Professor David Horta Lopes diz que é preciso redobrado cuidado

Pragas podem chegar aos Açores “com alguma facilidade” devido ao movimento turístico com Cabo Verde

Em que consiste o projeto Cuarentagri?
Com a execução deste projeto Cuarentagri pretende-se realizar um reconhecimento das pragas que podem afectar as distintas regiões que formam as zonas de estudo (Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e Senegal), através das importações de vegetais precedentes de países terceiros ou pelas novas comunicações aéreas e marítimas existentes entre as distintas regiões, cada vez mais frequentes devido ao aumento turístico nestas zonas. Em suma, o objetivo principal deste projeto é evitar / reduzir o estabelecimento de novos organismos nocivos nas diferentes zonas em estudo, promovendo uma melhor formação dos técnicos competentes na matéria e também a informação ao sector e cidadãos em geral. Portanto, pretende-se, por um lado, conhecer que organismos nocivos têm maior probabilidade de virem a ser introduzidos na Região e dar formação aos técnicos que lidam com estes problemas em análise de risco, de modo a, se necessário, caminhar-se no sentido da elaboração de Planos de Contingência em relação a esses organismos nocivos. Por outro lado, como se conhecem as principais pragas das nossas culturas, quer-se estabelecer, em campos dessas culturas, dispositivos de monitorização ou armadilhas que permitam o acompanhamento da sua evolução. Isso permitirá fazer a previsão do seu aparecimento em alguns casos e criar um sistema de avisos ou alerta para essas pragas. O projeto vai ser desenvolvido na Terceira e em S. Miguel.

Para além de Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, também é incluído o Senegal no projeto. Que mais-valias traz cada parceiro?
O projeto nos Açores, para além do parceiro Universidade dos Açores, tem como entidades parceiras a secretaria regional de Agricultura e Florestas e a FRUTER. Em particular, os serviços de desenvolvimento agrário e a direcção de serviços envolvidos têm já muito conhecimento acumulado, que se pretende optimizar através da rede de alerta, por exemplo, e com a criação de folhas de divulgação para os produtores e população em geral para sensibilizar para os perigos que incorrem no transporte de hospedeiros das pragas. No caso das Canárias, como já têm um excelente serviço de avisos e de extensão aos agricultores, pretende-se com o apoio deles criar o nosso, com uma interface na Internet onde se pretendem colocar todos os dados e as evoluções desse organismo para quem a queira consultar. No caso da Madeira, como está um pouco mais atrasada nesta matéria, evoluirá connosco no âmbito do projeto, bem como Cabo Verde e Senegal.

Uma das metas é a criação de uma rede de alertas face às pragas das culturas. Como será colocada no terreno?
De facto, um dos objectivos é criar um embrião de um sistema de avisos ou alerta, melhorando o existente, para as pragas que afectam as nossas culturas, que emitirá avisos do seu aparecimento e dos seus níveis populacionais aos produtores, melhorando a tomada de decisão deste intervir através de métodos que não os químicos, promovendo a sustentabilidade da sua produção e diminuindo o impacto ambiental das suas práticas. É um objectivo colocar no campo, em colaboração com as entidades colaboradoras, um conjunto de armadilhas que permitam a leitura e quantificar a evolução as densidades populacionais das diferentes praga. Queremos aproveitar esses dados e, com a modelação, avançar na emissão dos avisos agrícolas para essas diferentes pragas.

Que importância tem a criação dessa rede à dimensão da Macaronésia?
É extremamente importante porque, embora Canárias e Cabo Verde e Senegal tenham as suas particularidades próprias em termos de legislação fitossanitária e os Açores e a Madeira adoptem a da União Europeia, à qual pertencemos, a criação dessas redes é importante para a troca de experiência e informações que possam vir a surgir nas diferentes regiões parceiras do projeto uma vez que algumas pragas importantes podem vir de alguns dos países parceiros, por exemplo de Cabo Verde.

Quão vulneráveis estamos ao surgimento de novas pragas?
Com alguma facilidade pelo facto de termos voos directos da SATA para esse país (Cabo Verde), o que nos impõe um redobrado cuidado e atenção à circulação de passageiros e mercadorias oriundas deste país para a Região. No caso do Senegal, essa hipótese é mais remota, mas o mesmo problema com Cabo Verde também se coloca para as Canárias, pela mesma razão dos voos directos. Isto porque grande parte das introduções destes organismos nocivos em países onde estes não existem deve-se ao transporte aéreo e à ação dos respetivos passageiros, ao trazerem frutos ou outros hospedeiros infestados na sua bagagem. Também podem haver mercadorias afectadas. Isto acontece na maioria dos aeroportos da Europa e agora os cuidados são redobrados, porque desde Dezembro começou a ser implementada uma nova directiva que tem no seu anexo as pragas prioritárias e algumas são oriundas desses países.

CA/DI

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Autor: CA

Categorias: Regional

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