Albano Cymbron defende a construção do Museu da Laranja em São Miguel

 Albano Cymbron, conhecido empresário ligado à Agência de Viagens Melo, defende que deve ser criado o Museu da Laranja em São Miguel, de preferência em Ponta Delgada, onde se concentra um maior número de turistas. O Museu não precisa de ser megalómano mas sim uma casa típica açoriana da época áurea da laranja nos Açores (Séculos XIII e XIX), onde se exponha todos os instrumentos relacionados com o citrino. Bastava, segundo o empresário, encontrar um espaço adequado, com traça da altura, uma cozinha antiga, uma sala de jantar, uma sala e um quarto de banho no quintal, como antigamente, e nesse quintal seriam apreciadas as laranjeiras. Caso não seja possível desta forma, pode ser uma casa museu e as visitas podem ser feitas em quintas, como as que existem em Rabo de Peixe. 
A casa que o empresário escolhia para construir o Museu também tinha que ter um espaço para venda de artigos relacionados com a laranja, desde bolos a sumo, passando pelas queijadas e, porque não, as laranjeiras. Enfim, seria útil para a preservação da memória de que um tempo que fez desenvolver comercial e culturalmente os Açores e podia ser aproveitado para rentabilizar o investimento. “Basta uma casa da época, sem grande investimento e sem grandes obras”, realça o empresário.
A defesa da criação deste museu surge na sequência da entrevista feita ao também escritor; Albano Cymbron é conhecido pela sua ligação ao Turismo mas já escreveu dois livros relacionados com as baleias nos Açores e agora surge com “Laranja: A época Áurea dos Açores”, em parceria com David Sayers. A obra é uma edição de autor, patrocinada pela Agência de Viagens Melo, e está escrita em português e inglês, defendendo o empresário de que hoje em dia só faz sentido um  edição bilingue.
“O que é preciso é que se pense na criação de um museu atractivo e explicativo. Nisso os ingleses são fantásticos e bastava que algum responsável fosse lá durante dois dias ver, por exemplo, o Museu do Chá, e ver como eles procedem e interagem com os turistas. Têm o chá, explicam a sua feitura, fazem o chá e atiram as caixas do chá como se fazia na altura. Se algum turista tem uma nacionalidade que o liga ao chá eles também explicam melhor. Por cá fazia-se o mesmo com a laranja, até porque na Europa sabia-se que a laranja era de Portugal”.
Segundo Albano Cymbron este “era um comércio que envolvia perigosas viagens atlânticas e no Inverno um enorme risco financeiro. Eram semelhantes às viagens das famosas escunas que transportavam chá das Índias Orientais para Inglaterra”.
Diz que da investigação feita poder-se-á dizer que os europeus só conheciam a laranja amarga até ao século XV, sendo que “as primeiras laranjas doces foram trazidas para a Europa pelos portugueses no século XVI”, mas só nos Séculos XVIII e XIX é que os Açores deram o seu contributo para a exportação”, depois de séculos de vivência difícil nos Açores, onde o dinheiro não abundava. Todas as ilhas tiveram plantação de laranja, com excepção da ilha Graciosa. O interessante, opina Albano Cymbron, é devido à laranja também e atingiu o luxo no casario mesmo na ilha Graciosa, onde não havia laranjais. Há exemplos de casas na ilha desta época que reflecte, e bem, a época da laranja.
Portanto, a laranja permitiu trazer um melhor nível de vida, que se cultiva nos Açores desde o século XVI,  e até criou “uma nova classe de agricultores, trouxe comerciantes de Inglaterra, aumentou o rendimento disponível, estimulou o consumo das famílias e financiou o Porto de Ponta Delgada”, regista o nosso interlocutor, acrescentando que com o dinheiro da exportação se construiu em 1830 e um cemitério inglês. Do outro lado, na Inglaterra os importadores ficaram ricos, a construção naval expandiu-se e os pobres ingleses tiveram de melhorar um pouco as suas condições de vida com a venda de laranjas na rua. Os ingleses lembram pouco desse tempo, mas por cá ainda há bem viva esta época devido à existência de inúmeras casas dessa época, não só em Ponta Delgada e arredores mas também em outras ilhas do arquipélago, diz Albano Cymbron.
A primeira importação de laranja remonta a 1751 quando uma pequena remessa foi enviada para Cork, na Irlanda. Devido à Revolução Industrial inglesa e ao aumento do poder de compra, aumentou-se a exportação e estimulou a produção. “Algumas pessoas ligadas à navegação, ingleses a viver nos Açores, aperceberam-se da oportunidade de negócio” e assim a laranja de S. Miguel teve sucesso e melhorou a vida de muita gente. A título de curiosidade, havia em 1800 cerca de 2000 produtores de laranja, tanto donos como arrendatários de quintas. Em 1820 havia apenas uma casa de exportação açoriana e oito inglesas.
Em relação ao arquipélago no que respeita à produção e exportação, São Miguel figura com a principal impulsionadora, ao que se seguem as ilhas Terceira, Faial e Pico.
A obra de Albano Cymbron fala da vivência social e cultural da época da laranja, dos altos e baixos, mas também da sua importância económica para uma região isolada praticamente do mundo, à época. “É revelada a história daqueles cem anos e o impacto que o comércio teve em Inglaterra (…), a importância dos Açores na exportação da laranja não só para Inglaterra, mas também para a América, Austrália e , como diz, “quem sabe para onde mais”. A história termina com o fim da laranja e a sua substituição pelo ananás e pelas vacas que vemos hoje”.
Albano Cymbron, sendo um homem ligado ao turismo, crê que os turistas terão com certeza interesse em conhecer esta parte histórica e comercial dos Açores e, tal como a Nova Zelândia que acarinha todos os turistas, desde o mochileiro ao que pode pagar hotéis de cinco estrelas, entende que os Açores também o devem fazer. Isto é, um turista de mochila vem por mais tempo e deixa dinheiro mas este que anda hoje de mochila amanhã poderá ser um turista de hotel, pois isso vem com o tempo de trabalho e a idade. Ninguém começa a pagar hotéis de cinco estrelas sem trabalhar. Para o nosso entrevistado um turista de mochila pode, por vezes, deixar num mês de férias, o mesmo dinheiro que um que passa o fim-de-semana num hotel. Enfim, é tempo de repensar a classificação dos turistas porque todos são importantes, remata o autor de “Laranja: A Época Áurea dos Açores”.

                                         

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