, completou o governante.

Duplica produção de vinho Terras 
Brancas de 2018 para 2019

Em 2018, a cooperativa produziu 5 mil garrafas de vinho Pedras Brancas e, o ano passado, a produção aumentou para as 12 mil a 15 mil garrafas. Assim, registou-se um salto de produção para mais do dobro. A corporativa compra a uva a 3 euros. À porta da fábrica, o vinho é vendido a 12 euros a garrafa e chega a atingir no mercado quase 30 euros. O preço médio de mercado ultrapassa os 26 euros a garrafa.
Como explica João Picanço, o estado do tempo em 2019 foi mais favorável para a produção de uva mas a verdade é que número de produtores associados tem vindo a crescer e a área cultivada com vinha também. Em 2019 entraram três novos associados com vinhas novas.
Com este aumento de produção, a corporativa começa a pensar numa maior promoção do vinho em outros mercados como seja o caso de Portugal continental. Isto porque, até agora, a produção desaparece, com facilidade no mercado açoriano, sobretudo em São Miguel.
Quando questionado sobre se os alhos da Graciosa são igual aos outros, João Picanço entendeu a pergunta como uma provocação, mas não deixou de responde com graciosidade: “estes alhos são bons, são da Graciosa e são melhores do que os outros”.
A cooperativa recebe, por ano, entre 5 a 7 toneladas de alhos dos seus associados e, pela sua grande qualidade, o produto desaparece com facilidade no mercado açoriano. “Vende-se tudo”, afirma João Picanço que é um grande consumidor de alho. Disse aos jornalistas que “come três dentes de alho por dia, cortados aos bocadinhos”.
Quando questionado sobre o impacto da Marca Açores na venda da cooperativa, a sua resposta é imediata. “Hei, senhor, não fiz estas contas. Não estou preparado para responder. Mas a vendas cresceram entre 10 a 20%”. Mas, como acrescenta, “a verdade é para se dizer e, nos anos anteriores, não vendemos mais porque não tínhamos mais para vender”.
“Nos vinhos só fazíamos o branco e em Setembro, Outubro, já não tínhamos vinho do ano anterior”, afirmou.
A Adega e Corporativa Agrícola da Ilha Graciosa foi fundada em 1957, elaborou, pela primeira vez em 1962 e teve “altos e baixos” até à actualidade.
Os produtos que vende, além do vinho Terras Brancas “que é muito bom e tem muita ama”, nas palavras de João Picanço, é um vinho um Rosé, Angelica, aguardente, doce de uva, doce de meloa e está em projecto um doce de uva com alho, além dos “famosos alhos”.
Ficou a nocão para o jornalista de como pequenas empresas, de ilhas pequenas dos Açores, se agigantam, rasgam horizontes  e os seus produtos aparecem com o apoio da Marca Açores em mercados impensáveis.
                                        

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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