Músico Amadeu Resendes destaca Teatro Micaelense como o melhor a nível nacional

“Para se ter uma actividade profissional 100% ligada à música ou se trabalha nos conservatórios ou escolas ou se integra a Banda da Zona Militar dos Açores”

Correio dos Açores: Porque essa vocação para a música e não para outro tipo de profissão?
Amadeu Resendes: Para mim, a música sempre foi algo muito presente, muito natural, fruto de uma grande proximidade que tinha ao meio da rádio, por intermédio dos meus pais. Nem sempre quis ser músico, até porque a aprendizagem musical apareceu bastante tarde para mim. E mesmo depois de entrar para o Conservatório Regional de Ponta Delgada, só alguns anos mais tarde viria a decidir e aperceber-me de que era aquilo que gostava de fazer para o resto da minha vida. Até lá, queria estudar engenharia aeroespacial – que contraste! Ser-se músico traz muita solidão nas horas de estudo individual, mas a recompensa é uma libertação da alma através da expressão musical. Por muito boémio e idílico que isto possa parecer, é, para mim, a realidade. No entanto, iluda-se quem pensa que é um estilo de vida boémio e idílico. Tem de haver muito sacrifício pessoal e é impreterível saber-se trabalhar em equipa. No fim – entenda-se, nos concertos – o que conta não é só o momento vivido, como também o caminho percorrido. Alguns concertos são inconsequentes, infelizmente, mas outros são muito gratificantes. E é por isso que decidi ser músico!

Enquanto homem da música, qual o instrumento de eleição? 
A viola d’arco, devido ao seu timbre, a par com o piano, por ser um instrumento tão completo. Para mim não é possível ter apenas um instrumento de eleição, simplesmente porque nenhum instrumento consegue ser perfeito ao ponto de conseguir produzir toda a gama de sons que eu gostaria de ter. Aliás, de certo modo esse “instrumento” até existe: é a orquestra. No entanto, o instrumento é apenas um meio, cabe ao músico transcender o instrumento.

Qual foi o primeiro instrumento musical?
O clarinete, embora apenas tenha estudado durante um ano. Mais tarde mudei para o violino, mas rapidamente me convenceram a optar pela viola d’arco. Curiosamente, a viola d’arco e o clarinete são como irmãos entre naipes da orquestra. O registo e o timbre fundem-se muito bem, não sendo por acaso que diversos compositores ao longo dos anos escreveram obras ou partes de obras para estes dois instrumentos em conjunto.

O currículo regista a passagem por várias orquestras. Qual a mais marcante? 
Não é fácil responder a esta questão. Não por não querer tomar algum partido, mas porque estas orquestras apareceram em diferentes alturas daquilo que tenho vivido até agora. A Orquestra Metropolitana de Lisboa marcou-me muito porque foi a primeira orquestra profissional com quem trabalhei e com quem eu “convivi” durante todo o meu percurso na Escola Profissional Metropolitana e na Academia Nacional Superior de Orquestra. Por outro lado, não posso descurar as vezes que toquei com a Orquestra Gulbenkian, porque desde que comecei a estudar música também foi uma grande referencia e tocar com eles era um objetivo que tinha muita vontade de alcançar. No entanto, se eu tivesse mesmo de escolher uma orquestra que realmente me tenha marcado, seria a Sinfonietta de Ponta Delgada. Sim, é um bocado tendencioso, mas efectivamente é a orquestra com quem mais tenho crescido e que mais me tem marcado. Desde a fundação que tenho acompanhado e contribuído para o seu desenvolvimento, até que a certo ponto acolheram-me e fizeram-me “parte da família”. Tem-me dado (mais) um propósito e vontade de trabalhar em São Miguel.

