De onde é natural e como foi o seu crescimento?
Ricardo Ponte: Cheguei à Bermuda em 2009, com contrato de trabalho, e desde então procurei um clube de cá para poder jogar. Comecei no Tuff Dogs, depois fui jogar no Robin Hood, onde lá fiquei 2 épocas e onde fui 2 vezes o melhor marcador da equipa com 21 golos. Ficamos classificados em segundo na tabela e vencemos a Digicel Cup 2018. Depois, o meu actual treinador Brian Dickson veio falar comigo e convidou-me a fazer parte da equipa da primeira divisão do Vasco da Gama, que estava há 2 décadas sem estar a jogar futebol federado. Ele falou-me do projecto e aceitei o desafio de jogar numa liga mais competitiva.
Encontrou alguma diferença entre o futebol praticado nas Bermudas?
Sim, existe uma diferença enorme, desde as infra estruturas, aos métodos de treino. Nos Açores, o futebol é mais intenso, o jogo é mais elaborado técnica e tacticamente. Aqui é mais físico. E claro a diferença de temperatura que lá é muito mais quente.
Que dificuldades tens sentido na adaptação a um mundo diferente?
Os primeiros meses não foram nada fáceis para mim, pois sobretudo a temperatura e a língua foram sem dúvida o principal entrave. Mas já se passaram 10 anos e essa barreira já está ultrapassada e consegui adaptar-me a este estilo de vida.
Falemos um pouco acerca do início da sua carreira desportiva. Onde começa a jogar futebol?
Comecei a dar os meus primeiros toques na bola no campo da Mãe de Deus, em Vila Franca do Campo, em 1996, tinha eu 10 anos e representei o Clube Desportivo de Vila Franca do Campo, mais conhecido por “Pretos da Vila”. E é com enorme alegria que vejo que este histórico Clube deu a volta a uma situação difícil e reabriu os escalões infantis, o que nos dá a esperança de que este é um projecto que irá por diante e terá um futuro promissor à sua frente, atendendo ao entusiasmo dos responsáveis que se uniram para reabrir o Clube.
Como concilia a sua profissão com o futebol?
Trata-se de uma situação que não é fácil, pois ao viver no estrangeiro há a necessidade de fazermos horas extras no trabalho, o que vem dificultar um pouco essa conciliação com o futebol. Mas quando se ama o futebol e vives intensamente este desporto, arranja-se sempre tempo para trabalhar, para treinar e para jogar.
Lembra como foi o jogo de estreia como sénior?
O meu jogo de estreia na equipa sénior foi contra o Capelense, eu era eu ainda Júnior e o clube passava por dificuldades financeiras na altura e o então treinador João de Brito convocou-me para este jogo. Lembro-me perfeitamente que estávamos a perder 2-1 e entrei perto do fim e fiz o passe para o empate, marcado pelo Rui Carvalho. Foi um dia especial para mim porque há jogos que nos marcam pela positiva.
Que Clube mais marcou a carreira de jogador de futebol?
Sem dúvida alguma, que foi o Clube Desportivo de Vila Franca do Campo, um clube que me deu tudo para eu crescer como pessoa e enquanto jogador. Com excelentes treinadores, com quem até hoje mantenho uma excelente relação, posso citar o Paulo Vieira, o João Sampaio, o António Eduardo e o João de Brito.
Sente pressão nos jogos para contribuir para o sucesso das equipas?
No início, quando era mais novo, sentia, sim, pressão, mas agora já não. Com a experiência ao longo dos anos, não deixa de ser apenas mais um jogo, onde onze jogadores de cada lado têm o mesmo objectivo que é vencer. No entanto, em cada jogo, desde quando entro em campo, podem contar com um jogador altamente motivado e totalmente disponível em prol da equipa, consciente de que eu tenho de dar o meu melhor, tendo em vista o bom resultado do grupo de trabalho.
Qual a posição dentro do campo em que se sente mais confortável?
Sinto-me com mais à-vontade como segundo avançado, pois gosto de ter bola, fazer jogar e também finalizar.
Qual foi o lance que maiso marcou na carreira de jogador?
Existem muitos, mas ser campeão dos Açores pela tua ilha (Selecção de São Miguel) e para além disto ser o melhor marcador do torneio, foi sem dúvida o melhor momento da minha carreira desportiva.
Em que medida o futebol marcou o modo de viver e encarar a vida?
O futebol dá-te uma oportunidade de ascensão social incrível, a nível de disciplina, trabalho em equipa e permite que vejamos que o sucesso nas vitórias e o fracasso nas derrotas são fundamentais para o nosso crescimento e para uma vida mais completa. Por isso, o futebol para mim é uma escola de vida, que contribui para a forma de defrontar os desafios da vida, sejam nos momentos de vitória, sejam nos momentos das derrotas.
O mundo do futebol nos Açores tem evoluído?
Sim, sem dúvida que o futebol nos Açores têm evoluído, desde as instalações, às condições de trabalho, como também na formação de treinadores e dirigentes.
Qual a mais-valia desportiva dos Açores terem uma equipa estar no top do futebol português?
A nível desportivo, gostaria que fosse uma forma de promover mais o jogador açoriano, o que neste momento não se verifica. Talvez a criação de uma equipa B fosse a melhor solução para essa situação. Mas, sem dúvida, que ao ter um clube na principal liga portuguesa é um veículo de promoção turística das nossas ilhas.
Acha que o trabalho de formação feito nos Açores tem evoluído muito?
Sim, temos por exemplo disso mesmo o torneio Pauleta Azores Cup U13 e o Torneio Infantil Internacional do União Micaelense, em que o Clube Vasco da Gama da Bermuda irá participar novamente. São, sem dúvida, este tipo de competição que projectam e divulgam a nível desportivo a formação do atleta açoriano.
Como está a correr a época desportiva nas Bermudas?
Está a correr bem, estamos em terceiro lugar a 2 pontos do segundo classificado, o Devonshire Colts, e a cinco pontos do primeiro classificado, o St.George.
Sente-se realizado no futebol?
Não, o meu grande objectivo e sonho era ter sido jogador profissional o que não aconteceu, mas penso que se tivesse as oportunidades que existem nestes dias talvez tivesse chegado lá. Neste momento tirei o curso de treinador de formação e quem sabe se não irei cumprir este sonho como treinador. O sonho comanda a vida.
Tens saudades dos Açores?
Muitas saudades mesmo. Em Abril estarei como treinador dos U11 no Torneio Infantil Internacional do União Micaelense e certamente irei matar saudades da minha terra e das minhas gentes.