14 de fevereiro de 2020

Crónicas de Bruxelas

63 - Voando com o Tintin a pensar no grupo SATA

Numa das minhas últimas viagens entre Bruxelas e Lisboa, tive o privilégio de viajar a bordo do avião “Rackham”, um Airbus A320 da Brussels Airlines dedicado às aventuras do Tintim. Este é um dos seis aviões temáticos desta companhia de aviação belga. O exterior está pintado com imagens desta banda desenhada, a bordo, durante a viagem, colocaram à disposição para leitura alguns dos livros do Tintim e uma hashtag permite identificar eventuais publicações nas redes sociais. É excelente publicidade à Bélgica e ao Tintin.
Os outros aviões temáticos são o “Bruegel”, dedicado ao mestre pintor Pieter Bruguel, o Velho, o “Trident”, dedicado à equipa de futebol belga, o “Aerosmurf”, dedicado aos estrumpfes, o “Magritte”, dedicado ao pintor René Magritte, e o “Amare”, “uma ode” ao festival musical Tomorrowland. O exterior destes aviões está decorado com pinturas de enorme bom gosto e que, imediatamente, nos relacionam com a temática. Funcionam como autênticos promotores da Bélgica e dos seus valores. Num país extraordinariamente dividido pela política, geografia e cultura este tipo de iniciativas é importante e, penso eu, pode ter consequências positivas.
Obviamente, é impossível não fazer comparações com a TAP e a SATA. A nossa companhia aérea nacional já teve alguns aviões temáticos e com resultados interessantes. Por exemplo, um Airbus A330 foi pintado exteriormente com uma decoração retro, que aludia aos primeiros aviões desta companhia. No dorso deste avião podia ler-se, por extenso, “Transportes Aéreos Portugueses” e outros detalhes da época. Mais recentemente, um dos aviões foi decorado com a alusão ao centésimo avião comprado pela companhia. No caso da SATA, os aviões mais recentes também têm sido decorados com imagens ou, pelo menos, um design original. Lembro o caso do “Cachalote”, um Airbus A330, e os mais recentes A321 estão decorados com umas enormes palavras escritas em inglês no dorso que lembram valores turísticos relevantes para os Açores.
Tudo o que apontei atrás são bons exemplos, mas poderíamos ir mais longe, na minha opinião. É evidente que decorar todos os aviões de uma frota pode ser excessivamente caro e até inútil. Por exemplo, que vantagem teria promover os Açores na frota regional dos Bombardier Dash Q200 quando estes apenas voam nos Açores? Claro que não faz sentido. No entanto, no caso dos Bombardier Dash Q400, que voam para a Madeira e Canárias, parece-me poder ser uma boa ideia.
No caso da frota nacional, alguns aviões merecem-me uma atenção particular. O “Zé Pedro”, o avião da TAP que faz uma homenagem ao guitarrista homónimo dos Xutos e Pontapés falecido há pouco tempo após prolongada doença é, para mim, uma oportunidade perdida. Quer dizer, estou a exagerar... Obviamente que o fim essencial dos aviões é transportar pessoas e esse avião fá-lo com excelência, como aliás todos os da TAP e da SATA. Mas este avião, em particular, teve um enorme impacto mediático e não há jovem, ou menos jovem, passageiro português que não sinta qualquer coisa quando entra a bordo. Eu já viajei duas vezes neste avião e garanto que muitos postam (um novo verbo!) no Facebook e no Twitter a sua experiência.
Ora, se virmos com atenção, a única menção ao Zé Pedro ou aos Xutos, tirando o próprio nome, é um “X” estilizado impresso perto do nome. Muito pouco! Temos que ir mais longe! Por exemplo, uma fotografia de corpo inteiro do artista à entrada do avião permitiria que as pessoas tirassem selfies durante o voo. A música de bordo tem que ser, obviamente, a ele dedicada ou mesmo dos Xutos e Pontapés. O “Zé Pedro” deveria ser uma experiência imersiva!
Outros exemplos existem, mas fiquemo-nos apenas por mais um. Não é necessário fazer um grande investimento para que a bordo do “Sophia”, por exemplo, se distribuam alguns poemas da nossa poetisa maior.
Haja um pouco mais de imaginação e ousadia para transformar os embaixadores de Portugal, que são os aviões da TAP e da SATA, em promotores ainda mais ativos. Era espetacular!
Nota: A foto aqui partilhada foi por mim obtida com a prévia autorização do comissário de bordo ilustrado. Muito simpático, aliás como toda a tripulação.

 

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Categorias: Opinião

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