Face a Face...! com Helena Castanho

“Está cada um a puxar para o seu lado no turismo açoriano tentando tirar os maiores dividendos possíveis”

Correio dos Açores -  Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Helena Castanho - Creio que os leitores mais assíduos me identificam como cronista da «Viagem às nossas escolhas».
Quem aqui vinha de quinze em quinze dias falar de Turismo…

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Iniciei o meu percurso académico no ISA (Instituto Superior de Agronomia), frequentando o curso de Arquitetura Paisagística, mas depressa me apercebi que o meu percurso devia ser outro e, volvidos os dois primeiros anos do curso, escolhi fazer a minha formação em Gestão Turística e Hoteleira. Exerci funções de Direção Hoteleira em duas unidades da nossa cidade e abracei o ramo de Mediação Imobiliária (por questões familiares) durante os últimos anos. Em termos sociais tento ser um elemento activo e atento ao que nos envolve em sociedade e sempre que posso participo como cidadã, partilhando pensamentos e atitudes que entendo fazerem parte da vida de todos nós. O exemplo, aqui convosco, foi a minha crónica no âmbito do Turismo. 

Como se define hoje em termos de acção?
Sou, por norma, participativa em tudo o que faço e em tudo o que me envolve, quer na minha vida profissional quer na minha vida privada.
Sou curiosa por natureza e atenta ao que me rodeia, não prescindindo de toda e qualquer análise do contexto onde vivo. De preferência e sempre que me permito…opino.
Gosto de viver cidadania.

Quais as suas responsabilidades actuais?
Sou executiva de vendas do Grupo Pestana, no mercado do imobiliário aqui em São Miguel, especificamente no projecto Coliseu Residences.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família de hoje adaptou-se às novas variáveis de vivência que acompanham os tempos. A mudança de formas de estar acarreta alterações relacionais, que têm como tudo o resto, diversos enquadramentos, dependendo do modo de vida de cada um.
O importante é manter sempre o valor e respeito que deve acompanhar a liberdade de todos nós.
Não existem famílias «tradicionais», existem famílias! 
Reservo  - e faço questão disso - tempo de qualidade para quem me acompanha todos os dias…    

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Não gosto do termo tradicional, parece-me desadequado e efectivamente não me define.
O facto é que hoje falta respeito pelos mais velhos, aquela sensação que nos acompanhou no nosso crescimento de sabermos ouvir os que têm mais experiência e não definir comportamentos de forma leviana e sem consequências.
Os pilares educacionais de outros tempos são agora mais permissivos.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir na Região Autónoma?
Todas as sociedades são mutáveis e os Açores não são excepção.
Lamentavelmente, acompanhamos uma nova geração que tem dificuldade em posicionar-se com planos para o futuro e que não está preparada, em termos educacionais e formativos, para os desafios que hoje se impõem. É comum encontrarmos e até identificarmos testemunhos verbais ou escritos, com demasiadas lacunas na língua de Camões. Hoje, mais do que nunca, devia ser quase inato falar e escrever em bom Português, tendo em conta o acesso a tanta e variada informação. É pena!
Prevejo uma sociedade bafejada por demasiada iliteracia e pouco activa nas decisões que deveriam ser transversais a um todo. Uma sociedade acomodada a um destino do qual faz parte e optou por não pronunciar-se.

Que importância têm os amigos?
Tenho poucos amigos e muitos conhecidos. Os que considero amigos são indispensáveis para o meu equilíbrio emocional e, sempre que posso, faço questão de privar com eles.
Fomento tertúlias e encontros que permitem trocar ideias, longas e deliciosas conversas, privilegiando presenças de quem gosta de afetos e relacionamentos sinceros. Sou uma pessoa de convivências e confraternizações.

Que actividades desenvolve hoje?
Pouco tempo me tem restado para além das minhas actividades profissionais, mas tento nos momentos livres usufruir de espaços e convívios que me permitem recarregar baterias.
Sou ilhéu por nascimento e tenho uma alma de maresia…
Com frequência procuro estar junto ao mar, leio, passeio, vou ao cinema e viajo à mais pequena oportunidade.

Que sonhos alimentou em criança?
Os que acompanham qualquer criança com inteligência emocional e uma educação cuidada, que abundou em carinho e sentido de responsabilidade. Fazer uma carreira profissional, ser independente e autónoma, experimentar a maternidade e sentir-me livre para fazer sempre as escolhas que entendo serem as que mais me preenchem como ser humano.
Sinto que o consegui…

O que mais a incomoda nos outros? E o que mais admira?
O que mais me incomoda é a falta de carácter, sem dúvida…
O que mais admiro é a capacidade de estar de bem com a própria consciência, algo de que não abdico.    

