FACE A FACE!.... com António Simas Santos

“A família tribal está a desaparecer”

Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Chamo-me António Carrilho Simas Santos e sou filho de pai picoense e mãe bracarense. Sou uma mistura de genes picarotos e celtas. Nasci, por voltas do destino, em Angola de onde regressei em criança.
Sou casado com uma mulher (a minha alma verde) nascida na República Checa , que ama o Pico e os Açores e que contribuiu, de forma decisiva, para eu me considerar um cidadão do mundo, com uma alma profundamente açoriana. Temos dois filhos (uma rapariga e um rapaz) que nasceram nos Açores e que estão radicados na Ilha do Pico.
Vivo no Pico, ininterruptamente, há quase 47 anos. 

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Sou licenciado em Medicina pela Universidade do Porto tendo as especialidades de Medicina Geral e Familiar e de Acupunctura Medica. Exerci funções como Director do então Hospital Concelhio de Lajes do Pico e Delegado de Saúde tendo sido Coordenador do Internato de Clínica Geral nos Açores. Actualmente, exerço funções, no âmbito das minhas especialidades, na actividade privada.
Fui Presidente da Comissão Administrativa da Câmara das Lajes do Pico, após o 25 de Abril. Exerci posteriormente um mandato como vereador da mesma câmara e fiz parte de várias Assembleias Municipais.
Fui cabeça de lista do Partido Socialista à Assembleia da República, tendo sido eleito. Fui, também, deputado pelo mesmo partido na Assembleia Regional dos Açores. Fui membro da Comissão Nacional do PS em 2 mandatos e exerci funções partidárias, a nível regional e na Ilha do Pico. Presentemente não exerço qualquer função partidária ou política, sendo apenas um militante de base.

Como se define hoje em termos de acção?
Continuo a ser um médico apaixonado pela prática da Medicina e, simultaneamente, pelo turismo verde como forma de melhorar o nosso extraordinário património natural não só criando postos de trabalho mas criando recursos para melhorar zonas abandonadas mas que têm um potencial turístico altíssimo.

Quais as suas responsabilidades actuais?
Continuo a ter uma prática médica regular e da qual não tenciono prescindir enquanto tiver vida e condições de saúde para o fazer. Considero essa prática um privilégio: a possibilidade de poder ajudar a despertar nos meus pacientes o médico que todos temos dentro de nós. Entendo que o acto médico não deve ser passivo, mas que o “doente” deve desempenhar um papel activo na gestão da sua própria saúde. 
Sou gestor do Hotel de Natureza Aldeia da Fonte e da Fonte Travel, uma agência de Viagens que se dedica à promoção e venda do Triângulo, das Flores e Corvo e de Santa Maria e Graciosa. A Fonte Travel é proprietária de varias plataformas na internet que, justamente, promovem e vendem os produtos turístico daquelas ilhas. Sou gestor de outra empresa que, muito brevemente, ira abrir uma petiscaria na rua principal da Vila das Lajes do Pico que pretende promover a nossa culinária tradicional do petisco e ser um ponto de encontro especial, olhando para a montanha do Pico

Como descreve a família de hoje?
A família tradicional está em rápida desagregação, com aparecimento das famílias monoparentais e das famílias reconstruídas a partir de divórcios com os filhos delas, meus e nossos. As relações de facto estão a tomar o lugar dos casamentos.
A família tradicional, diria mesmo tribal (com filhos, netos, pais, avos, irmãos, primos etc.), está em vias de desaparecimento, com o advento das creches e das casas de terceira idade. Família que, na minha opinião, tinha os ingredientes indispensáveis para crescimentos e envelhecimentos harmoniosos.
Mas o progresso e os correlativos hábitos de consumo têm determinado que marido e mulher tenham de trabalhar. E como não é possível ter sol na eira e chuva no nabal, não há tempo nem para as crianças nem para os idosos e o resultado está à vista.
Acho que é uma matéria que deveria ser objecto de uma profunda reflexão e de um extenso debate nacional 

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
A falta de educação que a família deveria assegurar e a escola não dá e apoio emocional e personalizado aos idosos e deficientes que o estado não consegue dar. Uma situação muito preocupante e de consequências imprevisíveis.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir na Região Autónoma?
Penso que no sentido acima descrito e que é também o que se passa no mundo dito civilizado.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Uma importância central e que todos os estudos demonstram ser essencial para a qualidade de vida e longevidade. A solidão é, possivelmente, o mais terrível gerador de doença e infelicidade.

