1 de março de 2020

Crónica da Madeira

Quando a violência vitima seres humanos indeferia-nos conduzindo-os a situações extremas

 Sou, por natureza, contra todo o tipo de violência, sobretudo quando essa incide sobre os seres humanos mais frágeis, como as crianças e os idosos, e, ainda, nos animais irracionais que não se podem defender. Não compreendo como um homem selvaticamente espanca uma mulher ou vice-versa. A verdade é que estas cenas são cada vez mais frequentes, inclusivamente com o espancamento até à morte. 
No nosso país, muitas das situações de violência passam-se fora dos noticiários. A barbárie de delinquentes sobre outro ser humano, sobre a mulher e os filhos, é indefensável. 
É inadmissível. Ganha foros de alastramento e, na maioria das vezes, permanece em silêncio. As denúncias não se fazem por medo e, assim, muitas das mulheres vão-se definhando até chegarem ao irremediável. A gravidade é maior quando estas cenas, muitas vezes, passam-se à frente dos filhos.Crianças aterrorizadas e impotentes perante esta terrível e medonha realidade. Crianças submetidas a um calvário e a uma tortura diária. Ganham traumas que se arrastam até à adolescência e, mais tarde, a uma vivência quotidiana. 
Encontrei algumas destas crianças, hoje adultos, já com famílias constituídas que, infelizmente, ainda não conseguiram sarar este tipo de ferida que tanto os atormenta.
Outra questão que me aflige é o abandono dos idosos por parte dos filhos e dos familiares. Por incrível que pareça, vão pôr os pais aos lares. Antes, porém, obrigam-nos a ceder a casa ou alguns bens materiais. 
Esquecem-se, depois, de irem visitá-los. Esquecem-se de levar-lhes afetos, que naquela situação, tanta falta lhes faz. Infelizmente, alguns lares de terceira idade são uma espécie de armazéns para guardar “velhos”. Este é um assunto que dá pouco interesse aos políticos e aos media. 
Na minha opinião, é urgente modificar a vivência dos idosos nesses lares. Não se pode pôr idosos sentados em cadeiras, virados uns para os outros, à espera da morte. 
É necessário criar interesses, sem infantilizá-los ou ridicularizá-los, como, por exemplo, fazer passagens de modelos com fatos de papel e laços na cabeça. É o pior que pode acontecer. Temos que aproveitar as suas capacidades e torná-los ativos. Cuidá-los com carinho e paciência. Eles são seres humanos e não fantoches. 
Infelizmente, não tiveram a oportunidade de possuírem meios para se instalarem num lar comparável a um hotel de luxo. 
Visitei alguns lares lá fora e a filosofia é diferente. 
O pessoal ao serviço destes idosos deve ser criteriosamente escolhido. Isto é: a primeira condição é gostar de gente. Depois, ter amor ao próximo. Não possuir ódios ou raivas, nem frustrações. Ser equilibrado emocionalmente. Não é fulana x precisa de um emprego, poderia ir para o lar y. Tanto mais que é recomendada pelo Sr. Deputado do partido z. 
A diretora do lar deve possuir conhecimentos de psicologia, não só para lidar com os técnicos, mas também para falar aos idosos sempre que necessário; deve ser criativa e, sobretudo, ter um grande entusiasmo pela missão de que foi incumbida. 
Não pode ser a senhora ou senhor tal que dirigiu já a instituição y e dali passou para a instituição x e, portanto, vamos aproveitar e colocá-lo ou colocá-la no lar z. 
Sabido que nessas instituições anteriores, o senhor ou senhora x brilharam pela incompetência (deixem-me passar a expressão popular: não foram grandes espingardas), não podemos acreditar que na próxima farão um bom trabalho. 
Esta é, infelizmente, a realidade que se desenvolve nos contextos das nossas sociedades, onde impera um alheamento por estas questões profundamente humanas; questões sociais que merecem ser tratadas com muita seriedade por pessoas com conhecimentos.
Apesar da lei em vigor relativamente aos animais de companhia favorecê-los, em alguns casos, verifica-se, ainda, muitos maus tratos nos cães e nos gatos. Situações degradantes e degradadas que nos revoltam e me entristecem pela barbária praticada. Cenas que revelam maus instintos de quem as praticam.
Para concluir, tanto nas cenas de violência, como na vivência dos idosos deixados nos lares, tudo quanto os prejudique, temos o dever de denunciar. Não temos que temer as ameaças que nos possam fazer os prevaricadores. O importante é salvar o nosso semelhante, dando-lhe dignidade e segurança; proporcionando-lhe bem-estar. Quem tem amor e razão, não pode recear. É muito melhor ser um denunciante destas situações, do que se esconder no silêncio. Só assim se pode construir o tal mundo melhor de que tanto se fala e se deseja.
 

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Categorias: Opinião

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