Que características mais admira no sexo oposto?
Sentido de humor, capacidade de partilha, pragmatismo e inteligência emocional.


Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Adoro ler… É uma das minhas paixões desde que me lembro. 
Na adolescência lia tudo o que me passava à frente e quando se acabava o espólio lá em casa,fazia mais aquisições ou ia à biblioteca pública escolher mais literatura. Não imagino uma vida sem leitura.
É redutor para mim nomear um livro de eleição mas… fica aqui este: «A rapariga que roubava livros» de Markus Zusak

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Faço questão de me manter actualizada e não descuro o manancial de informação com que as redes sociais nos presenteiam, com os devidos filtros, naturalmente.
Relaciono-me de forma amigável, portanto.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Conseguir, conseguia, mas como diz o outro, não seria a mesma coisa!
Esta geração é de facto privilegiada e eu, por perfil, gosto de acompanhar os tempos. É fantástico, não saindo do nosso espaço físico, ter acesso à informação que quisermos. Não creio, de todo, que devamos menorizar ou até dispensar estas tecnologias. 

Costuma ler jornais?
Sim, sempre que tenho oportunidade e até recorro às edições online.
    
Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
É outra das paixões que desenvolvi. Viajar é mudar a roupa da alma… De todas as viagens trago registos que me permitem ser também quem sou. Enumerando apenas uma: Viena na Áustria. 
Empatia absoluta com a cidade, forma de estar, cultura e costumes.
Uma sociedade organizada, com regras sociais bem claras e um cuidado que se inveja no que é comum e de todos.
A limpeza das zonas públicas é desconcertante.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Sou adepta convicta, de gastronomia que privilegia temperos baseados em ervas aromáticas e não no sal ou pimenta. Agrada-me fazer uma refeição em que os olhos comem primeiro. Dou imenso valor à criatividade e sabores que nos conseguem presentear num prato. Não tenho um prato preferido, gosto de quase tudo e estou sempre receptiva a novos sabores e experiências. O meu palato agradece sempre…

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
«Açores sem desemprego»

Qual a máxima que o/a inspira?
«Se não houver vento, reme.»

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Respeito a História enquanto «manual» de conhecimento que nos esclarece e ensina como chegamos aos dias de hoje. Não escolheria outra década nem outro século para viver. Aprecio todas as conquistas, liberdades, pensamentos e vivências do século XXI e é seguramente aqui que me encontro melhor.

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores? Em sua opinião, que soluções se poderiam adoptar?
De forma avassaladora. Somos geograficamente demasiado pequenos para tanta pobreza. Temo, no entanto, que a pobreza de espírito também tenha ajudado na implementação do cenário a que assistimos hoje. São várias as soluções para este flagelo, a começar pelo rendimento mínimo de inserção social que em vez de estimular pessoas activas protege o ócio. Há inúmeras formas de colocar pessoas em idade produtiva a trabalhar para o seu bem- estar e da comunidade. Receber, sim, mas por uma actividade prestada como manutenção de espaços públicos, pintura e recuperação de fachadas, jardins, apoio a serviços escolares entre outras. Falta a consciência comum deste flagelo…

O que pensa da política? 
Que serve individualmente pessoas e não serve a sociedade, o bem comum e a causa pública. Não existe para o propósito que supostamente devia existir, servir em primeiro lugar o povo.

Se desempenhasse um cargo governativo nos Açores descreva algumas das medidas que tomaria?
Tenho imensa dificuldade em imaginar-me num cenário político, pelo menos no enquadramento actual. Com o pragmatismo que gosto de pensar que me identifica, seria muito difícil estar presente como entendo que deve estar um responsável politico, que tem por obrigação, ética e respeito, ter a Região e o seu povo em primeiro lugar. Por ora nem penso nisso… 

Qual a sua opinião sobre a dinâmica que está a ser dada ao sector turístico na Região?
Está à margem de qualquer planeamento… A dinâmica que existe varia apenas com o aumento da procura que temos tido. Não é concertada, acompanhada, fiscalizada e corrigida. Está cada um a puxar para o seu lado, tentando tirar os maiores dividendos possíveis sem olhar a consequências, que a continuar assim, inevitavelmente chegarão.
O maestro desta orquestra perdeu a batuta! 

