Grande devoção ao Senhor Santo Cristo dos Terceiros

Na cidade da Ribeira Grande, voltou a cumprir-se a tradição, coma procissão em honra do Senhor Santo Cristo dos Terceiros, que levou, no passado domingo, muitos devotos àquela cidade, para participar naquela que é uma penitente manifestação pública de fé quaresmal, ato religioso considerado património imaterial dos Açores, pela sua grandeza e longevidade, pois desde o século XVII esta festa acontece ininterruptamente, saindo da igreja do antigo convento dos Frades. Esta celebração dos Terceiros resistiu às vicissitudes do tempo e chegou aos dias de hoje, graças à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande que tem preservado este genuíno legado patrimonial. É de recordar que o convento dos Frades, também conhecido por Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe, construído em 1626, encerrou em 1833, devido à extinção das ordens religiosas em Portugal, sendo depois entregue à Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande pela Rainha D. Maria II em 1839 para acolher o hospital da instituição, em substituição do antigo hospital anexo à Igreja da Misericórdia, expressivo exemplar barroco existente no núcleo central da cidade da Ribeira Grande.
Inicialmente, na quarta-feira de Cinzas e atualmente no I Domingo da Quaresma, realizou-se uma solene concelebração litúrgica, desta feita sob a presidência do Cónego Adriano Borges, Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, concelebrada pelo Pe.Vitor Medeiros, Ouvidor da Ribeira Grande e pelo Pe. Roberto Borges Cabral Pároco da Conceição. Foi Mestre-de-cerimónias o Capelão da Misericórdia, Pe. Manuel Galvão. O coro litúrgico foi constituído pelos grupos corais da ouvidoria, sob regência de Gilberto Silva, sendo organista José António Garcia, que solenizou de forma brilhante a eucaristia festiva. Incorporam aquela multisecular procissão vários andores com imagens evocativas da história de São Francisco de Assis e dos santos pertencentes à Ordem Terceira. Por outro lado, voltou a incorporar o extenso cortejo religioso os encapuzados, tal como acontecia até ao século XIX, constituído por peregrinos com a prática de tomar a disciplina, da qual fazia parte o açoitamento e a autoflagelação em público, bem como o uso de crânios humanos, coroas de espinhos e cruzes utilizadas como adereços cénicos durante a procissão e era um costume comum neste tipo de manifestação pública, condizente com o seu caráter de movimento penitente.
Participaram ainda naquela vetusta procissão muitos Romeiros da Ouvidoria da Ribeira Grande, bem como representações bombeiros voluntários, escuteiros, trabalhadores da Misericórdia e estudantes da Universidade dos Açores. Este ano, pela primeira vez, grupos de romeiras da freguesia de Santa Clara, de Ponta Delgada e da Vila de Rabo de Peixe, bem como do Projeto ELOS da freguesia da Ribeira Seca transportaram andores, registando-se extensas alas de muitas promessas que antecederam o andor do Senhor Santo Cristo, numa devoção secular na cidade da Ribeira Grande. A procissão como é tradição saiu da Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe, hoje transformada em Museu Vivo do Franciscanismo, que tem a missão de prosseguir ações de caráter cultural, cultual e educativo, cujo cortejo processional oferece paralelamente ao seu legado religioso um olhar sobre a herança histórica e museológica, material e imaterial, que foi transmitida pelos antepassados e que compete às atuais gerações preservar, valorizar, conservar e divulgar. Recorde-se que a presença de franciscanos nos Açores vem desde os primórdios do povoamento destas ilhas. Entre finais do século XV e meados do XVII, a comunidade franciscana edificou 18 mosteiros em todas as ilhas, excepto no Corvo. A fundação do Convento na Ribeira Grande esteve ligada ao desenvolvimento populacional e urbano da costa norte de S. Miguel. 
Em 1592, Gonçalo Alvares Batateiro e sua mulher, Inês Pires, conseguem licença do bispo de Angra, D. Manuel De Gouveia, para construírem uma ermida sob a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe que depois foi ampliada.
O Museu Vivo do Franciscanismo é gerido pela Câmara Municipal, em obediência a um protocolo temporal assinado com a Mesa Administrativa da Misericórdia local e neste evento anual, no primeiro domingo da quaresma, é de realçar o contributo da Divisão de das Técnicas daquele Museu no apoio à organização das festividades em honra do Senhor Santo Cristo dos Terceiros, bem como do apoio da Paróquia da Conceição, da Matriz e da própria Edilidade Ribeiragrandense.
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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