Os senhores da rádio sabem que têm ao alcance da voz o meio mais “magnético e poderoso” de fazer chegar a mensagem

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Rádio. A data de 13 de Fevereiro foi declarada em 2011 pela UNESCO e a primeira comemoração mundial deste dia ocorreu um ano depois. Embora a efeméride seja recente, o dia escolhido teve por base um acontecimento que remonta ao século passado. Foi neste dia que a United Nations Radio emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para um grupo de seis países. 
A título de curiosidade regista-se que a partir desta altura houve uma proliferação de emissoras. A rádio durante décadas foi o único meio de comunicação das populações com o mundo. A rádio ajudou a minimizar a solidão, foi dos únicos entretenimentos de grande alcance, fez sonhar, deu a conhecer pessoas e foi fundamental em situações de emergência social. Mesmo com toda a evolução técnica e tecnológica, continua a ocupar um papel principal na vida contemporânea e a ser um elo de ligação entre comunidades. 
São as vozes da rádio e hoje os protagonistas deste meio de comunicação que consideram ser poderoso. Atingem as maiores audiências, pois estão no rádio tradicional mas também em muitas outras plataformas  e distribuídos por equipamentos diversos.

O dono da rádio

Carlos Pires Antunes anda no meio da rádio há 37 anos quando ainda era a voz de rádios piratas em Portugal continental. Mudou-se para os Açores e o contacto com este meio de comunicação estreitou-se com a ligação à Rádio Atlântida, onde emprestou a voz, o seu conhecimento publicitário e mais tarde, já lá vão 31 anos, passou a proprietário, primeiro em sociedade e depois em nome individual. 
Para este empresário, “a rádio continua a ser o grande de ligação entre os povos. Nós que estamos Açores, e que transmitimos na internet (há quase duas décadas), temos um grande feedback de pessoas de São Miguel mas também de outras regiões do país que estão nos EUA, Canadá e Bermuda e na Europa. Realmente, a rádio continua a ser um grande elo de ligação entre pessoas, entre culturas, que permite a quem está fora da Região acompanhar o que se vai passando nos Açores na cultura, na política, na sociedade”.
Este elo faz-se quer através das ondas hertzianas, que é sintonizada através da rádio no carro ou em casa, quer através da internet na plataforma MEO rádios, no facebook, e ainda nas plataformas IOS e Android que estão disponíveis gratuitamente para se fazer o download da aplicação e ouvir rádio em qualquer parte do mundo, neste caso a Rádio Atlântida, regista Carlos Pires Antunes.
Hoje, este dono da rádio não empresta a sua voz. Diz que teve de ser assim porque para colocar a máquina a trabalhar [Empresa Rádio Atlântida] nem sempre é fácil e é preciso andar na rua à procura do sustento para a mesma – a publicidade. “As rádios não têm subsídios dos governos, Regional ou da República. As rádios vivem com o produto da venda de publicidade nos seus espaços comerciais, os quais estão disponíveis para as empresas clientes. Continua a ser ainda hoje difícil para uma empresa de comunicação social sobreviver, pagando atempadamente os seus compromissos com o produto de publicidade. Isto é, com  o aparecimento de outros meios de comunicação nas plataformas digitais, há empresários que ainda não perceberam que a rádio é a forma mais directa, mais eficaz e mais barata que têm de chegar aos seus clientes e promoverem os seus produtos e serviços. Segundo sondagens recentes, a Atlântida é a rádio mais ouvida na região, mas há outras rádios muito importantes no meio rádio dos Açores”.
Havendo condicionalismos financeiros torna-se difícil ter todos os recursos desejáveis, quer técnicos quer humanos, mas Pires Antunes desdramatiza. “Não sou defensor de que os meios de comunicação social sejam subsídio-dependentes, mas a haver apoio deve ser equitativo para todos, de acordo com o seu grau de influência na sociedade, está claro, e com o número do seu quadro de pessoal. Ou seja, é normal que quanto maior o número de colaboradores mais impacto haverá na sociedade por parte de uma rádio e superior será a uma rádio que não passa de um site, que não tem quadro de pessoal... Por isso, defendo apoios com as diferenças necessárias. Também defendo que os apoios dados não sejam retirados quando seja dita uma verdade sobre um governo e/ou que alguém achou que a mesma não devia ser dita”, remata com indirectas o dono da rádio.

