18 de fevereiro de 2020

Teatro do Estado

Fiquei abismado com a notícia, em parangonas e com ar triunfalista, acerca da proposta da criação de uma entidade pública empresarial para o aparecimento de uma companhia de teatro nos Açores, com sede em Angra do Heroísmo. Mesmo só à boa maneira esquerdizante, e ainda por cima, tudo isto em memória da antiga deputada Zuraida Soares e em complemento da homenagem feita pela Diocese de Angra.
Ao que havíamos de chegar, pois criar companhias de teatro oficiais, nunca deverá ser competência do Estado e neste caso particular da Região, pois seria centralizar a produção cultural, criando companhias de Estado, em vez de apoiar o desenvolvimento de um tecido cultural plural e independente nos Açores.
O dinamismo cultural nos Açores é por demais evidente e sua capacidade de evoluir será maior, se lhe forem facultados os meios. Ao criar uma companhia oficial nas nossas ilhas, com a sua sede, seja no lugarejo for, mesmo no mais recôndito espaço de um pequeno espaço açórico, ou numa grande cidade, vai dar ao mesmo, dado que é castrar a oportunidade de se desenvolver um sector naturalmente ativo e empreendedor.
Compete, como é óbvio, aos poderes públicos, Governo Regional, através da Secretaria Regional da Educação e Cultura, bem como às Câmaras Municipais e às Juntas de Freguesia fomentar a cultura, através de apoios adequados aos agentes de produção e criação independentes por concursos, porque só assim se garante que o setor continue a caraterizar-se pela necessária criatividade.
O BE veio pomposamente numa conferência de imprensa dizer que é chegada a altura de termos na Região um grupo de teatro profissional, propondo que o executivo açoriano crie um grupo de teatro profissional, através de uma entidade pública empresarial regional, e definindo mesmo os seus estatutos.
Entre eles, está a obrigatoriedade de o grupo, com sede na ilha Terceira, levar anualmente, pelo menos, duas peças de teatro a cada ilha do arquipélago.
Com isto, entende o BE que a perspetiva é de complementar a atividade dos grupos existentes, até com o objetivo de, num futuro mais ou menos próximo, termos ainda mais grupos de teatro amador.
Por outro lado, com isso, pretende o Bloco de Esquerda, no seu entendimento político, que este grupo de teatro profissional tenha uma componente fortemente pedagógica, não só ao garantir a formação aos grupos de teatro amador, mas também levar o teatro cada vez mais a uma maior variedade de públicos.
Depois vem, justificar que a intenção de sediar o grupo profissional de teatro na ilha Terceira é por terem em conta a grande tradição que a ilha tem no desempenho de artes cénicas, desde grupos de teatro amadores, já há muito conhecidos, com longa existência, e também pelo próprio caráter espontâneo associado às danças e bailinhos de Carnaval, que acabam por ser a maior manifestação do país em termos de teatro amador.
É preciso não esquecer que, por norma, tudo o que é oficial e dependente do Estado fica sujeito a interferências políticas e as suas estruturas são normalmente muito mais caras e com um funcionamento burocratizado, fazendo-nos lembrar as estruturas de criação estatais que pululavam por terras além da cortina de ferro.
Na cultura, como em muitas outras áreas da sociedade, os agentes culturais têm tido criatividade quanto basta, a avaliar pela intensa e excelente atividade no âmbito cultural que tem acontecido por estas ilhas todas, o que é um bem imorredouro que muito carateriza a cultura açoriana. São muitos os exemplos da qualidade da produção do sector cultural, em que os promotores independentes levam a cabo nas nossas comunidades, sem necessidade da asfixiante e descabida tutela governamental. Não pode uma ideologia ir contra a corrente e impor um modelo de produção cultural, pois é precisamente aquilo que que a cultura não deve ser. Importa, isso sim, dotar os agentes culturais das ferramentas indispensáveis para continuarem a desenvolver com grande criatividade e inovação nas mais variadas áreas culturais os bens culturais que o público avidamente absorve.
Com os apoios oficiais adequados os agentes culturais têm capacidade e engenho para continuarem a fazer dos Açores uma Região de referência no contexto nacional. À Região não deve competir substituir a iniciativa privada, mas acima de tudo apoiá-la.

 

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Categorias: Opinião

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