Há movimentos ecologistas preocupados com os principais pontos turísticos de São Miguel (Lagoa do Fogo, Vista do Rei, Lagoa das Furnas, Caldeira Velha, entre outros). De que forma, em sua opinião, se deveria controlar os fluxos turísticos para estes espaços?
Há, desde sempre, um problema crónico, que se prende com o não saber copiar e implementar o que outros já fazem, e muito bem, noutras paragens do globo.
Qualquer um dos nossos ex-libris tem que ser defendido pela sua singularidade e merece o respeito de preservação enquanto paisagem protegida e local de natureza intacta. Não temos um slogan tão ambicioso quanto não exequível, até à data, que diz exatamente «destino sustentável»? São as tais questões com que a minha forma de estar se recusa relacionar.
O controlo diário de visitantes tem que ser uma realidade, a proibição de actividades aquáticas na Lagoa das Sete Cidades tem que ser uma prioridade, o volume de viaturas que se concentram em cima umas das outras nestes pontos turísticos, tem que apresentar outras alternativas. Ainda ouvimos e oxalá não se concretize, a vontade expressa de quem tem poder de decidir por todos nós, que se vai fazer um túnel na Lagoa do Fogo… Por favor, refreie-se tamanha ignorância!
Nenhuma solução pode vir acompanhada de toneladas de betão…Copiem quem sabe e já fez, saber copiar é uma virtude!

Em sua opinião, quais os limites do turismo nos Açores?
Imensuráveis. Estamos muito longe do nosso limite turístico.

O crescimento do turismo incrementou o sector imobiliário, sobretudo, na ilha de São Miguel. Por exemplo, multiplicaram-se os Alojamentos Locais em Ponta Delgada e estão a multiplicar-se os hotéis na Ribeira Grande. Acredita que esta tendência vai continuar no sector imobiliário? Está a ver Ponta Delgada cheia de alojamentos locais? E a Ribeira Grande com mais cerca de 14 unidades hoteleiras?
O Turismo é uma das maiores actividades económicas que existe. Naturalmente que este «boom» a que temos assistido implica, directamente, o crescimento no imobiliário e permite aos privados abrirem áreas de negócio e exploração que lhes proporcionem, por exemplo, recuperar património que de outra forma não seria possível.
Sou totalmente a favor do aumento do número de camas. Seja na hotelaria tradicional, seja nos alojamentos locais. O que não sou é a favor do «quando cá chegarem logo se vê». É preciso perceber que a ampliação neste tipo de oferta tem que ser acompanhada de serviços e empreendimentos similares, que não temos. Tem que estar envolta em sinergias e partilhas com todas as entidades privadas e públicas com um objetivo último comum, viabilizar um Turismo de Qualidade nos Açores.
Lamentavelmente, não se tem tido a coragem de implementar, conscientemente, medidas de actuação que permitam seguirmos todos e em conjunto na mesma direcção.

Existe a expectativa de que, nos próximos 5 a 6 anos, o número de turistas poderá crescer para o dobro em relação ao que existe actualmente. Em sua opinião, quais os impactos deste crescimento?
Se continuarmos com políticas que permanecem apenas legisladas, se é que estão e que não são colocadas em pratica com a sensibilidade, sinergia, know- how e planeamento que se exige numa área económica como esta, não vamos chegar a bom porto. Qualquer destino turístico é uma questão de moda, exactamente por isto, se não for devidamente acompanhado, precisa apenas de um nanosegundo para perder o impacto na escolha que, outrora, o elegeu.
Não basta promover, é muitíssimo mais necessário saber acompanhar este crescimento, entregando-lhe asas para poder voar em segurança. Continuo a presenciar um escrupuloso cuidado com as estatísticas e um descurar constante no serviço que prestamos.
Não sinto sequer que haja esta preocupação, andamos todos a viver apenas o momento.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Que mensagem deixa às mulheres açorianas neste dia?
Só posso deixar uma mensagem: priorizem-se, emancipem-se, vivam os seus sonhos, planeiem o seu futuro, lutem para depender apenas de si mesmas e amem-se acima de tudo.

Que comentário lhe merece os níveis de violência doméstica na Região?
São lamentáveis, inaceitáveis, preocupantes e muito tristes, os números de violência doméstica nos Açores.
É uma questão social muito sensível e é transversal a todas as classes sociais. As campanhas de sensibilização existem e quero acreditar que, de alguma forma, ajudam a minimizar algumas situações, mas a questão todos sabemos é mais profunda. Algumas mentalidades ligadas à forma de estar e de nos relacionarmos uns com os outros estão longe de ter acompanhado o desenvolvimento social. 

Quer acrescentar algo mais que considere importante no âmbito desta entrevista?
Agradecer ao Correio dos Açores a oportunidade e o convite para partilhar este testemunho.
Bem-haja!    

                                                    

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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