6 de março de 2020

Chá da Cesta - 19

As experiências no Brasil De onde e quando veio ao certo o chá para o Brasil? I

Como chegou o chá ao Brasil? Terá sido um presente presente do Imperador da China ao Príncipe Regente D. João que fez chegar o chá ao Brasil?1 Vamos tentar ver onde termina o mito e começa a realidade. Após as possíveis experiências de aclimatação realizadas nos séculos dezassete e dezoito, na cidade do Rio de Janeiro (incluindo Baía), então capital do Reino de Portugal e Brasil, ocorre a primeira experiência conhecida bem-sucedida de cultivo e produção de chá. 

Em trabalho publicado em 1973, Carlos Moura queixava-se de muitas lacunas e de que muito havia a investigar sobre a História inicial do chá no Brasil.2  Porém, em obra posterior, publicada em 2012, na posse de nova documentação, muda de opinião.3 Sigamo-lo: dispomos de documentos que atestam a acção, neste campo do chá, de dois Secretários de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro: D. João de Almeida Melo e Castro, Conde de Galveias (30/12/1809 – 18/01/14), e António de Araújo de Azevedo (1814-25/06/1817). Em Macau, por seu turno, teve papel de destaque, o Ouvidor Geral de Macau, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, que foi nomeado depois de 1802.4 Foi ele quem, em carta de 6 de Março de 1809, escreveu ao Príncipe D. João para o Rio de Janeiro, no sentido de, a exemplo do que os ingleses faziam, contratar chineses. A 20 de Março de 1811, Brum da Silveira mandava de Macau para o Brasil plantas de chá e dois chineses. 5 Chamavam-se “Apao e Achune.”6 Foram, tal como Lau-a-Pan e Lau-a-Teng iriam ser mais tarde na década de setenta, em diferentes condições, contratados individualmente por “(…) um vencimento mensal de quatro mil e oito centos réis.”7 Foilhes adiantado cinco meses de salário. No ajuste, também se estipula que iam de Macau até ao Brasil, por comodidade, como grumetes de bordo. Deu-se-lhes também 40 patacas para deixarem às suas famílias, que ficariam em Macau ou perto de Macau. Mal chegassem, deveriam começar “a cultivar o chá.” Esse ajuste foi assinado em Macau no dia 21 de Março de 1811.8 
Os dois chineses viajaram no navio Ulisses, pagando a viagem com o seu trabalho de grumete, cuidando bem das plantas de chá, pois estavam instruídos para “(…) que as fossem plantar nesse território [Brasil], onde se deseja verificar se poderão naturalizar-se.”9 No seu ofício de 1811, o Ouvidor de Macau, Brum da Silveira, diz: “levaram 4 caixotes “das mesmas plantas que por agora pude encontrar, fazendo embarcar dois Chinas que as devem cuidar durante a viagem e aí chegados devem cultivá-las.”10 O navio Ulisses, tocou a cidade da Baía antes de chegar ao Rio de Janeiro, pelo que, enquanto esperavam a altura certa de seguir viagem até ao seu destino, os dois chineses “semearam plantas de chá na Baía e obtiveram êxito.” O Conde de Arcos escreveu ao Ouvidor de Macau, na Monção de 1811, “informando que as sementes tinham germinado muito bem. Brum da Silveira fez nova remessa.” O sucesso não se deu só na Baía, pois, observava, do Rio de Janeiro, Araújo e Azevedo, três anos depois, a 18 de Julho de 1814 sobre a aclimatação do chá: “igualmente aqui se deu excelentemente bem, poder-se-á, à medida que for produzindo, tornar-se mais fácil daqui a comunicação desta planta para qualquer outra capitania.”11

Tendo, numa primeira remessa, o chá (plantas e sementes) mais os dois Chineses chegado em 1811, outras remessas foram feitas em 1814. No ano de 1815, a 9 de Maio, o jornal Idade de Ouro do Brazil, escreve em primeira mão sobre a experiência de cultivo de chá em curso: 
“(…) debaixo do patrocínio do Excellentissimo Senhor Cavalleiro Araújo, hoje Ministro de Estado, foi transportada da China para o Brazil com jardineiros Chinezes huma boa porção de plantas da árvore do chá, as quais mostrão, que produzirão abundante colheita deste importante vegetal. (…).”12 

Esta nota demonstra sobretudo que o chá semeado e o chá plantado em 1811, ou seja, mais ou menos quatro anos passados, está bom e promete uma boa colheita. Em 1819, oito anos depois, já havia chá brasileiro à venda em França, portanto ainda no tempo em que o Brasil fazia parte do reino português. Uma nota de Paris, datada de 1 de Novembro, daquele ano, dá-nos conta da importação em França de chá do Brasil.13 Uma pergunta, impõe-se, cuja resposta é incerta: quem produziu aquele chá? “Apao e Achune? Outros? Quem apanhou o chá? Outros chineses que vieram? É provável. O Cônsul-Geral no Brasil, na década de 1850, informava P. L. Simmonds de que, depois de um insucesso inicial, a cultura do chá entrara em crise, mas que fora tentada novamente em 1817.14

Entre Estufas, Fajã de Baixo, 29 de Fevereiro de 2020


1 Mendes Ferrão, Ob. Cit, 1992, p. 12.
2  Moura, Carlos Francisco, Colonos chineses no Brasil no reinado de D. João VI: Miscelânea de História Luso-Chinesa, Parte 1, In: Boletim do Instituto Luís de Camões, Verão 1973. - V.7 n.2, pp. 187-198.
3  Moura, Carlos Francisco, Ob. Cit, 2012, p. 12: Carlos Moura, recorrendo aos catálogos de documentos sobre Macau e o Oriente no Arquivo Histórico Ultramarino, vol. I (1996) e vol. II (1997), publicados pelo Professor Isaú Santos, resolve-nos várias dúvidas.
4  Idem, 2012, p. 12. 
5  Idem, 2012, p. 14. 
6  Idem, p. 16.Transcrevendo Ofício do Ouvidor de Macau, Brum da Silveira, de 21 de Março de 1811: Anexado aquele ofício, de 20 de Março, vinha um “abaixo assinado” de 21 de Março de Apao e Achune. Trata-se de um contrato.
7  Idem, p. 15: “(…) Para isso fez com os chineses um ajuste cuja cópia anexa ao ofício [20 de Março de 1811]: um vencimento mensal de quatro mil e oito centos réis.”
8  Idem, p. 16: “(…) Para isso fez com os chineses um ajuste cuja cópia anexa ao ofício [20 de Março de 1811]:Cf. Transcrição, p. 16 e reprodução do documento p. 73.
9  Idem, p. 15. Transcrevendo Ofício do Ouvidor de Macau, Brum da Silveira, de 20 de Março de 1811 
10  Idem    
11  Idem, p. 29. 
12  Jornal Idade de Ouro, Brasil, 9 de Maio de 1815: 1-2.
13  Gazeta do Rio de Janeiro, 12 de Janeiro de 1820, p. 2. 
14  Ball, Samuel, An account of the cultivation and manufacture of tea in China derived from personal observation during an official residence in that country from 1804 to 1826... / by Samuel Ball. - London: Longman Brown Green and Longmans, 1848, Introdução.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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