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João Pinheiro, 32 anos, casado e com um filho pequeno. Sou empreendedor e natural da Ribeira Grande. Apaixonado pela família e a sua terra.
Fale-nos do seu percurso de vida.
Sou licenciado em Economia pelo ISCTE e com um Mestrado em Ciências Económicas e Empresariais pela UAç.
Iniciei o meu percurso profissional, com uma muito pequena experiência, como bancário na sede da CGD e depois como técnico administrativo na área financeira da MUSAMI. Logo percebi que precisava de liberdade e espaço e comecei a aventura d’As Casas da Ribeira Grande. Em 2014 o alojamento era uma enorme falha de mercado, tinha a minha esposa que também estava na área de Arquitetura e a minha família tinha imóveis a precisar de atenção. Foi a juntar as várias áreas e oportunidades que criamos a nossa rede de alojamento local na Ribeira Grande.
Como se define hoje em termos de acção? Que actividades desenvolve?
Gosto de entrar em acção, e de dar o exemplo. Sou autodidata, e não aceito um “impossível”. Muitas vezes sou chamado de “idiota” por ter demasiadas ideias/soluções.
Quais as suas responsabilidades actuais?
A principal responsabilidade actual é a gestão financeira da empresa, a gestão de reservas, o marketing e dinamização do espaço (eventos).
Como descreve a família de hoje?
A família é a base de tudo na minha vida. Desde pequeno que apreendi que era a coisa mais importante e a base de tudo. E sou um sortudo por trabalhar e viver perto da minha família e de ter uma esposa que partilha o mesmo ideal de vida.
Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Se tivermos como base que a família tradicional é uma família numerosa em que o pai trabalha e a mãe faz as tarefas domésticas, os impactos mais visíveis são a dimensão do agregado familiar, que tende a diminuir cada vez mais. Na família actual a mulher tem um papel cada vez mais activo na sociedade e o homem nas tarefas domésticas. Assim somos cada vez mais uma equipa multidisciplinar e com perspectivas diferentes das tradicionais, que se adequam melhor à actualidade e à nossa realidade.
Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir na Região Autónoma?
Como Região Autónoma e pequena, que somos, deveríamos ser cada vez mais unidos, sincronizados e evoluídos. Infelizmente, não vemos esses sinais, muito pelo contrário. Digo isto no sentido em que cada ilha, às vezes, parece voltada apenas para si, e mesmo cada cidade dentro delas. Muitas vezes não pensamos como grupo e como nos podíamos complementar funcionando em diferentes vertentes e em entreajuda.
Mas acho que, a nível geral, a sociedade está a crescer a par e passo de forma semelhante à restante Europa. A nível de evolução psicológica e posicionamento perante questões pertinentes que se levantam no dia-a- dia mundial, aqui sente-se um acompanhamento geral. O isolamento já não é tanto uma questão que se sente como outrora, agora com a tecnologia e a internet.
Que importância têm os amigos na sua vida?
Já não temos tanto tempo como quanto éramos mais novos, mas ainda conseguimos juntar-nos de vez em quanto, para repor as conversas sobre a vida que continua a voar e a lembrar os tempos de pequenos. São poucos, mas bons.
Que actividades desenvolve hoje no seu dia-a-dia?
Desde que sou trabalhador por conta própria e pai, não me resta muito tempo extra. No entanto, gosto muito de cozinhar e, recentemente, exploro a vertente de edição de vídeo.
Que sonhos alimentou em criança?
Em criança sempre fui explorador e curioso. Sempre fui aventureiro e sonhador. Como autodidata, construí a minha própria casa na árvore, montei, desmontei e consertei muitos carros eléctricos e telemóveis, entre outras inúmeras coisas. Sempre gostei de experimentar com as minhas próprias mãos. Pratiquei imensos desportos. Sempre fui muito interessado pelas mais variadas vertentes da vida.
Hoje alimento o sonho de ser empreendedor como o meu pai era e ainda o é. E ainda tenho a satisfação de o sermos juntos e com a restante família. Sou um sortudo nesta matéria.
O que mais a incomoda nos outros? E o que mais admira?
Falta de palavra e ingratidão.
Responsabilidade e proatividade.
Que características admira no sexo oposto?
Bem, por alguma razão somos de cromossomas diferentes e os opostos atraem-se. A mulher traz a harmonia e cor à vida. Para além da beleza natural, a inteligência e a certeza. Somos seres diferentes que nos complementamos na perfeição.
Gosta de ler? Qual o seu livro de eleição?
Tenho que admitir que não sou um grande praticante de literatura convencional. Desde novo que sou apaixonado pela tecnologia, e como a evolução nestes últimos 20 anos foram tão rápidos, procurei sempre outras formas de aprender mais e mais rápido, de conhecer e de experimentar. Leio principalmente a título de aprendizagem e informativo.
Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
As redes sociais são uma ferramenta que há que saber gerir e interpretar. Podem ajudar-nos a obter informações mais rápidas e selectivas, pois existem sistemas de filtragem destas mesmas informações, de acordo com os nossos “Gostos” e as seleções que vamos escolhendo ver. Isso pode servir-nos pessoal e profissionalmente também, mas há que saber que é uma ferramenta manipulada por algoritmos, publicidades, etc. Aparece principalmente o que queremos ou nos convém ver. Há que ser aberto e ter este discernimento de manter muitas vezes uma posição mais imparcial perante as coisas e buscar sempre outras referências e informações.
Conseguia viver sem telemóvel e internet?
Embora tenha 32 anos, apanhei parte da minha vida sem telemóvel e internet e a parte de toda a evolução destas. Por isso, sim, conseguia viver sem elas, mas não era uma opção que tomava se tivesse que a fazer. Para além de que na área em que trabalho 99% das reservas e da manifestação da empresa dependem destes meios. A nível pessoal, temos família espalhada pelo mundo e com estas comunicações sentimo-nos mais próximos.
Costuma ler jornais?
Sim faço questão de ler as notícias regionais e nacionais.
Gosta de viajar? Que viagem mais gostou?
Quem não gosta de viajar? Ao princípio até podemos estar um bocado acomodados ao nosso pedaço de céu que é os Açores, mas quando saímos abrimos os nossos horizontes e regressamos com mais energia e vontade de conhecer mais o mundo.
Gostava de viajar mais do que realmente o faço, e agora ainda menos, mas gostei bastante da cidade de Barcelona pela sua arquitetura e urbanismo e de Estocolmo pelo casamento entre cidade e campo e pela serenidade das pessoas.
Como costuma passar o Carnaval?
Costumamos juntar a família e fazer as tradicionais malassadas.
Quando eramos pequenos fazíamos as tradicionais limas de parafina e juntávamos os vizinhos em batalhas.
Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Sou bastante fã de comida italiana e do nosso tradicional Bife Regional.
Que notícia gostaria de encontrar no jornal?
São imensas as notícias que gostava de ver no jornal amanhã, principalmente para um bem geral humano. Era bom que aqueles que vivem inconsoláveis pelas mais diferentes razões, seja por doenças, fome, guerra, diferenças sociais, etc., pudessem encontrar algum conforto nesta vida que, por vezes, passa rápido, mas que consegue ser interminável para tantos outros que sofrem.
Temos todos os nossos problemas, mas quando comparados, por vezes nem são tão grandes quanto os julgamos.
Como vê o fenómeno da pobreza?
Uma aflição. Sendo uma Região pequena, deveria ser fácil encontrar uma solução para esta discrepância na nossa sociedade. Há pobreza real, e há pobreza de espírito. Também há mecanismos de ajuda mas que precisam de ser revistos, já que, muitas vezes, não traz uma melhoria na vida da população, mas sim um “tapar de olhos” e estagnamento na posição em que se encontram, não fazendo um esforço para aprender, melhorar e ultrapassá-la. Sente-se que está a ser dado o peixe e não a ensinar-se a pescar, e que por isso dificilmente será possível alterar o sistema de funcionamento atual. E há muitos que muitas vezes tentam, esforçam-se e querem lutar para uma vida melhor, mas que esta não lhes é facilitada. Mas este é um assunto que podíamos estar aqui a falar todo o dia, não é tão leviano assim. E tantos outros que podíamos aqui referenciar que necessitam uma revisão. Mas pronto, num tom mais positivo, posso dizer que se sente que devagarinho estamos a “sair da crise” e novas oportunidades estão a surgir, mais trabalho e que o ciclo económico regional está a começar a rolar novamente.
Qual a máxima que o/a inspira?
Parar é morrer.
Em que época histórica gostaria de viver?
Talvez a época Medieval. Sempre fui um apaixonado por cidades, castelos e armas medievais.
O que pensa da política e dos políticos?
Os políticos não têm uma tarefa fácil. Há inúmeras questões que precisariam de uma revisão grave por parte de uma entidade. Mas, depois, também há inúmeras perspetivas e opiniões sobre estas. É muito difícil contentar toda a gente e muito difícil chegarem a todos os pontos que precisam de atenção.
A degradação da política vê-se é quando se demitem da sua função e se ocupam a discutir, a guerrear e a perder tempo em coisas que só trarão notícias para os média e que, na realidade, não resolvem os problemas de ninguém.
