Meloa da Graciosa está em risco de desaparecer por causa dos transportes marítimos

A Meloa da Graciosa é um produto que, na sua época, tem presença marcada na mesa dos açorianos.
Seja pelas características organoléticas ou pelas propriedades intrínsecas, a verdade é que a meloa que na Graciosa se produz não é comparável – não por ser melhor ou por ser pior – a qualquer outra meloa conhecida.
Talvez aquela terra, de natureza vulcânica, seja pela milenária exposição aos sóis, ventos e chuvas, seja pelo amanho que os homens lhe dão, tenha transmitido ao fruto algo que o torna singular, na sua textura e no seu sabor, que o distingue dos demais.
A produção de meloa tem vindo a subir em crescendo, mas, com problemas que, desde há dois a três anos a esta parte, têm vindo a surgir no seu escoamento, os produtores é que não têm em crescendo o ânimo para continuar a apostar na cultura como o vinham fazendo, temendo pelo futuro da mesma. Se não forem encontradas soluções está em risco a possibilidade de a meloa da Graciosa chegar à mesa dos consumidores dos Açores, da Madeira e do continente.

Ainda há quem se acomode… 

O porta-voz desta apreensão tem sido João Manuel Correia Picanço, Presidente da Adega e Cooperativa Agrícola da Ilha Graciosa, já que é a Cooperativa que impulsiona a cultura, e é ela, também, a grande dinamizadora da promoção desta meloa nas restantes ilhas da Região e também da Madeira e no continente.
A exportação para S. Miguel e para a Madeira, e também para o continente, tem vindo a ser assegurada sobretudo pela Boxline. Descontando alguns contratempos, esta linha de escoamento tem vindo a funcionar, se bem que a distanciada periodicidade das ligações não seja de molde a que a meloa consiga conquistar grande faixa de mercado nestes destinos.
Para as ilhas do Grupo Central é que a situação se tem vindo a agravar, ano após ano…

“TMG” não conseguem ser resposta 
às pretensões da Graciosa

A parceira da Cooperativa para estas ilhas é, preferencialmente, a empresa TMG – Transportes Marítimos da Graciosa. O problema é que, desde há algum tempo a esta parte, a garantia da regularidade das viagens, dos itinerários e dos horários dos TMG não têm sido uma constante, o que tem constituído uma autêntica dor de cabeça para João Manuel Picanço, pois o produto, quando atinge a maturação, ou é escoado ou apodrece – não contemporiza atrasos de barcos nem ficar retido numa ilha à espera de viagem do barco para seguir para a outra e, então, são os produtores e empresários graciosenses que ficam com o prejuízo em casa.
A Cooperativa encontrou na Atlânticoline uma alternativa possível. Porém, pela natureza e pela periodicidade do transporte que asseguram, os barcos desta empresa não são a resposta eficaz de que a Graciosa precisa para o escoamento dos seus produtos.
No entanto, o Presidente da Cooperativa vê, na Açorline, a solução mais natural, já que os ETG são uma empresa privada, são eles que têm o direito de gerir o seu negócio como o entenderem mais rentável, e não se podem desviar do objectivo de rentabilização da empresa, não se comprometendo por isso com viagens que irão ou não fazer durante a campanha, nem com os respectivos itinerários ou horários. Infelizmente, acrescenta, apesar de ser uma empresa histórica da ilha, que na Graciosa e nos graciosenses tem o seu radical e o seu suporte, nada se lhes pode exigir, pois são eles e não outros que gerem o seu negócio.
Recorde-se que a meloa da Graciosa só produz de meados de Julho a meados de Setembro pelo que, diz-nos João Manuel Picanço, não obstante tanta contingência este ano, apesar da indefinição quanto ao escoamento, não tiveram outra hipótese senão arriscar com a continuidade da produção.

Trabalhar mesmo no escuro  
 
Assim, já compraram as sementes e preparam-se para as envasar em cuvetes, por estes dias. As que tiverem vingado serão replantadas na terra, entretanto amanhada, daqui por mês e meio e, depois, é esperar por condições climáticas boas para que boa seja também a meloa que começará a amadurecer no princípio do Verão.
Quanto ao escoamento, espera que, até que ele se afirme como imperioso, determinante e urgente, os escolhos e os emperramentos sejam transpostos.Nesta perspectiva, diz João Picanço estar esperançado na melhor cooperação de todas e entre todas as entidades privadas e públicas, empenhadas -  e inevitavelmente comprometidas –com o progresso da Graciosa e com a economia saudável dos graciosenses, que têm na meloa não só um “emblema” da ilha como, igualmente, um dos seus produtos, mais apelativos, de maior dimensão e com maior projecção, no exterior da ilha.
Para o Presidente da Adega e Cooperativa Agrícola da Ilha das Flores, todas estas indecisões, todos estes interesses desconjuntados, se forem convenientemente articulados poderão ter uma solução simples: “Na vida como em todas as coisas, manda quem pode e obedece quem deve: O Governo Regional não pode ficar indiferente a esta situação. Tem que a encarar de frente, ciente das responsabilidades que tem para com o povo açoriano, de que os graciosenses são parte integrante”.