Abraçar com a Voz

Graça Moniz é um nome da rádio de todos conhecido. A professora sempre foi a mulher dos mil e um ofícios, sendo a rádio apenas mais um a quem emprestava a sua voz doce e cadenciada, até que se tornou a sua actividade principal, tendo abraçado não só a rádio mas também a televisão. Actualmente dedica-se de corpo e alma à RDP/RTP, a partir do Faial, depois de ter estado como locutora na Rádio Atlântida quando ainda dava aulas em São Miguel, sua ilha natal.
Para a nossa interlocutora “a  Rádio é espaço de afecto e animação, ligando ilhas, ilhéus e quem vier por bem. A Rádio é tempo de melodias e palavras, que se distinguem no género, número e grau, comunicando em tons, tipos e formas. 
Cada qual tem o seu estilo. Não há duas vozes iguais. O Ser é indissociável da palavra (para o bem e para o mal), o que pode levar à contemplação e ao real. Num cenário ideal, a palavra irá clarificar, iluminar, libertar e harmonizar, sendo compreendida. O silêncio será uma pausa para ouvir verdadeiramente o outro e com ele falar. Refletimos (com os) os outros”. 
Mais. “Com a Linguagem e as múltiplas literacias enveredamos pelos labirintos do Ser, para atingirmos o (auto)conhecimento e a sagacidade, numa comunicação pessoal, social e universal, ou seja, num desafio constante na formação de cidadãos autónomos, conscientes, críticos, criativos, integrados, participativos e solidários, num país que se constata assimétrico, num mundo em mudança. As instituições e os media podem e devem ter sensibilidade relativamente a áreas e públicos vulneráveis: tensões culturais, económicas, políticas, religiosas e sociais. Como nos tocam as palavras ditas pelas crianças, pelos idosos, por quem sofre? A fala poderá dar consistência à realidade e ela é uma realidade, que se quer sem extremismos. Convém, no quotidiano, descodificar e esmiuçar o que chega até nós – ter as tecnologias, mas ser de comunicação –. Que a ciência esteja ao serviço do Homem e da (nova) Sociedade, com consciência”. 
As palavras dizem e fazem adivinhar, diz Graça Moniz, pois “vão ao encontro ou de encontro?”, questiona e responde: “ A palavra (re)descobre. Com a palavra encontro. Falo comigo, de mim, com o(s) outro(s). Queremos ser mais, queremos ser melhores – enquanto pessoas, cidadãos e profissionais –. Ser (é ter) um nome. Deter os nomes das coisas, chamar as coisas pelos nomes são uma questão de poder. Ser que não (se) cala. Falamos porque não estamos sozinhos. Na Rádio e com a Rádio não estamos sozinhos. Vozes (cada qual é um mundo), vazios e silêncios. O riso igualmente integra. Tomar a palavra, passar a palavra ou tirar a palavra... O Homem fala o que sente e sente o que (lhe) fala(m)? Os seres precisam de afinidades, confiança e acolhimento”. 
Ninguém brilha sozinho, garante. “É imprescindível e inadiável perceber a Linguagem para nos abrirmos ao Transcendente. A função da fala, essencialmente, não é uma função orgânica.
Faça-se e respire-se o silêncio sem o qual não há fado nem poesia. Crie-se o vazio e a despersonalização. Nada é definitivo. Será que tudo poderá ser definido? Tudo será relacionável”. 
A Rádio, para a médiatica Graça Moniz, “apresenta um discurso actual, autêntico, breve, fugaz e imediato. Com um tratamento em simultâneo ou em diferido, ajuda a activar o processo de compreensão (oral), a ensinar a escutar os outros, a melhorar as noções de tempo e espaço, desenvolvendo as capacidades de síntese e imaginação. O lado relacional é muito importante. Hoje, viajamos por auto-estradas da informação, no mundo da intercompreensão, em diálogos que podem ser enriquecedores, perversos e devastadores. Os Media desenvolvem capacidades criativas, intuitivas e de interligação entre os vários discursos. A Educação e a Comunicação Social poderão tornar o espetador mais competente, distinguindo o que é conhecimento, facto e opinião, ajudando a esclarecer e a prever. Há quem diga que os Media são uma “Escola paralela”, constituindo um dos “meios de educação”. O efeito mimético não deverá ser descurado na comunicação didáctica e mediática. Devemos ser e ter bons modelos – Educação para, nos e com os media –. A inovação surgirá, então, como conceito ontológico e axiológico”.
A Rádio será sempre, como ainda sublinha, “uma experiência afectiva, cognitiva, moral e social. O latente, o patente e o oculto estarão nos alinhamentos e “no ar”. Nada se repete. Tudo se renova. Recria-se.
 O desafio de hoje já não é o de ontem nem o de amanhã. Acende-se a luz: gostamos de navegar e sorrir juntos. Para mim, Rádio é Vida e Felicidade”, opina Graça Moniz.