Também já trabalhou com grandes nomes do panorama musical internacional. Quem mais destaca e porquê?
Também não é de todo fácil destacar alguém, pois todas aquelas personalidades contribuíram para o meu crescimento e maturação musical de maneiras diferentes. No entanto, posso dizer que das pessoas com quem mais gostei de trabalhar no campo da viola d’arco foram a violetista russa Natasha Tchitch e a violetista alemã Danusha Waskiewicz. Ambas me ensinaram a procura do som mais natural que eu consigo transmitir através da viola, e, consequentemente, a maneira mais natural de conceber a música. O que mais gostei foi precisamente a procura, nada me foi imposto – obrigaram-me a pensar e a procurar por mim mesmo, “limitando-se” a orientar o caminho certo para mim. Curiosamente, tive contacto com estas duas personalidades bastante cedo, antes de entrar na licenciatura. Mais tarde, o professor e violetista Paul Wakabayashi, com quem trabalhei durante três anos na Academia Nacional Superior de Orquestra e que também não posso deixar de mencionar, viria a trabalhar comigo da mesma maneira. No entanto, muito mais aprofundadamente. Afinal de contas, foram três anos de licenciatura com ele.
Por outro lado, para mim é também obrigatório destacar os meus dois professores de direcção de orquestra – Jean-Sébastien Béreau, com quem trabalho actualmente, e Jean-MarcBurfin. Além da técnica própria da direçcão de orquestra, dos dois apreendi o rigor necessário aquando do estudo de uma partitura. Na verdade, embora trabalhemos com partituras gerais – ou seja, partituras que contêm as linhas de todos os instrumentos da orquestra – passei a aplicar o mesmo às partituras de viola. Mais ainda, ensinaram-me a ter a mais humilde e honesta postura perante a música. Por fim, e por se tratarem de pessoas com uma vivência invejável e que conviveram com algumas das mais brilhantes mentes do século XX, como Leonard Bernstein e Pierre Boulez, é uma honra “beber” de todas as experiencias e histórias que comigo (e com outros) partilham a cada vez que nos encontramos.

Qual o palco nacional que mais enche a alma?
Dos palcos que conheço, teria de dizer o Teatro Micaelense. Para além de ser um espaço com mais do que excelentes condições acústicas, tanto na clareza de quem escuta como na confortabilidade de quem toca, tem toda uma aura histórica e social que não é fácil encontrar noutro teatro em Portugal. Mais ainda, tocar em casa ter e amigos de longa data e família na plateia sabe sempre bem. Para mim, é como quando a Selecção Portuguesa de Futebol joga em casa – não há sentimento que se compare.

Que tipo de música mais o identifica?
Tendencialmente será o clássico, tendo em conta que a minha formação e o meu trabalho centram-se essencialmente neste género. No entanto, gosto imenso de jazz, bossa-nova e rock. Mais recentemente tenho vindo a ouvir mais indiepop. Nas minhas playlists encontra-se de tudo um pouco – sendo Coldplay a minha banda preferida da actualidade, é um nome recorrente, mas também figura Billie Eillish, David Bowie, António Zambujo, Tiago Bettencourt, The Smiths... Enfim, toda uma panóplia de géneros e autores. Na verdade, eu gosto de apreciar música que seja bem feita, bem pensada e que transmita algo com que me identifique, independentemente do género.

Quais as referências musicais?
Sem sombra de dúvida, o maestro e compositor Leonard Bernstein e os PinkFloyd. No século XX, estes dois nomes (um individual e outro colectivo) moldaram a música como a conhecemos. Muitos outros também o fizeram, mas estes são os que me ressoam mais proximamente. Na verdade, creio que a sua influência foi tão abrangente e impactante que ultrapassou não só as barreiras de diferentes géneros musicais, como também de várias disciplinas artísticas e sociais.

Tem trabalhado na gravação de bandas sonoras para filmes e documentários e de trabalhos discográficos. Que projectos mais emblemáticos em que participou?
Das colaborações do género que tenho feito, um dos projectos em que mais gostei de participar foi na banda sonora do documentário “Romeiros do Arcanjo – Heranças de Fé”, realizado pelo meu tio, Fernando Resendes. Este documentário, que viria a ganhar o Prémio Ayres d’Aguiar em 2019, faz um relato das romarias quaresmais em São Miguel, acompanhando, durante sete semanas, cinquenta e quatro ranchos de romeiros por diversos locais na ilha. Quando gravámos, não tinha bem noção de como iria soar no final, nem como se iria enquadrar com a imagem. No entanto, a primeira vez que o vi fiquei bastante surpreendido e comovido, admito. Tanto o meu pai como os meus tios, seus irmãos, são também romeiros. Eu não conheço a realidade das romarias por dentro, apenas a observação externa, no entanto a sensibilidade com que aquele documentário foi concebido despoletou em mim um enorme orgulho, não só por ter sido feito por pessoas da minha família, que eu respeito e admiro profundamente, mas também por eu próprio ter conseguido contribuir o resultado final.
Também algumas colaborações que fiz em álbuns do Zeca Medeiros foram muito importantes para mim. Cresci próximo do próprio, fosse nos cenários dos seus filmes e séries ou nos estúdios em que gravava os seus trabalhos. Quando surgiu a oportunidade de também participar, não pude recusar.

