Manuela Medeiros, Voluntária do Hospital do Divino no Dia Mundial do Doente

“Temos muita atenção à vontade da pessoa porque muitas vezes sentimos que ela está a fazer uma despedida”

 Enquanto trabalhava na Fábrica de Tabaco Micaelense e enquanto sindicalista, “durante muitos anos”, Manuela Medeiros sempre foi muito activa e quando chegou a idade da reforma “não queria parar”. Sempre disse que quando tivesse mais tempo livre, havia de ser voluntária mas estava mais inclinada para instituições com crianças. Foi por isso que por três vezes, “como São Pedro”, negou ao então responsável pelos voluntários, o Padre Duarte Melo, integrar a Liga dos Amigos do Hospital de Ponta Delgada, as chamadas “batas amarelas”. 
“Gosto muito de crianças” e por isso estava decidida a ser voluntária num local onde as ajudasse a crescer. Mas a experiência que tinha no “hospital velho”, perto do local de trabalho, de “fazer visitas” aos doentes que ali se encontravam, fez com que o caminho fosse outro. “Enquanto estava na Fábrica de Tabaco Micaelense ia com algumas colegas fazer visitas aos doentes. Não tínhamos uma responsabilidade no doente nem nas famílias, íamos para ver os doentes e estar ali com eles”, conta Manuela Medeiros que há quase 20 anos acabou por abraçar as “batas amarelas” como um trabalho e ali se mantém. 
Apesar de a rotina de passar pelos quartos e auxiliar os doentes se ter instalado, Manuela Medeiros ainda se recorda que antes de contactar com os internados teve de passar por uma formação. “Principalmente formação de linguagem. Diziam-nos na nossa formação que precisávamos de purificar a nossa linguagem para falar com o doente”, explica.
Depois foi-lhe pedido que aliasse a formação de voluntariado à formação para ser Ministra da Comunhão, na capela do Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada. Assim fez. Mas só aos Domingos é que ajuda na comunhão. O resto dos dias é passado “a falar com os doentes, a falar com as famílias. Mas temos de ter uma formação sobretudo para saber fazer a nossa aproximação ao doente, tanto na linguagem como na nossa atitude porque são pessoas muito fragilizadas”, explica.
Principalmente no serviço a que mais se dedica: nos cuidados paliativos. Diz que nas outras enfermarias, “que foi onde comecei”, já lhe chamam a atenção “na brincadeira”, por não passar ali mais tempo. “Mas eu penso que nós vamos onde somos mais precisos, a verdade é essa”, afirma. 
Recorda um cântico “muito bonito” que costuma cantar e que refere “eu encontro o rosto do Senhor e encontro-o dentro do meu coração”. Quando se depara com doentes mais fragilizados costuma pensar que “o Cristo vivo é esta pessoa que está aqui ao meu lado. Não estamos sempre a pensar naquilo mas quando vejo um doente mais fragilizado e famílias mais fragilizadas, sem saber o que dizer e como fazer. Vem-me esta imagem. Automaticamente, tornamo-nos como um grãozinho de areia junto daquele rosto fragilizado mas que no meio daquele sofrimento ainda nos dá um sorriso. São autênticas revelações naquela fragilidade”, testemunha.
Durante os quase 20 anos de “bata amarela” Manuela Medeiros recorda que muitas vezes não sabe de onde lhe vem a coragem para lidar com tanta fragilidade. “Não sei de onde vem a coragem de estarmos a ver um doente no fim, que sabemos que é o fim, e estarmos com ele”, conta ao recordar certo dia quando se deparou com um doente que tinha falecido de forma repentina e a um familiar “disse-me que lhe custava tanto ir buscar a roupa e saber que ele ia ficar sozinho, já cadáver. E eu fiquei ali até o familiar chegar e já estava cadáver”.
Além da coragem necessária para lidar com as situações que lhe passam pelas mãos, Manuela Medeiros diz que para se ser “bata amarela” também é preciso muita atenção para com os doentes. Principalmente no serviço dos cuidados paliativos onde “perguntamos se os doentes estão bem, se querem ver alguma coisa, se querem fazer alguma coisa. Um dia um enfermeiro até foi a casa de uma doente buscar os seus cães para a doente os ver”. Manuela Medeiros conta que sempre que podem tentam conceder quase o último desejos de quem passa por aqueles corredores internado. Certo dia foi um senhor da freguesia da Achada que um dos gostos que tinha era falar com o Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro. Moveram esforços para que fosse possível e concretizou-se: “a pessoa ficou tranquila e o Presidente foi lá falar com ele”. No encontro, o doente terá pedido um outro desejo: o de visitar o Palácio de Santana e também o concretizou “com a ajuda de uma enfermeira que se disponibilizou para ir com o doente”. Manuela Medeiros diz que “temos muita atenção a essa parte. À vontade da pessoa porque estamos a sentir que ela está a fazer uma despedida”. 