 Que actividades desenvolve hoje?
Vejo doentes, faço a gestão das empresas, pratico ioga e meditação, contemplo e usufruo da natureza, amo, crio, rio e faço rir, leio, escrevo e durmo. Sinto-me um privilegiado e procuro tornar a felicidade o meu caminho. Não guardo rancores nem ódios e procuro tirar o melhor partido deste naco de vida que me foi proporcionado. Procuro fazer o bem, como lema de vida.

Que sonhos alimentou em criança? 
Ser médico.

O que mais o incomoda nos outros? 
O que mais me incomoda é, de modo aleatório o seguinte: inveja, ingratidão, arrogância, fanatismo, frivolidade, ignorância, ganância, covardia, desleixo, deslealdade e frieza emocional.
O que mais aprecio, também aleatoriamente: empatia, coragem, inteligência intelectual e emocional, criatividade, resiliência, sentido de justiça, compaixão e competência.

Que características mais admira no sexo oposto? 
Chamar-lhe-ia sexo complementar e não tanto oposto. Mais do que antagonismo falamos de Yin e Yang, a conjunção perfeita de um círculo.
Como seria de esperar, aprecio muito uma mulher bonita, mas verdadeiramente o que mais aprecio é a inteligência, sendo que considero a inteligência sexy! Aprecio, profundamente, as competências que as mulheres adquiriram ao longo de séculos de opressão e subalternidade. A mulher é um ser arguto, ponderado e gerador de compromissos. Não admira que a mulher esteja a atingir a liderança em inúmeros sectores profissionais e científicos.
Tenho pena que ainda haja tão poucas mulheres na política. A paz mundial, no meu entender, passará muito por aí.

Gosta de ler? Qual o seu livro de eleição?
Leio diariamente. É parte essencial do meu adormecer e do meu acordar. Lendo ficção e literatura, essencialmente portuguesa, e dando um grande espaço à reflexão filosófica e aos grandes temas políticos e sociais. Gosto muito do papel, mas utilizo muito os e-book que me permitem ler no original e de imediato os temas que mais me interessam.
Li tantos livros importantes que tenho dificuldade em eleger um. Contudo poderia salientar o “O Erro de Descartes” de António Damásio como um livro que marcou muito, pessoal e profissionalmente.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais? 
As redes sociais e sua grande difusão estão a transformá-las em verdadeiras “bíblias”. A impunidade e anonimato tornaram-nas em redes de mexerico a nível planetário.
Contudo, as redes sociais possibilitam, também, o acesso a um manancial de informação de grande qualidade e são veículos de comunicação de grande difusão que possibilitam o acesso aos grandes mercados internacionais e são essenciais para o marketing digital tão importante para a nossa Região.
Uso muito as redes essenciais precisamente com fins profissionais de marketing para promoção dos meus investimentos, da Ilha do Pico e dos Açores. Actualmente, ignorar as redes socais é ficar num gueto comunicacional.
A nível pessoal utilizo, diariamente, as redes para aceder a informação de grande qualidade porque ela também existe nas RS. A questão é não se perder na torrente de lamaçal que tantas vezes as mancha.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e net? 
Claro que sim. Mas teria que passar um longo período de adaptação. Não é fácil passar de cavalo para burro... Contudo, mantenho uma prática de jejum de telemóvel e internet, para impedir que deixe saber o que é a vida sem eles e me torne um viciado. Cada vez mais as pessoas deixam de comunicar olhos nos olhos para comunicarem virtualmente. Nunca se falou/escreveu tanto e, realmente, se comunicou tão pouco.

Costuma ler jornais?
Leio jornais diariamente. Quer nacionais quer regionais. Considero que a imprensa escrita, sobretudo os jornais de referência como verdadeiros antídotos para a total confusão/desinformação que são as redes sociais. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou
de fazer?
Gosto muito de viajar. Uma das viagens que mais me marcou foi uma ida a Cuba, ainda com Fidel Castro no poder. Pude constatar, com toda a clareza, como o modelo colectivista puro e sem incentivos castra a iniciativa privada e mata a criatividade. Naquela ilha, passou-se de oitenta para oito e tive a percepção clara de que a solução está no meio. Iniciativa privada e um Estado amigo das empresas mas, simultaneamente, regulador e promotor da igualdade de oportunidades.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
O meu prato favorito é um peixe bem grelhado, acompanhado com legumes e uma batatinha…

