15 de fevereiro de 2020

Do meu olhar

Um caso muito sério

   

1. Não é por causa  da famigerada Eutanásia que hoje volto a falar de envelhecimento, da velhice e dos mais velhos , que todos caminham para lá (  aqueles que chegam ), dos vários factores que envolvem este problema que, podem crer, já se pode considerar um caso muito sério. Mas é preciso que nos animemos porque neste mundo onde vivem os que ultrapassam os setenta,  há muitos aspetos positivos e de esperança que nos devem animar e olhar em frente. 
Comecemos por ouvir o mais novo cardeal português, natural da Madeira, D. José Tolentino Mendonça , que é também um poeta de requintado sabor. Sobre o tema da velhice escreveu ele que “ Cada um de nós envelhece à sua maneira, com a sua própria dicção e os seus limites, os seus contextos e os seus sonhos, mas temos muito que aprender uns com os outros “ e depois acrescenta que “ A velhice pode ser uma oportunidade para viver de forma mais reconciliada , pacificadora , espiritual e atenta, na fidelidade a essa arte que nos está confiada : a de dizer e redizer infinitamente o amor .”  É bom também saborearmos o peso e o gosto da palavra!

  2. Tomei conhecimento, há dias, pela pena do articulista do Expresso Nelson Machado, de um novo conceito inserido no fenómeno do Envelhecimento a que chamaram  “ A Economia da Longevidade “  que foi designada como sendo o ‘ maior mercado do século XXI ‘. Vejamos assim , de imediato , como a pessoa mais idosa é envolvida nesta presumível influência que pode gerar no mercado, no futuro que já começou,  e não propriamente pela atenção que devem merecer de todos os setores da sociedade, desde logo da família e dos seus constrangimentos , do Estado e das suas precariedades e ziguezagues políticos , das Instituições a quem muito se exige e pouco se apoia e finalmente da própria Igreja.
  A população está  cada vez mais envelhecida  e daí resulta um novo fenómeno pela primeira vez abordado no World Economic Fórum, que se terá inspirado  “ na realidade demográfica que vivemos atualmente , que acarreta novos problemas para o desenvolvimento económico e social das sociedades .” Foi defendido, como ponto de partida,  “ a delineação de uma estratégia para a Economia da Longevidade “ , ou seja a nova realidade que resulta de se viver mais anos é vista como um período de transição e de mudança, que na verdade se tem vindo a registar nos “ hábitos saudáveis, atividades de lazer e entretenimento ou até mesmo de ensino“. Deve-se ter em conta que cada pessoa é uma pessoa , singular, única , que tanto pode dançar aos oitenta e ensinar aos setenta, passear aos noventa como empreender aos setenta e cinco, como pode sofrer mais cedo de limitações físicas e psíquicas que lhes condicionam a sua vida. É justo dizer que mais recentemente a sociedade começou a valorizar , com outros olhos , os mais velhos , até sabendo aproveitar as suas reais potencialidades , muito profícuas até para as gerações mais novas , hoje tão carentes  dos valores mais sublimes que determinam a qualidade e o rumo da sociedade do mundo atual.

3. É por isso necessário educar as gerações mais novas para este fenómeno e, assim,  preparar o futuro com maior determinação e rigor e, sobretudo, com a atenção do coração , onde estão os afetos, o carinho, a proximidade, os valores da Educação e da Cultura, do respeito e da responsabilidade, da paciência e da fidelidade que são aprendidos na família e nas Escolas ,  nas Instituições e na sociedade em geral, alterando-se profundamente currículos e programas e outras aleivosias que foram facilmente adoptadas pela modernidade dita progressista.
A Educação do futuro, na linha do autor referido, implica também um emaranhado de decisões na “ gestão do orçamento familiar , na percepção da poupança , nos investimentos , no crédito ou no consumo “. A economia da longevidade tem muito a ver com a gestão financeira familiar e a sua influência na vida de cada um . Mas toda esta questão é transversal e, por isso, implica a participação de todos , os mais diretamente visados, os mais velhos com o estatuto de seniores, os filhos e netos ,os irmãos ,  a malta nova e os cuidadores, os vizinhos e os amigos . Isto para não tecermos por agora nenhum comentário sobre o peso que recai na Segurança  Social na esfera do Estado.                                                                                                                     A longevidade é, no fundo, a soma de toda a vida, a experiência e as vivências , o inestimável valor de uma biblioteca viva , a multiplicação dos saberes e dos sabores e o requinte da memória renovada , capaz de repetir sem conta os  episódios da vida passada mais fantásticos e criativos. Mas é preciso estar atento.
 
                   Espigão,  Nordestinho, 
                  14 de Fevereiro de 2020

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Categorias: Opinião

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