4 de fevereiro de 2020

Uma noite cheia de encanto

Este ano, S. Pedro pregou uma partida à Senhora da Estrela, ao ponto de o desfile de A Noite das Estrelas ter sido cancelado na Ribeira Grande. No entanto, em Vila Franca do Campo, a noite foi magnífica com a participação de vários grupos de cantares, constituindo uma noite mágica, uma oportunidade para se dar vazão à alegria de cantar e louvar Nossa Senhora, numa celebração da passagem bíblica de apresentação do Menino no Templo, quarenta dias após o nascimento e como era costume entre os judeus.

Foi com o intuito de dar a conhecer os fundamentos desta festividade, que me levou a editar o livro “A cidade das estrelas”, mesmo não sendo um tratado histórico, ele teve o propósito de trazer alguma luz a interpretações que permitissem facilitar o aprofundamento da investigação sobre o passado destas festividades, que voltou, felizmente, a ser, exuberantemente, celebradas por toda a ilha de S. Miguel.
Em contraponto, se em S. Miguel na noite do dia 1 para 2 de fevereiro o povo sai à rua para fazer festa, já em algumas localidades da vizinha ilha Terceira, os antigos ainda se recordam da velha e curiosa crença mitológica de não se poder sair à rua, devido ao temor causado pelos espíritos que vinham do alto da serra, precisamente naquela noite e desciam pelas ribeiras até aos povoados da ilha, provocando pavor entre as populações. 
Coisas antigas formuladas a partir de fenómenos que o homem não conseguia explicar, pelo que tentava seguir uma coerência imaginativa no âmbito de histórias baseadas em tradições feitas para explicar lendas, passadas oralmente de geração em geração. 
Hoje em dia, podemos dizer que são rudezas arcaicas que até se tornam jocosas aos nossos olhos, mas que eram antigamente autênticas convicções. Tais crenças estiveram muito enraizadas na população, como as das almas penadas, os espíritos maléficos, as feiticeiras, etc, e embora a civilização tenha destruído muitas dessas crenças populares outrora vulgares, ainda hoje persistem algumas arreigadas no ânimo do nosso povo.
Nós, por cá, seguimos a bonita tradição de cantar às estrelas. Muitos foram os que me agradeceram pelas informações expressas no livro, facto que registo com agrado, pois poderá ser curiosidade e fonte de muitos trabalhos a levar a cabo em estudos de investigação, sobre os aspetos sociais e culturais desta festa, que continua a ter como padroeira a Senhora da Estrela, título único conhecido por estas bandas e mesmo por outras paragens. 
A festa das estrelas na ilha de S. Miguel, cujas origens se perdem nas brumas do tempo, constituem uma expressão cultural sem paralelo nos Açores, sendo uma manifestação perfeitamente enraizada na multissecular cultura popular micaelense, que envolve os vários extratos da população, num vigor e entusiasmo singular, o que demonstra bem o apego às raízes e constituiu um valor inestimável do nosso património imaterial, não apenas neste Concelho.
Como tal, esta festividade merece todo o nosso apreço pela sua singularidade e que, constituindo uma manifestação religiosa e cultural especifica, é vivida de forma singela e muito peculiar pelo nosso povo. 
Porque, perpetuar a memória, é preservar a identidade, pelo que premente se torna articular e aprofundar o estudo do conhecimento deste fenómeno.
Partindo do pressuposto que os primeiros povoadores transplantaram os modelos da ocupação do seu território para estas ilhas, não deixa de ser pertinente verificar como souberam facilmente adaptar o paradigma de que eram herdeiros para a nova realidade insular, esmagadoramente cristã. 
Independentemente do facto de se conhecer ainda pouco sobre a origem factual das festividades das estrelas, o certo é que atualmente, elas constituem um misto de manifestação de fé e exuberante e grandiosa manifestação folclórica e, como tal, deve ser preservada, como contributo essencial para a sustentação da identidade do nosso povo.
A preservação desta relíquia da nossa cultura, ainda com resquícios e traços medievais, deve merecer não apenas apreço e consideração das entidades públicas, mas um testemunho de preocupação pela salvaguarda das nossas raízes, obtendo assim o legítimo apadrinhamento, como expressão cultural com relevante interesse identitário.
Por outro lado, é muito importante continuar a levar os jovens a despertarem para o interesse das suas raízes, com a sua participação maciça no desfile das estrelas. 
Temos o dever de estimular, por todos os meios, a que eles possam cultivar o gosto por este legado geracional, para que se identifiquem com a cultura ancestral dos seus antepassados, pois desta forma, acreditamos que esta memória intrínseca das nossas raízes insulanas nunca deixará de fazer parte da cultura açoriana.
 

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Categorias: Opinião

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