3 de março de 2020

Romeiros

A ilha volta a ser palmilhada pelos romeiros, durante cinco semanas, durante todos os dias da Quaresma, voltamos a encontrar nas estradas da ilha de São Miguel grupos de homens caminhando e rezando em voz alta, numa peregrinação, a que dá-mos o nome de Romeiros, saindo das suas paróquias todos os anos por esta altura, para reafirmar a sua fé e em muitos casos para agradecer a Deus as graças recebidas.
Em S. Miguel, este tempo quaresmal assume particularidades ancestrais, mormente com as romarias, que intrinsecamente possuem uma mística difícil de explicar, ao ponto de um romeiro que vai um ano, quer ir sempre mais e mais. Conheço até quem não possa, por circunstâncias várias, integrar o rancho, num determinado ano e fica pesaroso por ficar atrás, mas faz a romaria em espírito, pois sabe em pensamento e em qualquer hora do dia por onde andam os seus “irmãos” e muitas vezes vai ao seu encontro.
Sobre as suas origens, há diversas versões, havendo, no entanto, registo desde a idade média de que todos os anos grupos compostos só por homens, provenientes de muitas freguesias e vilas, palmilham a ilha por atalhos e caminhos secundários menos movimentados, orando e cumprindo promessas, por montes e vales, arrostando vento, frio e copiosas chuvas intempestivas, durante uma longa semana invernosa, mas cheia de calor humano, partilha e grande generosidade e cordialidade. O espírito das romarias soa sempre mais forte e os micaelenses mostram que têm uma alma grande, do tamanho do céu.
Muitos vêm propositadamente do Canadá e dos Estados Unidos, integrando as romarias e carregando consigo apenas um saco com o essencial e vão pernoitando em casas de famílias que os acolhem, ou em salões de igrejas e instituições que se oferecem para receber os peregrinos. A religiosidade do povo açoriano traduz-se também nestas manifestações de fé no cumprimento de promessas.
Na casa em que são acolhidos é hábito os romeiros lavarem os pés doridos- aproximando-se do ritual religioso da Última Ceia de Jesus, sendo servido um jantar, onde todos comem como irmãos. É uma marca da nossa tradição que identifica a nossa maneira de ser e de estar de ilhéus. Por isso, temos que respeitar este tipo de religiosidade popular, que deveria antes ser aproveitada pela hierarquia religiosa para um aprofundamento da fé autêntica, mas não se apropriando dela.          
Já nos acostumamos a vê-los passar com um bordão de madeira na mão e trajam hábitos tradicionais, carregados de simbolismo que muitos não conhecem o seu significado. O xaile representa o manto com que cobriram Jesus; o lenço representa a coroa de espinhos; a saca que transportam às costas representa a cruz e o terço é dedicado à Virgem Maria.
São oito longos dias de caminhada e fé, de companheirismo e oração. Fecha-se o percurso em círculo no sentido dos ponteiros do relógio, como se uma viagem de eterno retorno se tratasse. Há algum tempo que se começa a pensar em elevar as romarias quaresmais de S. Miguel ao estatuto de Património Imaterial da Humanidade, numa classificação por parte da UNESCO. Oxalá que tal se venha a concretizar, pois embora esta manifestação de fé não esteja em perigo de extinção, convém que ela ganhe a notoriedade que faça convergir outros romeiros para vivenciarem uma prática católica, tipicamente medieval.
As Romarias ou como antigamente eram conhecidas as “Visitas às Casas de Nossa Senhora” é uma prática que não se sabe ao certo como começaram, é certo, mas presume-se que tenham como causa as calamidades resultantes do terramoto de 1522 que soterrou Vila Franca do Campo, ou mesmo da peste de 1523/31 que assolou a ilha, mas com segurança ainda nada se sabe como principiaram e se generalizaram ao ponto de toda a ilha aderir a esta manifestação de fé.
Trata-se para uns de um legado cultural, que apenas integram a dimensão religiosa na história da nossa terra. Contudo, para o nosso povo, esta prática não é mais do que uma transmissão de fé dos nossos antepassados, que em momentos de aflição suplicam a intercessão de Nossa Senhora junto do Filho, pedindo a proteção do céu. Que a sua genuinidade não se perca, mesmo com associações e afins.
 

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Categorias: Opinião

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