Morreu Zuraida Soares, a primeira deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores

Faleceu ontem, vítima de doença prolongada, aos 67 anos de idade,  Zuraida Soares, ex-deputada na Assembleia Legislativa Regional dos Açores pelo Bloco de Esquerda, de que foi sua coordenadora na Região entre 2004 e 2014, e membro da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda até à X Convenção Nacional, em 2016. Zuraida Soares deixou o Parlamento dos Açores a 20 de Setembro de 2018, tendo sido na ocasião sido aplaudida de pé pelos deputados de todas as bancadas parlamentares. 
 O Presidente do Governo dos Açores manifestou o seu profundo pesar pelo falecimento de Zuraida Soares: “Zuraida Soares era uma Mulher destemida, uma Política combativa e uma Parlamentar aguerrida. Mas, para além de todas essas vertentes, não tenho qualquer dúvida em afirmar que Zuraida Soares foi uma Açoriana de corpo inteiro, que amou esta terra, que tinha uma ideia muito clara do que queria para a nossa Região e que assumia, sem peias, a defesa desse ideal. E isso, sobreleva em muito a circunstância de um local de nascimento”, sublinhou Vasco Cordeiro.
“Discordámos muito e, em alguns casos, muito vivamente, do percurso e do caminho. Se isso, porventura, nos separava, estou convicto que o objectivo de uns Açores cada vez melhores nos aproximava”, afirmou o Presidente do Governo.
“Nesta hora de luto, em meu nome e no nome do Governo dos Açores apresento à sua família, aos seus amigos e ao Bloco de Esquerda as mais sentidas condolências”, concluiu Vasco Cordeiro.
O líder do partido nos Açores, António Lima, pela Direcção e no site do BE escreveu: 
“(...) Da mesma forma que enfrentou a vida - com coragem e abnegação - enfrentou mais esta prova, colocada pela mãe natureza, com serenidade e clarividência notáveis.
Nasceu em Lisboa, a 26 de Julho de 1952, no seio de uma família da classe média. O pai foi um destacado militante comunista e combatente antifascista.
Na adolescência, ruma a norte, fixando-se na cidade de Espinho. Nesta cidade termina os estudos secundários e continua os seus estudos universitários no Porto, na Universidade Católica, onde se licencia em Filosofia, posteriormente forma-se em Ciências da Educação e conclui duas pró-graduações em Filosofia Contemporânea e Medieval. Foi professora do ensino secundário durante 23 anos. Em 1995 vem para os Açores para leccionar na Universidade dos Açores. Anos mais tarde assume a Direcção do Centro Comunitário de Apoio ao Imigrante da Cresaçor.
É mãe de quatro filhos, duas meninas e dois meninos: a paridade perfeita.
Todos a conhecemos como uma mulher de causas, sempre empenhada. Nada na vida lhe era indiferente. Era feminista consequente, defensora das minorias e dos direitos individuais, lutadora intransigente contra as injustiças e a exploração do ser humano por outro ser humano, como ela gostava de sublinhar.
A sua actividade cívica e política começa cedo. Na universidade empenha-se na luta antifascista, o que lhe cria dissabores com a PIDE. Já em Braga, onde viveu parte importante da sua vida, é fundadora da Associação Arco-Iris - que viria a Presidir -, cuja finalidade central era o combate aos desmandos urbanísticos provocados pelo urbanismo selvagem. Neste processo aproxima-se da política partidária e adere à Política XXI (um dos partidos fundadores do Bloco de Esquerda).
Nos Açores, a sua actividade política e cívica manteve-se de forma contundente. Em 1998, desafiando o conservadorismo reinante, é um dos rostos centrais, nos Açores,  da luta pela despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, no referendo desse ano. Este facto, em simultâneo com outras tomadas de posição públicas, levam a que instituição universitária coloque em causa a sua continuidade como professora na nossa academia.
Esta circunstância, a par da destruição de um carro, sua pertença, ou o facto de ter sido brutalmente agredida, numa noite à porta de sua casa – o que a levou para a urgência hospitalar – não a remeteu ao silêncio, nem a impediu de continuar a sua luta. Adere ao movimento que faz nascer o Bloco de Esquerda, do qual é fundadora, em 1999. No Bloco de Esquerda é coordenadora regional entre 2004 e 2014 e entre 2016 e 2018.
Foi membro da Mesa Nacional por diversos mandatos e da Comissão Política Nacional entre 2014 e 2016.
Foi eleita para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores pela primeira vez em 2008, onde se manteve até 2018, tendo sido reeleita duas vezes.
No Parlamento, todos e todas conhecemos a sua paixão pelo debate, a acutilância com que defendia as suas causas, a inteligência e o humor que colocava no debate parlamentar. Esteve sempre na defesa empenhada da terra que tornou sua, os Açores. Pugnou contra o conservadorismo, pela transparência da coisa pública, pelo desenvolvimento assente no conhecimento e sempre, mas sempre, pela cultura, como pilar de uma melhor sociedade. Esta é uma súmula da tua vida pública, dedicada à liberdade, à democracia, ao combate a todas as formas de discriminação e injustiça. Uma vida, como dizias, “vivida e gozada”.
Mas não posso deixar de prestar homenagem ao teu humanismo. Fosse camarada ou não, todos à tua volta, em períodos de dor e sofrimento, sabiam poder contar com a tua presença, a tua palavra o teu apoio, o teu incentivo. Vamos sentir saudades da tua gargalhada, da tua alegria de viver, da tua força – onde o impossível não existia – e mesmo da tua obstinação para que tudo estivesse pronto ontem.
Vamos seguir o teu exemplo. Nos dias em que as coisas correrem menos bem dizias: ”Bora, vamos beber um copo, amanhã é outro dia”, remata António Lima.
 

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Autor: CA

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