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
A notícia que me daria mais gozo seria o anúncio que a comunidade internacional, nomeadamente os grandes poluidores, tinha assumido as alterações climatéricas e tinha assinado um plano de emergência climática com metas muito bem definidas e com carácter de urgência.
Dada a finitude dos nossos recursos, esta é uma matéria que tem a ver a nossa sobrevivência que, obviamente, depende da biodiversidade e da manutenção do nosso habitat. E não vejo nada mais importante do que isto. De que servirão grandes tiradas metafísicas sobre uma espécie em extinção? Há que agir e depressa

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores? 
As Açores conheceram uma melhoria de qualidade notável que está datada com a Autonomia Regional e com a adesão à Comunidade Europeia. Contudo, persiste um problema de pobreza que é preciso reconhecer e resolver.
Acredito pouco em medidas meramente assistenciais que apenas resolvem problemas de momento, embora reconheça que, em alguns casos, são indispensáveis. Acho que teria de ser estabelecido um plano proactivo de integrar essas pessoas no mundo do trabalho para travar, de forma efectiva, os ciclos de transmissão de pobreza. 
As políticas implementadas para combater a pobreza, quer em Portugal quer na Região, não têm tido a eficácia suficiente para quebrar esses ciclos. E há três eixos que são fundamentais para os combater: educação, acesso ao emprego e habitação.
Portanto, será fundamental assegurar o acesso ao ensino e combater o abandono escolar; promover o acesso ao trabalho combatendo a sua precariedade e os contractos de trabalho irregulares e a evasão fiscal; assegurando aos jovens casais habitação condigna a preços controlados.
Devendo tudo isso ser feito numa atmosfera de responsabilização e mérito e não criando “falsos” empregos, promovendo uma cultura de abstencionismo e baixa rentabilidade. Há que dar com uma mão e exigir com a outra. No fundo, ensinar a pescar e assegurar o acesso às ferramentas e não dar peixe sem qualquer retorno.
A pobreza e a exclusão social são chagas completamente inaceitáveis numa sociedade democrática e inclusiva que assegure a igualdade de oportunidades para todo os cidadãos e promova a equidade. 

Qual a máxima que o/a inspira?
O meu limite é o horizonte

Em que época histórica gostaria de viver?
Gosto muito de viver nesta época de grandes desafios. Nos últimos cinquenta anos, o mundo evolui mais do que no século anterior e podemos hoje usufruir de conhecimentos e tecnologias impensáveis no início desse século. Sendo os desafios uma excelente forma de nos mantermos activos e desenvolvermos, em pleno, as nossas capacidades.

O que pensa da política? 
Sou um apaixonado pela política, no sentido grego (aristotélico) do termo. Como a arte e a ciência de nos organizarmos comunitariamente, de gerirmos o nosso devir colectivo e de termos uma visão de futuro. Considero a prática de cidadania esclarecida como um dos pilares da política, entendida no seu sentido mais lato e mais nobre.
Infelizmente, a política como a vivemos no dia-a-dia, tem vindo a afunilar para o monopólio dos partidos e, com o advento generalizado das redes sociais, desaguando na pura chicana política. Dessa política, em letras menores, não gosto e considero que está a dar origem a claros retrocessos civilizacionais. Vejam-se os casos de Trump e Bolsonaro, não esquecendo Viktor Orbán na Europa.
Penso que há muito “boa” gente que quer menorizar a política e desvalorizar os políticos, no seu conjunto, para abrir o caminho a todo o tipo de totalitarismos e populismos. Portanto, há que fazer um grande esforço para credibilizar os políticos, separando o trigo do joio. A política, hoje mais do que nunca, é indispensável para procurar soluções que permitam a sobrevivência do planeta e do ser humano como espécie.
A Política não deveria ser, nunca, refém de grupos ou interesses mas sim uma ferramenta (indispensável) para promover o diálogo e construir soluções socialmente justas, sustentáveis em termos de recursos e frenadoras das pilhagens que campeiam por esse mundo fora e que o vão tornando num verdadeiro pesadelo.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva algumas das medidas que tomaria?
Em primeiro lugar gostaria de dizer que essa pergunta é meramente retórica porque não estou, nesta fase da minha vida, disponível para o exercício de qualquer cargo governativo nem para tal fui, jamais, convidado.
Contudo, se assim não fosse, marcaria o meu exercício, precisamente por uma visão eminentemente política do meu lugar, rodeando-me de um grupo informal de “brain storming” que me mantivesse ligado ao dia-a-dia do meu pelouro e me ajudasse a definir a política do sector. Iria também promover o recrutamento, por mérito, de técnicos que dessem o melhor enquadramento no terreno às minhas opções.
Sendo o exercício do poder, em termos últimos, um acto muito pessoal teria, contudo, em linha de conta todos os aportes/críticas que considerasse positivos e criativos, viessem elas do meu partido ou de qualquer outro. Penso que a empatia com as pessoas seria uma imagem de marca do meu exercício. Considero que a proximidade com elas é o verdadeiro húmus de quem governa. Não sou um homem de gabinete embora lá tenha de passar muitas horas.
E, no nosso caso, seria um intransigente apologista da coesão das nossas ilhas e um forte adversário da tripolaridade que ainda persiste após quase 46 anos do 25 de Abril. Seria um fervoroso adepto da equidade e da igualdade de oportunidades para as ilhas. Utopia? Talvez, mas a utopia sempre precedeu as grandes mudanças.