Fale-nos do trabalho desenvolvido pela Orquestra Quadrivium.
A Orquestra Quadrivium foi, juntamente com o Coro Quadrivium, a génese da fundação da Quadrivium – Associação Artística. Talvez por essa razão tenha tomado o nome da sua associação-mãe. É uma orquestra de jovens que funciona por estágios – ou seja, não tem uma actividade regular – e a sua primeira apresentação foi no Teatro Micaelense, em 2009. A sua missão é tanto pedagógica como artística, na medida em que valorizamos essencialmente o processo de aprendizagem, sem descurar, obviamente, o resultado apresentado.  Inicialmente contava-se maioritariamente com a participação de alguns alunos do Conservatório Regional de Ponta Delgada (embora a orquestra não tenha alguma ligação a esta instituição) e jovens músicos que estivessem a seguir os seus estudos fora da ilha, como era o meu caso. No entanto, desde as últimas edições que alargámos o âmbito dos estágios aos jovens músicos de várias bandas filarmónicas da ilha de São Miguel. Também desde a sua fundação que a orientação destes estágios esteve a cargo do maestro Amâncio Cabral. A partir de 2017 a tarefa foi incumbida a mim, tendo aceite com o maior dos entusiasmos. Além disso, também na última edição optámos por aumentar a variedade de géneros musicais que abordamos nos estágios. Por exemplo, tendo acontecido o último estágio no Natal, inserimos no programa músicas comummente associadas à quadra, de géneros tão diferentes como o clássico, o tradicional, o jazz e o pop. Desta forma, cremos que o programa se torna mais diversificado e apelativo a diferentes jovens músicos e ao público, sem nunca perder o objectivo pedagógico, que é melhorar a capacidade de tocar em orquestra.

A Sinfonietta de Ponta Delgada tem sido um projecto muito aplaudido. Como surgiu?
A Sinfonietta de Ponta Delgada é um projecto que surgiu da visão do maestro Amâncio Cabral e da violoncelista Teresa Carvalho. Ocupa o lugar de projeto orquestral profissional da Quadrivium. Esta orquestra surgiu em resposta à necessidade de se criar um agrupamento sinfónico constituído por músicos profissionais, servindo, ao mesmo tempo, de meio formativo para os jovens músicos que a integram. A sua estreia deu-se em 2011, também no Teatro Micaelense, e eu estava a tocar. Interpretou-se a Sétima Sinfonia de Beethoven e o Quarto Concerto para Violino de Mozart com o violinista Daniel Garlitsky, sob a direcção musical de César Viana. Desde então, a sua actividade tem vindo a intensificar-se, especialmente nos últimos 3 anos, a partir do momento que a Quadrivium passou a contar com o apoio institucional da Direcção-Geral das Artes, da Direcção Regional da Cultura dos Açores e da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Eu pertenço ao tutti da orquestra, além de que também já tive o prazer de tocar a solo com a Sinfonietta, em 2016, e de exercer a função de chefe-de-naipe das violas d’arco por algumas vezes. Além da atividade musical propriamente dita, desde 2017 que faço parte da equipa de produção da Quadrivium, tendo a meu cargo toda a divulgação dos eventos, o que engloba, naturalmente, a Sinfonietta e os demais agrupamentos tutelados pela associação. Para mim, e creio que para a maioria dos meus colegas, tem sido uma verdadeira aprendizagem, cheia de desafios, estes acompanhados por vitórias e algumas derrotas - confesso. Por vezes não é fácil gerir os esforços entre os diferentes trabalhos e a vida pessoal. Gerir pessoas, egos e opiniões também não é nada fácil. Estamos nisto porque realmente gostamos do que fazemos e lidar com sentimentos e opiniões tão fortes requer tanto tato como humildade e compreensão mútua. Pessoalmente, e de vários pontos de vista, sinto cada concerto ou evento como uma nova descoberta, tendo a vantagem de começar essa descoberta com a bagagem que trago das anteriores. Sinto também que temos vindo a construir este caminho lentamente, mas com perseverança. De outra maneira não faz sentido, senão é só mais um projeto que aparece lá de vez em quando. Viemos para ficar - para o nosso público e para a nossa cultura.