O meio mais magnético de todos 
os meios de comunicação

Herberto Quaresma é também um Senhor da Rádio. Empresta a sua voz há três décadas e pertence a uma geração que passa a música ao ouvinte com sentimento, destacando com nobreza os pormenores de quem canta, de quem produz, de quem edita. Enfim, é a voz que leva até si as novidades musicais na RDP e para quem quando se fala de rádio “é o meio mais magnético de todos os meios de comunicação social, sem precisar mais do que o som e a palavra, transporta-se ouvindo-se até à informação, à história, à cultura mas também ao entretenimento à troca de culturas e de experiências. É, talvez, o meio mais extraordinário de divulgação musical que sempre me encantou nos trinta anos da minha carreira. 
A rádio é também universal, sobretudo cada vez mais global, se bem utilizada e recebida por aqueles que a fazem e por aqueles que a ouvem, mas também a mais eficaz e verdadeira linguagem que foi criada. De hoje e para o futuro é um dos meios mais desafiantes”.
Em relação a particularidade da área do entretenimento e no aproximar das várias geografias, Herberto Quaresma entende que aqui também a rádio é, por definição, o seu meio mais privilegiado. “Eu ainda acredito em pleno século XXI, neste ano de 2020, que é o meio mais eficaz de divulgação da música e da informação. É também o mais popular e democrático, está em todo o lado e toda a gente pode aceder”, independentemente do equipamento que tenha.
A rádio mesmo com os desafios, com a chegada da televisão, da internet, e consequentemente das redes sociais mais populares e actuais, como facebook, twitter, e outros, tem um futuro longo, na perspectiva de Herberto Quaresma. “É por isso que comemoramos o Dia Mundial da Rádio”, sustenta o animador musical da RDP, para quem também houve alterações na relação entre o dono da voz e o ouvinte. Isto é, a voz da rádio durante muitos anos dessossegou muita gente. Queria-se saber quem estava atrás daquela voz, mas ao longo dos tempos houve alterações. “ A minha como animador/radialista permite-me perceber várias nuances. Nos anos 90 a voz era reconhecida e as pessoas tinham curiosidade em saber quem era a pessoa porque havia um mistério do rosto associado à voz. Depois, com a associação da voz à imagem, em meu entender bem, isso ficou completamente alterado. São muitos raros os casos de radialistas que ainda conseguem manter o anonimato. Todos nós, por várias razões, acabamos por ser reconhecidos fisicamente e agora a rádio pública, onde trabalho, prepara-se para apostar no “visual rádio”, que é precisamente a rádio com imagem, não mais uma rádio de som e palavra, no formato clássico, mas sobretudo uma produtora de conteúdos, que são distribuídos nas plataformas digitais. Há uma linguagem nova e nós também mudamos. Faz parte da evolução das coisas e da rádio também”, opina o radialista.

                      

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