Acredita numa proposta de revisão constitucional dos Açores?
Penso que faz todo o sentido reforçar o poder legislativo regional até para rentabilizar e valorizar o parlamento regional e os seus deputados.
A meu ver, a criação de um Círculo Eleitoral para eleições europeias faz todo o sentido. É tempo de a Região deixar de depender das boas ou más vontade dos partidos a nível nacional e de ficar sujeita a contingências da vida como há pouco, infelizmente, sofremos. A nossa condição de ultraperiferia justifica, também e por maioria de razões, uma representação no Parlamento Europeu.
Presentemente, o Representante da República é, com o devido respeito, uma espécie de Rainha de Inglaterra que pouco ou nada acrescenta à vida política regional. A estabilidade política dos Açores e a falência do movimento separatista são garantes suficientes que tornam obsoleta essa tutela. A maioria esmagadora dos açorianos sente-se portugueses como quaisquer outros.
A questão da bandeira parece-me ser, face às outras, uma questão de pouca monta, mas é perfeitamente coerente que bandeira regional acompanhe a bandeira nacional. Ela existe para isso mesmo

A falta de alternância democrática fragiliza o partido no poder e o poder instituído na Região? 
Penso que essa é uma regra fundamental dos regimes democráticos. Uma boa oposição faz um melhor governo.
Penso que foi uma boa medida a criação do círculo de compensação que permitiu a pequenos partidos terem assento na Assembleia Legislativa Regional, o que veio enriquecer, em muito, o debate.
Contudo, considero que o maior partido da oposição tem conhecido muitas vicissitudes, desde que saiu do poder. Não tendo, na minha opinião, sido capaz de exercer, inteiramente, esse papel. As contínuas mudanças de líder terão sido um factor determinante para essa situação. Seria bom para todos nós que encontrasse um caminho de estabilidade e um projecto alternativo credível.

O rumo que os detentores da governação açoriana têm seguido é o mais adequado? 
Um rumo pode e deve sempre ser corrigido quando se mostra inadequado, face à evolução das circunstâncias concretas. 
Sou da opinião que o trabalho desenvolvido pelo PS na Região é, globalmente, muito positivo. Mas sinto que há muito a fazer e a corrigir e uma das questões que considero ser importante é, precisamente, aquela da tripolaridade que já referi e que, objectivamente, remete para um papel secundário as outras seis ilhas. A ideia das Ilhas de Valor foi um conceito interessante, mas que não conseguiu romper com a periferia dentro dos Açores. Talvez uma maior descentralização dos departamentos governamentais fosse uma aposta a ter em conta numa futura revisão do estatuto. 
O actual estado das telecomunicações torna esse objectivo perfeitamente possível, sem quebra de eficácia. Finalmente, acredito que uma volta no sector público empresarial da Região e a majoração ainda maior para as ilhas menos desenvolvidas poderia trazer um grande factor de atractividade importante para o investimento nestas ilhas. Mesmo com os fundos comunitários ainda é difícil investir nas ilhas mais pequenas e/ou menos desenvolvidas.

