A nossa gente (229) - Ricardo Ferreira

“Chumbei muita gente” mas quando a passagem de ano dependia da nota fazia um esforço para os alunos terem positiva

É natural de Ponta Delgada, como era há 90 anos atrás a cidade? Brincava-se na rua?
Gostava muito de futebol e morava na Arquinha. Ali passavam poucos automóveis na altura. Um dos automóveis que passava lá era do Doutor Augusto Athayde. 
Para jogarmos à bola à vontade, púnhamos duas pedras no meio da rua de cada lado para servir de balizas. Por vezes jogávamos uma hora na rua e não passavam carros nenhuns. Brincávamos à lata, onde púnhamos uma lata nos pés e corríamos com as latas a fazer barulho. Havia um ou outro que os pais tinham posses e tinham uma bicicleta ou um triciclo. 
Eu tinha uma colecção enorme de berlindes, porque o meu pai era empregado numa mercearia e antigamente vendiam várias bebidas em que a tampa era feita com uma bola de berlindes, os chamados “pirolitos”. Usávamos aqueles berlindes com umas covas na terra e atirávamos até acertarmos na cova. Brincávamos muito na rua.

Foi professor de Matemática. Porque seguiu essa profissão?
Não sei bem. Não tinha ninguém na família professor, mas sempre gostei e fui sendo razoável na escola. Mas no primeiro ano que fui para o Liceu tive uma dificuldade, porque eu não sabia que não via bem e puseram-me à frente na sala e como tinha essa dificuldade, um 8 parecia-me um 3 e os exercícios saiam errados. Até que um professor me disse que eu poderia não estar a ver bem. Naquele tempo havia um gabinete médico em casa escola e o médico que servia o Liceu era o Dr. Jaime Cunha e quando eu fui a uma consulta com ele já tinha 5 ou 6 dioptrias a menos. 
Depois passei a ver os números e passei a gostar muito de matemáticas. Fiz mais ou menos uma jura eterna que havia de ser um bom aluno de matemática e, de facto, durante todo o meu curso fui um bom aluno. 

Foi natural o percurso pela matemática?
Tinha uma professora que gostava muito de mim, passei a ser bom aluno de matemática e fui fazendo até ao 7º ano. Os ciclos antigamente eram 3º, 6º e 7º e o 6º ano funcionava como um 2º ciclo. A maioria dos pais, queria por os filhos empregados e a tabela para polícia e etc, era o 6º ano. Para o 7º ano, só ia estudar quem tinha dinheiro.
Fui para o Liceu e queria tirar o curso de Engenharia. Mas fui a uma inspecção mas como tinha aquele problema na vista não dava, disseram-me para ir para Engenharia Militar, mas chumbei. Então fui para Coimbra, para Matemática. Mas já no 6º ano tinha alunos de explicações. Eram alguns colegas que precisavam de ajuda e eu dava explicações para ter algum dinheiro para poder frequentar o curso em Coimbra.
No ano antes de eu ir para fora, criaram na Junta Geral bolsas de estudo. Davam bolsas num ano e só dali a 5 anos havia bolsas de novo. Mas nunca tive direito.

O gosto pelo ensino já vem desde cedo, com as explicações?
Até dei algumas lições à minha mulher, Evangelina, que já faleceu, porque foi-me sugerida por um professor e eu gostava de dar lições. Pensei que para ir para fora precisava de arranjar algum dinheiro e foi nesse sentido. Dei explicações a alunos do Liceu e a outras pessoas que já não estavam no Liceu, mas que precisavam do 6º ano para a sua vida profissional.
Depois entrei na Universidade, fui para fora, para Coimbra. O curso correu-me muito bem. Mas quando fui para Coimbra, uns alunos daqui queriam ir para a Escola do Exército e era preciso matemáticas gerais, que não tinham, e ensinei-lhes. Quando cheguei a Coimbra dei aulas a estes alunos.
Entretanto fui à tropa. Chumbei por causa da vista para estudar Engenharia Militar, mas para ir à tropa serviu. Houve colegas meus que pagaram a viagem de avião e foram à Terceira fazer a inspecção, onde se dizia que o médico facilitava. Mas eu, tive de ir à tropa. Fiz a tropa e fui colocado aqui, na Castanheira. Entretanto casei, tive três filhos. 

Já conhecia a sua esposa antes de ir para fora...
Conhecíamo-nos daqui. No meu 7º ano, éramos 20 alunos e havia só 5 ou 6 moças no meu ano. A minha esposa andava uns anos atrás de mim.
Antigamente as famílias provocavam os casamentos, ricos com ricos e pobres com pobres, mas nunca tive grande apetência para isso. 
A minha esposa andava dois anos antes de mim, era muito boa aluna e conhecíamo-nos daqui. Entretanto quando fui estudar para Coimbra escrevíamo-nos. Quando acabei o curso, fiz a tropa e ao fim da tropa casámos. 
No dia que fazíamos 2 anos de casados, nasceu a nossa prenda mais velha. Tivemos três filhos e todos foram estudar. O mais velho tirou Gestão, o outro tirou Engenharia e a minha filha tirou Medicina.  