Qualquer gestor, administrador ou presidente deveria ter como objetivo o cumprimento da sua missão, agarrá-la e desempenhá-la da melhor forma. A política cai no descrédito quando esta missão é abandonada.
Isso não é um recado para ninguém, apenas um ponto de vista. Precisamos de líderes e de alguém que nos represente e defenda, a nós e aos nossos interesses.
Se desempenhasse um cargo governativo nos Açores descreva medidas que tomaria?
Embora o turismo esteja em franca evolução, é importante consolidar o nosso destino. Medidas como o reforço nas áreas de segurança e dos transportes são fundamentais e imprescindíveis. Às vezes, as ‘marés boas’ fazem-nos relaxar demais, mas basta um pequeno deslize nestas áreas e todo o trabalho desenvolvido até então, como todo o investimento privado também, pode ficar em causa. Ao nível da segurança, são exemplos bem presentes o Coronavírus na Ásia que contaminou o turismo e o investimento global; o terrorismo na Tunísia que levou a um abandono do turismo no Norte de África; o problema da toxicodependência que leva ao comprometimento da segurança geral da população. Ao nível dos transportes, a saída da Easyjet e da Delta Airlines do mercado regional que nos leva novamente a considerar a hipótese de recaída e volta à estaca zero, de abandono da liberalização do espaço aéreo. A taxa turística pode comprometer, neste momento, o nosso destino e pode levar ao abandono de investidores por terem de juntar mais investimento à burocracia existente. Há outras soluções para protecção do que é nosso.
Há que ter uma política forte e concisa, sem facilitismos pois, com a globalização de hoje, basta um pequeno deslize para manchar um destino.
É gestor de As Casas da Ribeira Grande. Fale-nos deste projecto.
As Casas da Ribeira Grande é uma rede de Alojamento Local que se iniciou em 2014, com a moradia A Casa do Chafariz. Foi uma ideia que surgiu em família e que fez de um fim de contrato de arrendamento uma oportunidade de experimentar o arrendamento de curta duração. Na altura, não havia praticamente alojamento na Ribeira Grande, nem a liberalização do espaço aéreo. Era mesmo um teste numa área que não dominávamos. O sucesso foi imediato, ao qual juntando a oportunidade de aquisição, em 2015, de uma moradia de maior dimensão e de traça micaelense, avançamos com mais certeza na área. Fizemos a sua recuperação, mantendo as principais características que a definiam, pois é uma casa de inicio de século, e transformamos numa guesthouse com 5 quartos (A Casa da Cascata). Já com a liberalização do espaço aéreo e com os imensos pedidos de alojamento, continuamos com a recuperação de património familiar, transformando em mais alojamento. Em 2019 demos um importante salto abrindo a Volcanic Charming House, um espaço com 8 Suites e um T2 privado. É um espaço versátil com piscina, zona de eventos, que pretende não só apostar no alojamento, mas também na dinamização através de eventos. Todos os investimentos realizados foram feitos com capitais próprios e apoio da banca, e projectados e decorados pela minha esposa Vanessa. Todo este projecto tem um apoio enorme dos meus pais Manuel e Conceição, não só como sócios, mas também como activos em todos os processos. Para além da família, neste momento, já empregamos cerca de 5 colaboradores e nas épocas de altas temos um reforço de mais 3.
Temos perspectivas de crescer e temos já vários projectos a decorrer.
Em seu entender, os projectos de Alojamento Local deviam ser apoiados por fundos regionais e comunitários? Porquê?
Os Alojamentos Locais têm uma importância enorme na nossa Região. Quem nos visita vem pela natureza, desde as paisagens, passando pelo mar e a gastronomia. Nada melhor que visitar e ter uma vivência aproximada de quem habita nela.
Contribui de forma directa, por renovar e recuperar o património imóvel e urbano, por dar emprego e autoemprego. De forma indireta contribui também pela sua envolvência, criando dinamismos, incentivando o comércio local e dando a conhecer novas falhas de mercado.
A característica fundamental do Alojamento Local é a do espaço. É possível criar uma unidade de alojamento em regiões onde era impensável e neste sítio criar toda uma envolvente de criação de riqueza. Uma das razões de existirem fundos de apoio regionais ou comunitários é este mesmo, o de criar zonas de negócio e sustentabilidade onde jamais era possível com fundos próprios. Então, possui todas as razões para que seja apoiado.
Devíamos olhar com mais importância para estes inúmeros investimentos que os privados têm feito pelos Açores fora, apoiando-os e deixar de pensar que projetos megalômanos é que são os necessários à região e os que são apoiados. Também deve-se deixar de pensar que o investimento estrangeiro é melhor e mais importante que o local. É injeção de capital nos Açores, mas sem os locais, onde estaria a Região?
Qual a perspectiva que tem do desenvolvimento turístico nos Açores?
Estamos no início deste desenvolvimento. Temos todas as condições para que este início arranque da melhor forma e que seja próspero. Temos vários exemplos no mundo de como não queremos ser e de como o queremos ser. Só seremos um destino único se aprendermos com os erros dos outros, e temos esta oportunidade nas mãos.
Para a nossa empresa 2019 foi o melhor ano deste então, e a perspetiva é que 2020 seja ainda melhor. Aproveitamos as épocas baixas para definir objetivos e trabalhar nas casas em termos de manutenções e melhoramentos. Queremos ter sempre crescimento a nível estatístico e para que isso seja realidade adaptamo-nos e pomos planos em moção.
Ninguém quer um turismo de massas nos Açores. A questão que se coloca é se já não estaremos a caminhar para esta dimensão turística em São Miguel?
Isso é unânime: ninguém quer ver os Açores como destino de massas, nem os residentes, nem quem nos visita. Estamos a implementar uma política que salvaguarde esta questão? Não!
Muitos dos investidores já perceberam que a essência dos Açores é a própria natureza, investindo em consonância com ela. Mas quando começamos a fazer contas, existe um benefício enorme para o investidor em investir em dimensões elevadas, que podem levar ao turismo de massa. Na Ribeira Grande estão previstos 14 empreendimentos turísticos novos, não serão demasiados? Será mesmo preciso isto na Ribeira Grande? É isso que procura quem nos visita? Ou procuram a dimensão local e aproximada aos habitantes e à natureza que os rodeia?
Os movimentos ecologistas têm-se manifestado contra a concentração de turistas em algumas zonas de São Miguel como a Lagoa do Fogo, a Vista do Rei, a Ferraria (…). Mas, depois, quando o governo apresenta soluções, são estes mesmos movimentos ecologistas que as põem em causa. Como se pode preservar estas zonas sem que haja uma colisão entre turismo e ambiente?
Nunca existirá concordância total numa alteração de uma coisa existente. Em geral isso verifica-se.
Existem sempre perspetivas diferentes, o que é bom! Faz-nos debater, aprender e crescer. Devemos todos fazer um esforço em fazer isso de forma a que não hajam impasses e demoras na resolução das soluções, trabalhando em equipa, baixando as guardas e trabalhando para um objetivo comum que é a preservação da nossa “Casa”. De certeza que a ideia nunca será unânime, mas muitas vezes melhor que uma ou outra, vindas de lados diferentes. Fazer nada também não deverá ser a solução, por isso há que comprometer-nos, ouvir e dar as mãos.
Podemos, por exemplo, fazer uma solução faseada a ver se funciona. Já se fizeram estacionamentos, mas não resolvem todos os problemas, só o de estacionamento. Agora, o de gestão da permanência e de acesso, então poder-se-ia, em época alta, estacionar o carro na base da montanha e apanhar um transporte até ao cume acompanhado por alguém que gira os acessos ao topo e à Lagoa (estes devidamente acompanhados). Em época baixa, poder-se-ia então abrir portas e aceder-se ao topo de carro, permitindo o acesso aos locais. Mas mantendo à mesma a ideia de gestão de acessos à Lagoa, de forma a evitar trilhos secundários, destruição e poluição. Já sabemos que a evolução, com o tempo, não só o turismo, traz a mudança das coisas, e há que estar bem com isso.
A seu tempo podemos ver se é necessário ponderar melhor a instalação de um centro interpretativo no topo da Barrosa, à semelhança da Casa da Montanha na Ilha do Pico, ou do Centro de Visitantes da Gruta das Torres também no Pico, ou mesmo do Parque Arqueológico em Vila Nova de Foz Côa, completamente integrado na Natureza. Tantos outros exemplos podiam ser aqui inumerados para dar a entender que, por vezes, há mesmo que intervir para preservar, se assim for necessário.
Há que promover o equilíbrio entre a natureza, a sociedade e quem nos visita. A Sustentabilidade do destino.
Quer acrescentar algo mais que considere interessante e/ou importante?
O (des)emprego qualificado. Se até há pouco tempo o flagelo do país era o desemprego, e que os inúmeros estudantes saiam das universidades sem quaisqueres perspetivas de se empregarem, hoje começa-se a verificar o contrário. Esta é e era uma questão previsível. Não foram feitos muitos esforços no sentido de manter esta força habilitada no país, e até surgiram convites a sair. Hoje, com a economia a melhorar, estamos agora perante uma crise diferente, a de termos cargos e de não termos nem empregados qualificados, e muitas vezes sem mesmo vestígios de empregados, em termos gerais. Isso está a tornar-se já uma barreira ao crescimento contínuo e ao investimento.