Com o sector primário, sobretudo uma agricultura assente na agropecuária, a viver sérias dificuldades, o futuro dos Açores está no turismo? 
O turismo tem vindo crescer nos Açores, mas de forma quase exponencial em São Miguel. Tendo esse sector grande importância no desenvolvimento da Região não pode, de modo algum, ser a chave da nossa economia. O turismo tem ciclos e modas e a concorrência internacional é feroz. De modo algum podemos correr o risco de criar a “monocultura” do turismo. 
Penso que o sector primário tem grandes potencialidades desde de que lhe seja adicionado valor acrescentado. Veja-se o caso dos vinhos do Pico que têm vindo a criar uma grande notoriedade, nacional e internacional. E veja-se, também do Pico, o sucesso da carne IGP no mercado nacional. E o caso da grande referência, nacional e internacional, do queijo de São Jorge.
O leite açoriano tem, a meu ver, uma grande potencialidade que está longe de estar totalmente explorada, sobretudo no segmento gourmet.
Na Terceira, há experiências promissoras no âmbito das novas tecnologias que podem ter grande futuro no mercado global em que vivemos.
Seria um erro histórico imperdoável permitir que o turismo engula outros sectores de actividade devendo ser usado para promover a diversificação da nossa economia. Nunca perdendo de vista o facto de que sector primário é o primeiro responsável pela ocupação do território e seu ordenamento. A fuga maciça para os centros urbanos seria um desastre para os Açores.

Vivendo numa ilha sem hospital, como olha para o sector da saúde no arquipélago?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares e que daria, por si só, para uma entrevista!
Acho que temos uma saúde a dois tempos: as ilhas com hospital e as outras. Naturalmente que ninguém de bom senso defende a ideia de que deveriam existir em todas ilhas hospitais semelhantes aos que existem nas que os têm. Mas sempre foi um princípio de equidade que se mantém de pé e que por razoes desconhecidas nunca foi implementado.
Pequenos hospitais que deveriam manter verdadeiras urgências e não os presentes SAP´s (Serviço de Atendimento Permanente), eufemísticamente designados de “urgências”. Teremos que ter um verdadeiro serviço de urgência de ilha com tudo o que isso implica em meios técnicos e humanos. O que implica cirurgia de primeiro tempo, cuidados intensivos, sangue, imagiologia e medicina interna dado que uma urgência corresponde à situação onde existe risco de falência de funções vitais bem como acesso a cuidados de urgência, implica a capacidade de resposta adequada ao local da ocorrência e estabilização durante o transporte.
Entendendo-se por emergência médica um quadro grave, clínico ou cirúrgico ou misto, de aparecimento ou agravamento súbito e imprevisto, causando risco de vida ou grande sofrimento ao paciente e necessitando de solução imediata, a fim de evitar mal irreversível ou morte. E por urgência medica um quadro grave, clínico ou cirúrgico ou misto, de aparecimento ou agravamento rápido, mas não necessariamente imprevisto.
No caso concreto da grande proximidade das Ilhas do Faial e Pico faz todo o sentido que seja criado o Centro Hospitalar Faial-Pico tendo como base o Hospital da Horta e sendo criado no Pico um Pólo Hospitalar a ser implementado no novo Centro de Saúde da Madalena, um investimento que rondou os 12 milhões de euros e que, com algumas adaptações/ampliações, poderia desempenhar na perfeição essas funções, aproveitando uma economia de escala, possibilitando obvias sinergias e permitindo uma utilização cabal dos actuais recursos humanos.
A Ilha do Pico é um caso peculiar no contexto regional porque sendo a segunda ilha em tamanho, só suplantada por São Miguel, tem uma população diminuta e extremamente dispersa com distâncias muito significativas que chegam atingir os 50 quilómetros como é o caso entre a Piedade e Madalena, dois extremos da ilha no sentido longitudinal. Embora com uma boa rede de estradas não tem, contudo, vias rápidas que encurtem essas deslocações para tempos aceitáveis como são os necessários para emergências médicas. Situação mitigada pela presença de uma SIV mas que funciona em parte time e é insuficiente para uma ilha tão extensa.
Sendo ridículo que ainda hoje as grávidas do Pico tenham que permanecer semanas na Horta para um parto inteiramente normal quando em países bem mais desenvolvidos se incrementa o parto domiciliário.
Os próprios Serviços e Atendimento Permanente do Pico são assegurados por tarefeiros muito condicionados nas suas opções médicas e inteiramente tutelados pelo Hospital da Horta que centraliza totalmente as deslocações dos doentes do Pico, numa prática que eleva custos e que se traduz num claro retrocesso em relação ao passado. Trabalhar hoje nos serviços de saúde do Pico é uma actividade com imensas frustrações e condicionalismos.
 E os Centros de Saúde são, essencialmente, postos de consultas não cumprindo os objectivos para que foram criados e que deveriam ser fortemente dirigidos para a prática de medicina comunitária focada na prevenção e na educação para a saúde. Situação, de resto, transversal a toda a Região.
Muito há a fazer no sector da saúde no Pico e que, ironicamente, muito tem a ver com questões conceptuais e de boa gestão dos recursos e não tanto com estes. Muito mais se poderia fazer com as mesmas pessoas, os mesmos equipamentos e as mesmas verbas. Teria que ser, isso sim, bem repensado o actual modelo, sem preconceitos ou condições prévias, sobretudo no que diz respeito ao eixo Faial-Pico.

