Rotas gastronómicas (32)

Culinária portuguesa com “sabor açoriano” é a aposta do novo PataNisca

Depois de três anos sem espaço físico, O PataNisca abriu novamente as portas em Dezembro passado, desta vez na Rua Dr. Gil Mont’Alverne Sequeira, passando a ser um projecto gerido a três com o engenho gastronómico de Anabela Simas e Paulo Vicente, e com o apoio logístico de Natércia Gaspar.
Conforme conta Anabela Simas, chef há pelo menos 20 anos, voltar a abrir as portas d’O PataNisca apenas se concretizou devido ao sonho que Natércia Gaspar tinha por concretizar, onde idealizava a abertura de um restaurante: “A Natércia partilhou connosco o sonho de abrir um restaurante e nós procurámos um espaço para voltar a abrir O PataNisca, daí surgiu o projecto a três”.
Quanto ao nome, a empresária que explora também o bar do Hotel Casa Intze Ribeiro, adianta que a ideia surgiu quando trabalhava num espaço anterior e num momento em que um dos clientes lhe pediu para que fizesse pataniscas, um prato típico da culinária portuguesa mas que não é muito comum na ementa regional.
“O PataNisca surge a partir de uma sugestão de um cliente que me propôs fazer pataniscas, uma vez que cá não se come pataniscas, e lançou-me o desafio. Fiz as pataniscas noutro espaço que tinha e elas tiveram muito sucesso, e quando decido abrir o meu restaurante coloco-lhe este nome porque era o “ex libris” da casa”, conta.
Explícita para quem entra no restaurante cuidadosamente decorado está a ementa, apresentando uma curta lista de pratos que não cansam os clientes e que garantem “que os produtos sejam sempre frescos”, tendo em conta que na existência de uma ementa extensa acabam por ser incluídos produtos congelados, salienta a equipa.
Esta ementa, diz Paulo Vicente, é sobretudo “portuguesa com sabor açoriano”, havendo ainda espaço para pratos internacionais confeccionados ocasionalmente, trazendo ao de cima os sabores mais típicos de outros países e, ainda, proporcionando experiências diferentes através de menus de degustação reservados com antecedência.
Porém, os produtos açorianos têm também um importante destaque no restaurante, uma vez que estes são produtos que Paulo Vicente tem “muito orgulho” em servir aos seus clientes que, conhecendo ou não a marca e o selo, apreciam também a certificação de qualidade açoriana. 

Mimar o cliente local

Embora o turismo se torne fundamental para a maioria dos empresários ligados ao sector da restauração para que os seus projectos sejam bem sucedidos, n’O PataNisca o foco principal está direccionado para o cliente local, adiantam os sócios.
A motivação para optar por “mimar o cliente local”, explica Paulo Vicente, foi encontrada no facto de, enquanto clientes de outros espaços, repararem que “existem determinadas coisas que não estão bem, nomeadamente durante o Verão, quando enquanto clientes locais éramos um pouco colocados de parte”, sobretudo através dos sistemas de reservas que acabam por deixar poucos lugares livres nos restaurantes para os locais.
Assim, e apesar de o cliente estrangeiro ter também lugar garantido à mesa, Anabela Simas explica que “o que está a acontecer é que se chega à época alta, onde há um fluxo de turismo muito grande, e começa-se a fazer as reservas para o turismo”, deixando assim de parte o cliente residente que quando não faz férias “acaba por não ter onde comer porque a maior parte da restauração reserva as mesas para o turismo com recurso a agências ou a hotéis, por exemplo”.
Na opinião destes empresários, guardar a maior parte das reservas para os turistas é algo “que deve ser evitado”, tendo em conta que são também os clientes locais que, na sua maior parte, garantem o funcionamento dos restaurantes naquela que é conhecida como a época baixa: “Os residentes são os clientes assíduos de todo o ano e precisamos desses clientes”.
E apesar de existirem empresários que sugerem que o cliente local deve antecipar o seu lugar nos restaurantes mais movimentados por intermédio de uma reserva feita com alguma antecedência, Anabela Simas salienta que talvez não seja possível aplicar este método localmente.
“Não sei se podemos aplicar isto num meio tão pequeno. Ao fazermos reservas, bloqueamos cinco ou seis mesas e, do nada, a pessoa não aparece e perdemos dez ou 12 lugares em que poderíamos ter sentado dez ou 12 pessoas passantes. É muito complicado quando se trata de reservas”, diz, salientando que a equipa não tem interesse em trabalhar com agências para que se possa aplicar verdadeiramente no cliente local.
Deste modo, na opinião de Paulo Vicente, um dos chefs d’O PataNiscas, as formas de mimar o cliente local passam sobretudo por proporcionar uma boa refeição a um bom preço e num bom ambiente, dando também importância “ao que as pessoas pedem e aconselham”, diz.
Nesta equação entram ainda as plataformas digitais que fazem chegar de forma rápida as informações necessárias para cativas potenciais clientes, sendo também uma importante ferramenta para divulgar o trabalho de cada restaurante, considerando Paulo Vicente que é uma forma mais rápida de chegar até às pessoas do que apenas por intermédio da “publicidade feita boca a boca como antigamente”, havendo ainda a consciência de que este é também um espaço para as críticas, sejam elas construtivas ou não.
Mesmo sendo o cliente local que mais frequenta o espaço, Natércia Gaspar adianta que aquilo que mais satisfaz os empresários é que este tem sido um tipo de cliente que ao longo da sua estadia em São Miguel “vem, gosta e vem uma segunda ou terceira vez ao restaurante”.
Contudo, Anabela Simas realça que é esperada uma maior abundância de clientes estrangeiros a partir do próximo mês de Maio, altura em que inicia a época alta no que ao turismo diz respeito, sendo que o restaurante está localizado “numa das zonas com mais restaurantes por metro quadrado” de Ponta Delgada. 
Maio é, também, o mês em que costuma celebrar-se a festa em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o que eleva a expectativa de muitos empresários, principalmente aqueles que como n’O PataNisca, estão mais perto da concentração da festa mas “longe da confusão das barracas, que é já algo de que as pessoas aparentam estar um bocado cansadas pelo exagero dos preços e porque cada vez menos se vê a restauração regional”, diz Natércia Gaspar.

Restauração açoriana não vive 
no seu auge

Porém, ao longo dos últimos 20 anos, explica Anabela Simas, a restauração açoriana “mudou em tudo”, tendo deixado em 2008 o momento que classifica como “o auge” do sector.
“Apanhei a restauração no seu auge. Hoje não vivemos o auge da restauração, de 2008 para cá a restauração nunca mais foi a mesma, com a crise, com as exigências de controlo e qualidade alimentar, se bem que têm que existir. (…) Mas quando comecei a trabalhar na restauração começávamos a servir pela altura do Santo Cristo entre 100 a 200 jantares por dia e só em Setembro é que começávamos a reduzir e isso nunca mais aconteceu. E estou a falar de clientes residentes”, explica.
Para o futuro, refere a equipa, e tendo em conta que O PataNisca está também ligado ao sector de promoção de eventos, tencionam também promover uma festa temática de Solstício de Verão, no fim-de-semana de 20 e 21 de Junho, tendo como objectivo unir vários comerciantes que ali partilham a actividade e animar a cidade.
“Nós próprios temos algumas ideias de animação quer dentro d’O PataNisca quer fora, e estamos com esperança de poder levar à frente para dinamizar a cidade que fica muito parada no Verão apesar dos muitos turistas. Ponta Delgada não é como em Lisboa, Porto ou mesmo no Funchal em que há focos de atracção para os turistas dentro da cidade.
Temos um sonho que é o de promover a festa do Solstício de Verão, agregar outros comerciantes, se for possível, mas O PataNisca vai promover a festa de Solstício de Verão no fim-de-semana de 20 e 21 de Junho, isso é assegurado”, conclui Natércia Gaspar.
 

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