Porque enveredaste pelo ensino da viola d’arco, sendo um instrumento raro?
A decisão não teve nada a ver com a raridade do instrumento. Aliás, a viola d’arco já não é um instrumento raro, mas sim pouco procurado. E mesmo assim isto verifica-se mais nos Açores do que propriamente noutros locais. O número de alunos que procuram estudar este instrumento é cada vez maior, tendo sido verificado um crescente número nas classes de viola d’arco em várias escolas de música e conservatórios. A verdade é que temos cada vez mais jovens portugueses a destacarem-se nacional e internacionalmente no panorama da viola d’arco, portanto temos vindo a assistir a uma constante mudança de paradigma.
Devo admitir que até começar a dar aulas foram muito poucas as vezes que pensei em leccionar. No entanto surgiu a oportunidade e decidi experimentar. É um desafio muitíssimo diferente de ser-se músico. No entanto, acho que é nosso dever, enquanto professores e músicos, transmitir não só a técnica do instrumento como também o gosto pela música e por fazer música. Gostar de ouvir música e gostar de fazer música são coisas muito diferentes. Como disse antes, fazer música, ou ser-se músico, requer muita dedicação, muito trabalho e muito sacrifício. Mas é precisamente no resultado final que reside a essência. E é isso que, na minha opinião, devemos primeiramente transmitir às crianças. Obviamente que não vamos dizer-lhes isto, simplesmente não irão compreender, mas sim orientar e mostrar como lá chegar, para que possam sentir por elas mesmas. E eu acho que é isto que as prende.
Não consigo não me ligar afectivamente ao processo de aprendizagem de um aluno. A meu ver, a abordagem ao ensino de um instrumento musical não pode, nem deve ser uma fórmula padronizada para todos alunos. Simplesmente não resulta, seja pela sua constituição física, desenvoltura motora, inteligência emocional ou qualquer outro factor – são todos diferentes e reagem de diversas maneiras. Mais ainda, sendo nas aulas o contacto maioritariamente individual, acabamos por nos envolver individualmente nesse processo.
Todas estas observações baseiam-se na experiência que tenho tido nos últimos 6 anos, desde que comecei a dar aulas. É claro que aguardo muito humildemente a altura em que todas estas ideias se irão, ou não, transformar, pois vejo o ensino também como um processo de aprendizagem por si só. Mas ensinar música tem sido uma das minhas maiores alegrias e, permitam-me, conquistas. Não só pelas lições diárias, como também pelo sentimento de que estou a contribuir para a educação e crescimento de uma criança. Mais ainda, entre 2014 e 2019 tive o privilégio de trabalhar no Ensino Integrado de Música da Casa Pia de Lisboa e no Projeto Orquestra Geração, ambos projectos pedagógicos de intervenção social através do ensino da música, onde me vi deparado com realidades muito diferentes daquelas a que estava habituado. Isto obrigou-me a adaptar a minha maneira de estar e de pensar, fazendo com que crescesse imenso como pessoa e professor. Desde 2018 leciono na Escola de Música do Colégio Moderno e também tem sido uma grande descoberta muito honrosa para mim. Desde o início que a escola e a sua direção têm depositado uma grande confiança no meu trabalho e sinto que este tem vindo a produzir frutos. Portanto, quando comecei no ensino da viola d’arco, não sabia a razão pela qual tinha enveredado por aí, mas agora sei.

É fácil viver da música nos Açores?
Nos Açores, à semelhança do que passa noutros sítios, ainda não. Tanto quanto sei, para se ter uma atividade profissional 100% ligada à música, ou bem se trabalha nos conservatórios ou escolas, ou bem se integra a Banda da Zona Militar dos Açores. Fora disso creio não ser possível. Por outro lado, é preciso salientar que na última década o panorama tem vindo a mudar bastante. Temos assistido a uma crescente e mais diversa oferta cultural, fruto de um maior investimento por parte das entidades públicas - nacionais, regionais e locais – bem como de entidades privadas, o que também tem servido de incentivo à profissionalização. Ainda assim, ainda estamos longe de um músico conseguir viver exclusivamente da atividade artística, o que, tanto quanto sei, já não se verifica tanto em outras áreas, como a dança (felizmente). Continuamos a ter um investimento público e privado - este último mais raro – sustentado mais direccionado para espaços, como salas de espectáculos e museus, e para a sua programação, sem que este chegue necessariamente aos artistas regionais. Com isto não quero dizer que os apoios não devam chegar a essas entidades, mas, na minha opinião, o apoio à criação não deve ser inserido no mesmo “bolo”. Por outro lado, o paradigma de apoio directo às artes na nossa Região está essencialmente pensado para eventos isolados e não para temporadas. É como construir um “puzzle” sem nada que ligue as diferentes peças – portanto, é impraticável, impossibilitando também o planeamento a médio e longo prazo e, consequentemente, a sustentabilidade do emprego nesta área.
                    

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