O sector público empresarial regional tem puxado os Açores para baixo? 
O sector empresarial público, e não só nos Açores mas também em Portugal, habituou-se a trabalhar com rede, ou seja, se a coisa correr mal o estado pai, paga. Criou-se o pai patrão e daí surgiu uma situação em que não se sabe aonde começa o pai e acaba o patrão e vice-versa.
Nada deveria impedir que o sector empresarial não trabalhasse como se de uma empresa privada bem gerida se tratasse. A grande diferença seria que o objectivo final fosse a qualidade de prestação de serviços públicos e não, essencialmente, o lucro. Esse sector precisa, a meu ver e em primeiro lugar, de bons gestores e depois de aplicar as regras da boa governança exigíveis numa empresa de sucesso.
Penso que, nesse sector, deverá haver uma grande mudança de paradigma para que não se torne recorrente a ideia de que apenas o sector privado gere bem ou que se deve privatizar tudo o que dá lucro. Disso mesmo é exemplo gritante o Serviço Nacional de Saúde ou o Serviço Regional da Saúde que, não devendo gerar lucros, não deveria igualmente geral dívidas colossais. As alternativas privadas têm surgido, em grande parte, pela má gestão dos fundos postos ao dispor do sector público. Na minha opinião, há que cerzir uma orçamentação realista com uma gestão rigorosa.
Não devendo ser a vocação do estado gerir empresas, nada impede que possa criar empresas públicas que sejam geridas de forma inteiramente competente, devendo para isso recrutar os melhores gestores (o que já tem sido feito com sucesso nalguns casos). Como nada impede que o Estado deixe de criar nados mortos que, não cumprindo funções sociais relevantes, se tornam num sorvedouro de dinheiros públicos.

Há dezenas de anos que lê-se a frase de que o Pico “é a ilha do futuro”. Em seu entender como é que a ilha do Pico pode desempenhar um papel mais relevante no desenvolvimento turístico dos Açores?
Pois é. Mas esse slogan deveria ser mudado para “ilha do presente, castrada”... Uma afirmação dura, mas realista!
O Pico atingiu, praticamente, as três mil camas oficiais de turismo. A sua notoriedade é crescente. Os seus empresários têm demonstrado uma grande ousadia e resiliência, utilizando maioritariamente capitais locais. Construíram um modelo de turismo original na Região e que se tornou num verdadeiro caso de estudo. Uma hotelaria que não se vê e que por essa via lhe confere uma qualidade paisagística notável. 
A Ilha do Pico precisa para desempenhar um papel ainda mais relevante, essencialmente, de duas coisas:
1 – Aumento da pista do seu aeroporto em 500 metros que virá determinar um quebra brutal dos cancelamentos e permitir operações charter que já foram tentadas bem como permitir stopovers de voos de e para os Estados Unidos e Canada, os nossos grandes potenciais mercados emissores. Sendo que o custo/benefício desse aumento é muito favorável porque implicará custos que rapidamente irão dar um enorme retorno.
2 – A melhoria do Porto de São Roque do Pico que permita as ligações diárias e regulares com a Ilha de São Jorge. Tendo sido lançado o concurso para o novo terminal desse porto, resta agora que bota dê com perdigota. Fechando finalmente o Triângulo, produto de características únicas na Região.
E serão, estas, as portas abertas para que o Pico passe a integrar o pelotão da frente.
                                                            

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima