Investigador Félix Rodrigues confirma que Coronavírus pode chegar aos Açores e acha “deselegante” que a tutela da Saúde “atire areia para os olhos das pessoas”

No âmbito do estudo realizado pelo docente da Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente, juntamente com Cidália Frias e Rosa Carvalhal da Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores relativamente à probabilidade do Coronavírus chegar ao arquipélago dos Açores, o Director Regional da Saúde referiu que desconhecia “a metodologia e o rigor científico das probabilidades calculadas pelos mesmos”. Félix Rodrigues, perante as declarações de Tiago Lopes, vem refutar a mesmas.
 “Não é aos autores do artigos que compete gerir uma situação desta natureza, mas sim à tutela regional da Saúde. Não é aos autores do artigo que compete enviar qualquer informação à Secretaria Regional da Saúde, mas sim o contrário pois é a tutela da Saúde na Região que tem essa responsabilidade executiva. Se alguém desconhece uma metodologia de avaliação das probabilidades para um caso como este, deveria inteirar-se dela antes de se pronunciar publicamente sobre ela para logo dar a entender que não tem rigor científico”, refere Félix Rodrigues. Para os investigadores, o facto de o Director Regional da Saúde “menosprezar” o estudo é porque então “possui dados completamente diferentes de um qualquer modelo robusto que tem em posse ou então teria que ter forçosamente conhecimento da metodologia e dos cálculos para que pudesse apontar as falhas de um outro estudo, que é, que se tenha conhecimento, o único elaborado nos Açores”. Questionam então qual o número e as contas segundo a Direcção Regional da Saúde. “Chega de atirar areia para os olhos das pessoas. Não se pode amenizar as coisas”. Acrescenta então que se existem dados concretos que estes sejam publicados.

As probabilidades obtidas

“Na entrevista concedida, não nos foram solicitadas as premissas da avaliação probabilística que fizemos, mas parece-nos ser óbvio que se centraram em «fluxos» de pessoas que entram e saem da Região”, explica o investigador. “Assim, as probabilidades aqui apresentadas podem ser recalculadas tendo em conta nova e pertinente informação sobre o comportamento do Covid-19, nomeadamente tempo de incubação, vetores de propagação e alterações de tendências matemáticas de crescimento da epidemia chinesa”, conclui Félix Rodrigues.
O estudo teve sempre em conta os dados disponíveis do passado dia 6 de Fevereiro: “nessa data, conclui-se uma carta de falhas da gestão do Covid-19 nos Açores com probabilidades que entretanto se alteraram, em termos de falha de gestão, nomeadamente o conhecimento da existência de seis quartos de pressão negativa no Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira, em vez de um (o único reservado para gerir os primeiros casos que possam ocorrer na Região) e a nova contabilização de infecção e mortalidade por esse vírus levada a cabo pela China. Esta última situação poderia alterar a probabilidade de chegada ou não chegada do vírus aos Açores, incrementando-a, mas de acordo com a metodologia de cálculo que utilizámos não observámos diferenças significativas.” No entanto, pôde-se constar que dos 6 quartos de pressão negativa existentes nesta unidade hospitalar, 5 estão a ser utilizados devido à falta de espaço para acolher doentes que se encontram internados. Como explica Félix Rodrigues, “a probabilidade de chegada ou não chegada à região do Coronavírus foi baseada nos dados por país da Organização Mundial de Saúde onde a infecção já está presente”, à data referida acima. Tendo em conta os dados da Organização Mundial de Saúde, à data do dia de 6 de Fevereiro do ano corrente, a probabilidade de um país ou uma região administrativa ser infectada é de 14,5%: “Essa seria a probabilidade mínima de infecção por coronavírus e depende claramente dos transportes e ligações entre os vários países. Pela centralidade dos Açores, essa probabilidade é a menor das probabilidades possíveis” explica.
No entanto, “há risco acrescido pelo facto dos Açores terem paragens de navios de cruzeiros”, algo referido no artigo publicado no passado dia 14 de Fevereiro. No arquipélago açoriano, nomeadamente nas cidades de Ponta Delgada, Praia da Vitória e Horta, atracam cruzeiros vindos de diferentes origens e “a probabilidade de haver erro humano na deteção de um coronavírus na região, duplica ou triplica. A maior probabilidade de erro será associada a Ponta Delgada, seguindo de Praia da Vitória e finalmente Horta. Pelos Açores, passam cruzeiros, aviões oficiais e particulares, iates particulares, navios da marinha mercante, navios de guerra e barcos e navios de pesca. Não há dados para analisar todos os riscos relacionados com essas entradas, mas existem dados para alguns deles.” Dos cruzeiros, cerca de 53% estão classificados “como tendo alto padrão sanitário” e as embarcações que se encontram nesta categoria seguem praticamente as normas exigidas pelas agências internacionais de saúde e do ambiente, sendo consideradas “como tendo um padrão de excelência do ponto de vista sanitário. “Existe bibliografia sobre isso”, refuta o investigador. Segundo o mesmo, “a probabilidade de um passageiro de um navio de cruzeiro estar infetado por Covid-19 terá que ser a probabilidade de ter um cruzeiro fora dos padrões sanitários internacionais em Ponta Delgada. Nesta cidade, há mais de meia centena de escalas de cruzeiros anualmente, sendo que o fluxo de passageiros de cruzeiros é apenas de 3% do total de passageiros a nível mundial. “Admita-se então que apenas 22% dos passageiros (proporção da população chinesa relativamente população mundial) são chineses a desembarcar em Ponta Delgada, o que significaria termos cerca de 396 chineses a sair em Ponta Delgada por ano, sendo 186 deles provenientes de cruzeiros com reduzida sanidade (47%x396). A probabilidade de se ser portador de coronavírus é só de 0,06% se for chinês, admitindo que todos os outros países têm a epidemia controlada. Assim, teremos 0,06%*186, ou seja, apenas a possibilidade de 0,12 casos por ano a desembarcar em Ponta Delgada. Admitamos que na Praia da Vitória e Horta se tem apenas um terço dos passageiros de cruzeiro que em Ponta Delgada. Nessa caso a probabilidade de ter um infetado é de 15% (0,12+0,03)”, explica o investigador.
Relativamente à probabilidade de uma pessoa chegar ao arquipélago dos Açores, tendo sempre em conta os dados da OMS, à data de 6 de Fevereiro, é de 14%. Mas o investigador explica melhor estes mesmos: “admite-se que se pode ter uma taxa de infecção igual à média dos países mais desenvolvidos, como o Japão, Coreia do Sul, Rússia, Europa, USA e Canadá. Incluiremos aqui Macau, pelo facto de haver açorianos e portugueses com fortes ligações a esse território. Assim teríamos uma probabilidade de infeção da ordem dos 15/193= 7,5%”. 15 refere-se precisamente aos países mais desenvolvidos, incluindo o facto de os primeiros casos diagnosticados foram de infectados que provinham da China.
Em suma, a probabilidade de haver infecção por Covid-19 nos Açores, não contando com voos militares de zonas infectadas, somando os dados descritos anteriormente dá um total de 37% (14,5%, relativo à probabilidade de um país ou uma região administrativa ser infectada + 15%, relativo a um infectado num cruzeiro + 7,5% - proveniente de zonas infectadas). Até à data do dia 16 de Fevereiro, ou seja, anteontem, segundo o relatório diário da Organização Mundial de Saúde, já haviam sido confirmados perto de 52 mil casos de COVID-19. Na Europa, já foram diagnosticados meia centena de casos de Coronavírus, tendo já 2 casos confirmados em Espanha.

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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