Assinala-se hoje o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro

São registados perto de mil casos de cancro por ano nos Açores

Porque aumentam o número de casos de cancro? “É uma dúvida que as pessoas colocam com muita frequência. Como é que é possível, havendo uma evolução muito substancial e acelerada na qualidade do conhecimento técnico clínico, uma melhoria substancial dos meios de diagnóstico terapêuticos cada vez mais aprofundados e uma melhoria ao nível farmacológico? Como é que é possível que o cancro esteja sempre a aumentar? Isso está directamente relacionado com a esperança média de vida, com a longevidade”, responde o Presidente do Centro Oncológico dos Açores. 
Explica que a idade é o factor de risco maior em relação a todas as tipologias de cancro, sendo uma situação que se verifica a nível mundial. “A questão situa-se na esperança média de vida e na patologia oncológica, que de facto é crescente.” 
A substancial melhoria de qualidade de resposta, nomeadamente os programas de rastreios, a prevenção primária e secundária “são a melhor resposta para combater o cancro”, explica Raul Rego. 
“Importa dizer que nos Açores, os programas organizados de rastreios já têm uma estrutura bastante organizada com boas taxas de participação. Temos uma boa resposta. Mas mesmo assim, o cancro cresce.” 
São registados, anualmente, cerca de 950 casos de cancro nos Açores. Segundo um estudo publicado no ano passado, foram registados mais de 19 mil casos de cancro entre 1997 a 2016 nos Açores, “dos quais 11 mil e 367 casos foram detectados em homens e 7 mil e 863 casos foram detectados em mulheres”.

A importância da prevenção

Os rastreios para o cancro da mama, colo do útero e colon recto são universais e existem em vários países. No entanto, nos Açores, existe “um 4.º programa, uma experiência única. Penso que na Europa é pioneiro, havendo talvez um ou dois países na Ásia que o façam, que é o programa organizado para o cancro da cavidade oral”, refere Raul Rego.
Para a mama feminina, para o colon e recto, para a cavidade oral e cólo do útero existem 4 programas organizados de rastreios. Para o rastreio do cancro da mama feminina, a faixa etária é dos 45 anos aos 74 anos de idade. “É a faixa etária mais abrangente no país”.
As taxas de participação populacional nos Açores são relativamente elevadas. Segundo Raul Rego, existe uma taxa de cobertura geográfica a 100%. “Neste momento, é algo que em várias regiões do país estão a tentar fazer, sobretudo nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo, pois tem uma taxa com pouca cobertura no que diz respeito nomeadamente ao cancro da mama. O cancro do intestino ainda tem uma taxa de cobertura nacional muito baixa, creio 25%. E na Madeira, só realizam rastreio para o cancro da mama.”
Em relação ao rastreio da mama, a taxa de participação nos Açores é a maior do país, chegando aos 75%. “Embora estejamos repartidos em 9 parcelas, e isso levanta questões logísticas muitíssimo exigentes, o que implica muitas funções específicas. Além disso, temos uma cobertura superior porque o rastreio para o cancro da mama repete-se de 2 em 2 anos. Já vamos na 6.ª volta, tendo iniciado em 2009. Existem senhoras que só fizeram uma vez, que não estão incluídas naqueles 75%.” A par disso, existem pessoas que fazem o seu próprio controlo através dos médicos privados, sobretudo nos meios mais urbanos, onde a taxa de rastreios é mais baixa. “Temos uma cobertura populacional que anda nos 90%.” 
Os programas de rastreios são gratuitos. “Qual a vantagem? A prevenção precoce de uma patologia oncológica tem a particularidade de detectar lesões pré-malignos, situações com forte probabilidade de evoluir para cancro. Ora um rastreio previne as situações de cancro numa fase inicial, mas também previne as situações de pré-cancro o que é uma grande vantagem. Do ponto de vista humano, é um ganho incalculável. Do sofrimento humano, do orçamento das famílias,…em determinadas situações, há valores acima dos 100 mil euros tendo em conta os medicamentos, exames, doença prolongada”, conforme explica Raul Rego.
Relativamente ao cancro da mama, bem como os 3 cancros igualmente referido, em situação precoce, aumenta a capacidade de combate: um cancro tratado precocemente pode ser combatido com sucesso com uma probabilidade maior. “Portanto, os rastreios são altamente recomendáveis e têm linhas prioritárias de intervenção. É importante que as pessoas tenham esta consciência. Esta é uma forma de combater, mas há uma outra mais eficaz: a prevenção primária, ou seja, evita-lo. Os nossos hábitos de vida: não fumar, ter uma alimentação saudável e praticar exercício físico com regularidade. O tabagismo é considerado factor de risco para 1/3 de toda a patologia oncológica. Se as pessoas não fumarem, tiverem uma alimentação saudável, hábitos de vida saudáveis, essa é que é seguramente a melhor maneira de combater.” 
A doença, a partir dos 50 anos, começa a ter uma firmação mais incidente. “É a partir dos 50 anos de idade que a patologia oncológica se manifesta mais. O rastreio para o cancro do cólon e recto também é realizado a partir dos 50 anos de idade. No caso dos Açores vai dos 50 aos 74 anos. Para o colo do útero, o rastreio é realizado a partir dos 25 anos derivado à actividade sexual, indo até aos 64 anos. E para o cancro da cavidade oral vai dos 40 aos 74 anos. As faixas etárias nos rastreios variam de país para país em função de questões sociológicas, entre outras. “Quanto maior a idade, maior a incidência, embora o cancro depois de se instalar numa pessoa idosa tenha um nível de desenvolvimento menos agressivo, mais lento, a vulnerabilidade própria da idade cria esta apetência”, explica.


Uma mudança cultural

Para o Presidente do Centro Oncológico dos Açores, “o problema também está relacionado com uma questão cultural. Tem que se perder a mania de pensar que a doença existe porque a resposta dos serviços de saúde não é bastante. É importante criar consciências individuais e colectivas no que diz respeito a factores de risco, ao conhecimento, ao know-how. É muito importante que a nossa sociedade tenha este comportamento. Nós é que somos responsáveis pela nossa saúde também. E aquele pensamento de que só acontece aos outros.”
Relativamente ao que considera um flagelo da saúde pública - o consumo de tabaco -, Raul Rego diz: “não permitem que fumem ao vosso lado pois por vezes as pessoas são muito condescendentes. É importante criar uma consciência individual. As pessoas têm de entender que são as principais responsáveis pela sua saúde e deixar de culpar o sistema. É preciso criar esta cultura, na nossa terra, de sermos os principais responsáveis e defensores da nossa saúde”. Exemplificou com a campanha anti-tabagismo que foi criada em 1980, nos Estados Unidos, tendo já resultado apenas 15 anos depois, ou seja, a meados da década de 90. “Não me cansarei enquanto tiver voz: as pessoas que pensem bem, na questão do tabagismo que é um flagelo na saúde pública. Deixem de fumar”, destacou o Presidente do Centro Oncológico dos Açores.
A Direcção Regional de Saúde encontra-se a realizar um trabalho, sobretudo, junto das escolas ao nível da prevenção primária, com “as crianças, na faixa etária dos 10-13 anos, uma idade vulnerável às influências, sendo nesta idade que costumam a experimentar a fumar”. No âmbito da prevenção e combate às doenças oncológicas, este trabalho recente tem tido resultados positivos, havendo também uma resposta de ano para ano em termos de consultas de sessação de tabagismo ao nível das unidades de saúde de ilha. Em todas, existe esta oferta de serviço e as pessoas procuram. A propósito, Raul Rego aconselha: “existem já muitas respostas instaladas e nós temos que tirar partido da oferta pública porque neste momento nos Açores está a haver uma evolução muito positiva comparada com um passado não muito distante”.
Na Região Autónoma dos Açores, a capacidade de combate ao cancro, neste momento ,vai de um extremo ao outro: desde a prevenção primária até aos cuidados paliativos. “Neste momento, o Serviço Regional de Saúde está a fazer um trabalho, a melhorar uma resposta e integrar até os tratamentos. Temos o caso da Clínica de Radioterapia de Joaquim Chaves Saúde que presta serviços. Nos Açores, temos capacidade de resposta ao nível da cirurgia, do ponto de vista de recursos humanos, dos equipamentos. Temos serviços de oncologia médica que iniciaram em 1990: não estou a dizer que é um paraíso, mas é importante referir isto. Há de facto melhorias históricas substantivas e temos de reconhecer isso, valorizar e tirar partido dessa capacidade de resposta que neste momento está instalada nos Açores.”

Dia Mundial da Luta Contra o Cancro

Vinte anos após a instituição desta efeméride, no âmbito da World Summit Against Cancer for the New Millenium em Paris, os números continuam a aumentar. O objectivo desta data, uma iniciativa da União Internacional de Controlo do Cancro, visa não só sensibilizar a população, bem como promove-la na luta contra esta doença que, por ano, mata cerca de 10 milhões de pessoas no mundo e 30.000 no nosso país. Em outros países da Europa, como o caso da França e da Holanda, a mortalidade derivada pelas doenças oncológicas já ultrapassou os 30%.
Para além do factor da idade, o tabagismo é considerado uma das principais causas, sendo que em Portugal 20% das mortes são causadas pelo consumo de tabaco. Em 2017, o cancro do pulmão causou mais de 4.000 óbitos, estando no topo do ranking. 
No caso dos Açores, Raul Rego indica que se verifica um ligeiro decréscimo na taxa de tabagismo no que diz respeito ao homem e um acréscimo ligeiro em relação à mulher. 


 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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