Quando começou a dar aulas como eram os alunos? Diz-se que os portugueses não gostam de matemática, sentiu isso?
Nunca tive grandes razões de queixa de alunos. Tive sorte. Tive sempre bons alunos e sempre tive um feitio agradável, contando uma anedota aqui e ali. Problemas graves nunca tive, mas tive alguns anedóticos.

Por exemplo?
Tive um aluno, que estava sentado à frente e atrás dele estava um que era conhecido pelas suas brincadeiras. A certa altura este que estava atrás começa a apertar o nariz e eu pergunto o que se passa. Diz que não podia estar ali porque o colega da frente estava-se a portar bem. Perguntei ao que estava à frente se precisava de ir à casa de banho. Respondeu-me que precisava, mas que agora já não era preciso. Esta é uma anedota que gosto de contar.

Também esteve ligado à criação da Universidade dos Açores...
Estava a dar aulas no Liceu e nessa altura começou a criar-se a noção da escolas superiores e eu andava muito em encontros com professores e nessas questões, com o Dr. Enes, o Dr. João Bernardo... 
Principalmente com as chamadas “Semanas de Estudos” que se realizaram cá, começou a criar-se esta ânsia para ver se se elevava um pouco mais o ensino cá. Fizeram-se essas reuniões, vieram muitas pessoas de fora falar e quem estava à frente dessa vontade era o  Dr. José Enes, Dr. Cunha de Oliveira, e outros. 
Pensou-se então formar uma escola superior, porque dois anos antes já se tinha formado a escola de formação para professores. Pediram ao Dr. Enes para assumir este cargo de formar aqui uma escola superior, mas ele como me conhecia e mais duas pessoas quis que fizéssemos uma Comissão para organização da Universidade e assim foi. Fomos nomeados pelo Ministério e tratámos de tudo para se formar uma Universidade, desde arranjar um edifício, contactar alguns professores catedráticos.

Também é graças a si que há a Universidade aqui?
Passámos nesta sala da minha casa, serões até às 4 horas da madrugada. Eu, o Dr. José Enes, o Dr. Álvaro Monjardino, o Dr. Cunha de Oliveira. Eram muitos problemas que iam aparecendo e tínhamos de ir resolvendo isso. Nomearam então a Comissão Inicial de Honra e fiquei eu, o Dr. José Enes que era muito amigo do Dr. Santos Pereira, que depois veio ter comigo e formou-se uma comissão instaladora que tomou conta do processo para tratarmos de arrancar com esta Universidade.

Já que foi responsável pela Universidade, como vê o actual momento da academia açoriana?
Deixei um pouco de acompanhar esses assuntos quando me reformei. Sou amigo do reitor actual, como fui dos anteriores, mas não estou verdadeiramente compenetrado nisso. Quando o Professor Vasco Garcia foi reitor pediu-me para ser assessor, porque eu montei os serviços académicos, os serviços sociais, e como estava bem dentro desses assuntos ele pediu-me. Disse que não queria nada de mais responsabilidade. 
Mas nesse processo faltaram entretanto dois professores de matemática, e era preciso alguém que desse estatística, e fui dar estatística aos cursos de línguas e literaturas, e também aos de biologia. Esses envolvia mais matemática e mais desenvolvimento. Por isso fiquei na Universidade uns tempos, como professor também.

Quanto tempo?
Professor na Universidade não tive muitos anos, porque os primeiros 6 anos foi a montagem da Universidade, depois já em funcionamento, e porque faltaram esses dois professores, é que comecei a dar aulas. Ao mesmo tempo dei aulas na escola de enfermagem. A maioria dos enfermeiros daquele tempo passaram por mim. Dava estatística, mas aquelas aulas eram dadas nos dias que podia dar.

Era fácil cativar os alunos para a Matemática?
Tive alunos muito bons e tive alunos muito fracos. Tive até um curso muito engraçado, um grupo de alunos que fizeram os Preparatórios e depois foram para a universidade e fui dar duas horas por semana de aulas. Esses alunos tinham um interesse desmedido e nem me deixavam sair a tempo. 
No entanto, muitos vinham dizer que nunca tinham gostado de Matemática. Chumbei muita gente. Isso nunca me trouxe uma medalha, mas sempre que por qualquer motivo de notas um aluno ia chumbar, eu pensava duas ou três vezes e quando dependia da minha nota demorava mais numa prova oral até passar. 

Passaram-lhe muitos alunos pelas mãos...
É muito difícil contar. Eu tive alunos do 1º, 2º, 3º anos e tive montanhas de alunos do 7º ano. Depois de deixar de dar aulas, comecei com explicações. É difícil contabilizar.