Dia do mimo e da saúde
Manuela Medeiros diz que além da coragem e dedicação, a humildade também tem de ser uma característica do voluntário que trabalha com os doentes. “Porque o voluntário não pode pensar que sabe mais ou é melhor que o outro. Estamos sempre a aprender com o doente, o doente dá-nos cada lição que não é brincadeira. Seja no aspecto da partida, da família e às vezes fazem-nos perguntas que temos de responder com outra pergunta”, afirma.
Além disso, tem de se encarar o voluntariado como um trabalho que se faz por gosto. Porque apesar de ser voluntária, Manuela Medeiros faz questão de reforçar que também é preciso cumprir o regulamento da Liga dos Amigos do Hospital de Ponta Delgada e “ter assiduidade e compromisso com o voluntariado e com a doença em geral”. 
É por isso que afirma que o Dia Mundial do Doente, que hoje se assinala, “é o dia também da saúde. Temos de falar de saúde. É o dia do mimo”. Por isso todos os anos é oferecida uma lembrança a todos os doentes internados no Hospital do Divino Espírito Santo. “Este ano vai ser um quadro em acrílico a dizer ‘bom dia doente amigo, o voluntário está contigo. Hoje e sempre” e marcamos assim a nossa presença’, embora garanta que depende muito do estado do doente. “Até podemos entrar em silêncio e sair em silêncio e falar apenas com algum familiar”, explica.
“No dia do doente há muitas vezes em que vemos que quando damos a lembrança dão-nos um sorriso. Mas quem tem de agradecer a eles somos nós. Por aquele sorriso”, reforça.

Ser também doente
Manuela Medeiros fala com um grande amor daquilo que faz há quase 20 anos e diz que já não consegue viver sem as idas ao hospital. Mas de há cinco meses para cá viu-se obrigada também ela a ser doente. “Mas o que eu tenho não é uma doença, foi um acidente”, apressa-se a dizer enquanto informa que apenas partiu um pé. Mas o acidente levou-a a ficar afastada das suas lides e a “sentir na pele” o que o doente muitas vezes sente: a solidão. 
Entre algumas lágrimas conta que “estive dois meses em casa só com as paredes à minha volta” e o que ajudou a passar o sofrimento e o tempo “foram os telefonemas, as visitas até de pessoas que não esperava”. Manuela Medeiros reconhece que “os primeiros dois meses foi terrível”, quando não podia apoiar o pé no chão e não se podia deslocar, “só mesmo quando ia fazer o penso, e quando chegava ao hospital ia de cadeira de rodas. Não foi brincadeira”, conta.
Enquanto esteve sozinha “senti solidão. O que mais me cansei foi de estar parada sem fazer nada. Senti a verdadeira solidão. Senti o que é muitas vezes os doentes terem de estar sozinhos, sem família, e muitos que têm de estar isolados mesmo no Hospital. Senti sobretudo o meu sentimento de não poder fazer nada”, explica.
Nem mesmo dentro de casa se podia deslocar em condições e quando o pôde começar a fazer “andava de andarilho” e não podia pegar em mais nada além do auxílio para se deslocar. Até que pôde finalmente colocar o pé no chão “e descobrimos, eu e a minha irmã, uma maneira de eu poder ir ao frigorífico”. 
Os dias de solidão que diz que passou também a ajudaram a compreender melhor o que sentem “os verdadeiros doentes”. Aqui recorda novamente o exemplo de uma doente, internada nos cuidados paliativos, que cantava no coro da sua Igreja e Manuela Medeiros foi chamada para ajudar a quebrar a solidão daquela doente e a ajudá-la a manter viva uma coisa que gostava de fazer. “A doente dizia os cânticos que ela sabia e cantávamos as duas e eu cantava um dos meus e ela dizia que queria aprender. E cantávamos assim”, conta.
Neste Dia Mundial do Doente, Manuela Medeiros conta que muitos dos doentes internados sentem necessidade de falar. “A solidão do silêncio é terrível”, afirma a “bata amarela” que acrescenta que “eles precisam de alguém que os saiba escutar e eu às vezes tenho dificuldades em saber escutar”. 
O tempo que passou sozinha e também passou por essa realidade “também me levou a fazer uma caminhada e a descobrir como o silêncio é bom. O silêncio é saboroso. Eu tinha medo do silêncio. Mas o silêncio é bom e temos de saber escutar porque eu estou a ouvir e tenho uma ânsia de dizer as coisas para não me esquecer”.
É por isso que acredita que toda a experiência enquanto voluntária “é gratificante e faz-me renovar o compromisso. Dar valor ao que é a solidão e essa solidão também se reproduz a muita gente doente que está sozinha em casa”.
Para aliviar esta solidão também aos outros, Manuela Medeiros sente “uma ânsia muito grande cá dentro para ir para o meu trabalho” e apesar de ainda se apoiar numa canadiana para se conseguir movimentar “ainda não consigo ir todos os dias” ao Hospital. Mas na semana passada “já vesti a minha ‘bata amarela’, já tive uma reunião nos cuidados paliativos e já fui fazer umas visitas”. 
Ao recordar este Dia Mundial do Doentes criado pelo Papa João Paulo II, que hoje se assinala, e estando nos “dois lados da barricada”, Manuela Medeiros recorda “com saudade o sorriso de João Paulo II, a alegria pelos jovens, a grande ternura que ele expressava na cultura de evangelização e proximidade. “Estava sempre com um sorriso”. Um sorriso que as “batas amarelas” também tentam levar a quem está internado e se encontra sozinho. Principalmente no Dia Mundial do Doente.
                                              Carla Dias
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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