14 de fevereiro de 2020

Chá da Cesta - 16

II A importância de Macau no comércio mundial do chá

O comércio mundial do chá não dispensava Macau nem os comerciantes ‘Portugueses’ (macaenses? Chineses? Ou ambos?). Amaral destaca ‘o papel importante que, desde 1577, Macau desempenhou no comércio sinoeuropeu (…) entreposto (…) procurado por outros europeus para aquisição de produtos Chineses, entre eles o chá.’1 

João Paulo Azevedo de Oliveira e Costa, Historiador da Expansão Portuguesa, com incidência na História do Japão Moderno e História das religiões na Ásia Antiga História da Europa (séc. XV-XVI),2 esmiuça este movimento comercial. Explica que, dentro das lucrativas relações comerciais nas margens dos Impérios Europeus e Asiáticos, “em Batávia, no arco cronológico que vai de 1648 a 1754, os Portugueses foram, juntamente com os Chineses, a comunidade mercantil mais dinâmica, vendendo chá, sedas, zinco e outras mercadorias e levando no regresso pimenta e canela, esta oriunda do Ceilão e destinada ao comércio com Manila”.3 

Macau, um entreposto importante do chá, como reconhecem os ingleses. Confirma-se “através da carta de um comerciante inglês, R. C. Wickan, escrita do Japão, em 1615, que nessa altura, já Macau era um importante entreposto de chá (…).”4 Era lá que os mercadores europeus estanciavam a caminho do chá de Cantão, quando Cantão abriu as portas aos Europeus. Era ainda de lá que ia parte do chá para a Java Holandesa. Era Macau que fornecia chá antes de Cantão. No século XVIII, o Marquês de Pombal incentivou o comércio do Chá: ‘(…) A ascensão do comércio do chá, despoletado por um maior consumo na Europa, sobretudo em Inglaterra, já havia chamado a atenção do Marquês. O agudizar da crise comercial devido à perturbação do comércio com o Brasil e a instabilidade sentida em todo o Atlântico Norte com a guerra de independência das colónias americanas levaram-no a pensar fazer de Macau um centro exportador daquele (p.96) [produto].’5
É certo que em Portugal “(…) o consumo não descolou e manteve-se sempre dentro de nichos, insuficientes para animar um comércio com Macau sem ser acompanhado (p.36) de outras mercadorias chinesas, com relevo para as porcelanas (…)”.6 Mas isso não significa que Macau não participasse no comércio do chá. Melhor dizendo, estamos em crer que o desinteresse relativo dos Portugueses pelo chá, era apenas do consumo e não da venda, já que o circuito do chá de Macau foi essencial para Holandeses e Britânicos. Os Portugueses não consomem nem transportam chá para a Europa, mas abastecem em Macau ou em Java parte do circuito. A situação, tirando o chá Japonês, manter-se-á seguramente até ao desfecho da Guerra do Ópio, em meados do século XIX. É nesta fronteira de intercâmbio comercial no Oriente, longe dos centros Imperiais, nas margens dos Impérios europeus, por vezes em contracorrente com os interesses da Metrópole ou de outras áreas do Império, que o comércio do chá se processa.

Lugar Areias, Rabo de Peixe, 7 de Fevereiro de 2020

1     Amaral, Ob. Cit., p. 59.
2     http://www.fcsh.unl.pt/faculdade/docentes/cjpo
3     Costa, João Paulo (coordenador), José Damião Rodrigues, Pedro Aires Oliveira, História da Expansão e do Império Português, Esfera dos Livros, 2014, p. 216. 
4     Idem, p. 59.
5     Figueiredo, Fernando, Os Vectores da Economia, In História dos Portugueses no Extremo Oriente, Direcção de A. H. Oliveira Marques, Macau e Timor. Do Antigo Regime à República 3.º Volume, pp.95-96.
6     Cunha, Ob. Cit., 2012, pp. 35-36.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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