Era fácil conciliar a vida familiar, com 3 filhos e a luta diária de dar aulas?
Era fácil. Os meus filhos foram bons alunos e seguiram o seu caminho. Havia uma coisa que lhes disse várias vezes e não sei se eles ouviram como devia ser. Eu e a minha mulher éramos ambos professores, de matemática, e o que nós falávamos mais em casa era sobre matemática. Um dia combinámos que não íamos falar mais de matemática e que eles iam seguir o curso que quisessem, mas que não fossem para professores de matemática. Felizmente nenhum deles foi para Matemática.

Mas estão de certa forma ligados à matemática...
Um foi para Gestão, outro para Engenharia, e a minha filha foi para Medicina. 

Há quanto tempo está reformado?
Estou reformado há 24 anos mas ainda continuei a dar aulas no curso de enfermagem, com uma licença do Ministério da Educação. Havia quatro professores que estavam nessa situação, com uma licença especial devido à carência de professores que havia na altura. Na escola de enfermagem dava grupo de aulas de 30 horas por semana.

Depois da reforma ainda se manteve ligado à matemática?
Gozar a reforma sem a matemática. Há coisas que me interessam sempre, mas nunca mais me debrucei sobre a matemática. Houve uma altura em que ainda pensei que tendo tempo livre podia fazer um Doutoramento, mas depois não segui.
Fui muitas vezes “chauffeur”, para os meus netos. Eles estavam nas actividades e eu ia buscar à escola e levar às actividades. 

Depois da reforma dedicou-se ainda mais à família...
Na vida há uma altura em que pensamos que somos feitos de aço. Eu dava muitas aulas, explicações, e julgava que nunca me cansava mas a certa altura tive uns sintomas que me deram o alerta que afinal não era feito de aço e que devia descansar. Por isso reduzi as horas das explicações e depois acabei por deixar. 
Sempre foram aparecendo um ou outro, aflitos, e eu fui aceitando mas sem compromissos. 

Mas também se dedicou à política...
A certa altura fui indicado para fazer parte da Junta Geral. No tempo havia a “Junta grande” e a “Junta pequena”. A Junta Geral, a “Junta pequena”, era constituída apenas por três elementos: Presidente, Secretário e Tesoureiro. E a “Junta grande” tinha esses elementos e representantes das várias profissões, como o director do porto.
Eu pertencia à “Junta pequena” e tínhamos reuniões todas as semanas. O Presidente era o Vaz do Rego, o Secretário era o Eduardo Oliveira e era eu. 

Enquanto foi professor?
Antes do 25 de Abril. 
Nunca ganhei um centavo com esse cargo porque antigamente nunca se recebia, só depois do 25 de Abril é que passaram a ser pagas as presenças nas reuniões. 

Quantos netos tem?
Tenho quatro netos e um bisneto que nasceu a 14 de Novembro de 2019. 

Algum dos netos seguiu a Matemática?
O mais novo tem muita facilidade para os números. Ninguém quis dar seguimento a cursar Matemática, mas há um que está a tirar gestão industrial, e mais dois que estão na gestão, enquanto uma é nutricionista.

Como vive hoje em dia os seus tempos livres?
Tenho uma coisa que me aborrece que é o facto de ler pouco. Canso-me muito agora. 
Gosto de ver televisão e de ver futebol.

Qual a sua equipa?
A Académica de Coimbra. Cheguei a ser jogador e dirigente da Académica. Jogador “de trazer por casa” porque eu fui para Coimbra com 17 anos e não se podia jogar profissionalmente com menos de 18 anos. 
Em 1952/53 estive na direcção da Académica, quando estava no 4º ano do curso de matemática. 
Sempre gostei de futebol, era capaz de jogar duas partidas de futebol seguidas e estava sempre pronto. 
Em Coimbra também pertenci à Comissão da Queima das Fitas. Era muito activo, metia-me em tudo embora às vezes fizesse pouco. Fui colega de curso do Doutor Veiga Simão e o Doutor Almeida Santos, que foi Presidente da Assembleia da República, estava na minha casa em Coimbra, sou contemporâneo dele.
Depois de vir para cá e enquanto professor também estive cerca de 15 anos no Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada. Também estive mais de 10 anos no Instituto Cultural de Ponta Delgada. 

Gostava de se manter activo e ajudou também a construir a sociedade micaelense...
Nem por isso. Eu não era da Direcção dos bombeiros, pertencia aos bombeiros como Presidente da Assembleia Geral. E no Instituto Cultural de Ponta Delgada também estive muitos anos. 

Ainda mantém algumas dessas ocupações?
Já não. Recebo as informações deles, as revistas que me enviam. Mantenho contacto com eles todos porque são meus amigos, mas activamente já não participo em nada.

Faz hoje 90 anos. Foi uma vida rica?
Uma vida riquíssima. Há sempre um ponto negro a vida para onde mais olhamos. Neste caso foi a partida da minha mulher. 
                    

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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