Articular sinergias nas 
capacidades de transporte
 
E, a partir deste raciocínio, João Manuel Picanço propõe uma solução pragmática: “Para já, o Governo Regional, com o povo açoriano ao seu lado, tem o dever, a responsabilidade, a prerrogativa e a obrigação de olhar, com igual medida, os interesses de todo o tecido empresarial açoriano face aos superiores interesses do seu próprio povo:- O povo é a razão de ser não só do Governo e das suas instituições, como, igualmente, do seu tecido empresarial, que não tem razão de existir se não houverem populações para a todos servir. Tanto o sector estatal como o sector privado têm de pôr de lado as suas razões particulares e os seus interesses corporativos, abstendo-se de assumir, acima de tudo e de todos, a supremacia, os interesses e ambições de  quem mais pode, para, ao invés, se focarem nos superiores interesses do povo açoriano e das agremiações cívicas que dele próprio emanam.. 
Daí que João Manuel Picanço, um lutador nato, não hesite acerca do desfecho que espera para este imbróglio, enumerando-nos, de uma forma esquemática, os passos a dar, os quais aqui procuramos reproduzir:

Soluções à vista – a virtude 
das negociações
 
“1. Para começar, o Governo Regional tem que convidar para uma reunião, por ele liderada através de um dirigente que saiba do mister, que tenha capacidade de diálogo e que saiba pôr em cima da mesa as questões em equação;
2 . Depois, com uma agenda única – a de agilizar os mecanismos de transporte da meloa da Graciosa para os seus mercados preferenciais – ouvir o que cada um tem a dizer sobre o problema e os contributos com que pode concorrer para a sua solução;
3. Compatibilizar e, na medida possível harmonizar, numa única proposta, as sugestões aventadas por cada participante;
4. Caso esta harmonização não conduza a uma decisão que resolva o problema do escoamento da meloa da Graciosa, o Governo, que é quem manda, só tem de responsabilizar cada interveniente pelas suas opções e tomar, ele próprio, a decisão final – uma decisão que não fuja aos interesses dos graciosenses e das suas organizações, nomeadamente a associação dos produtores de meloas e a Adega e Cooperativa, esta como principal agente económica local com mais responsabilidades na dinamização desta actividade”.

A pedra de toque 
– articular interesses
 
O Presidente da Adega e Cooperativa Agrícola diz não ter dúvidas acerca do que seria melhor para a ilha, para os produtores e para uma maior expressão económica da cultura da meloa na ilha:
- Em primeiro lugar, diligenciar o estabelecimento de uma perfeita articulação com a Boxline, orientada para a cooperação entre os demais operadores existentes, no sentido de fazer chegar a meloa aos destinos que a empresa toca, no mais curto espaço de tempo.
- Depois, envolver, de forma determinante e comprometida, os TMG no processo de desenvolvimento da Graciosa e, concretamente, na criação de condições que favoreçam o incremento da produção de meloa, assumindo-se para o efeito, com o seu escoamento nas ilhas do grupo central .
- E, por último, caso destas sugestões não resultem respostas que em tudo satisfaçam as aspirações e as necessidades da produção de meloa, o Governo tem uma cartada final para jogar, a da entrada da Atlânticoline em cena. 

Atlânticoline com 
papel de charneira  

Ora, a Atlanticoline agencia anualmente os barcos para o seu serviço sazonal, sobretudo para o transporte de passageiros inter-ilhas. Porém, como quem define o caderno de encargos da operação é o Governo, basta que, no seu clausulado, disponha regras que permitam e imponham o transporte da meloa da Graciosa aos seus destinos, quando outras alternativas não houver, nas condições que para o efeito forem estipuladas”.
Afinal, medita o repórter, o povo é sábio. É no povo e para o povo que os grandes estudiosos têm que se inspirar nas medidas conducentes à resolução dos problemas das comunidades, das nações, do mundo…
A terminar, afirma-nos João Manuel Correia Picanço: “Olhe, eu já lhe disse o que tinha para dizer. As minhas ideias ficam nos seus papéis. Estas são as ideias do povo que em mim confia. Se aqueles a quem as dirijo se reveem nelas, se as acolhem ou não, é problema deles.  Mas das decisões que tomarem, não tenham dúvidas de que depende um nicho de desenvolvimento e de progresso económico de uma actividade Marca Açores, como é a meloa da Graciosa”!

                       

José Nunes, em Lisboa


 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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