Agostinho, gerente do restaurante-casa de pasto O Avião

A cozinha está sempre aberta para quem quiser almoçar fora de horas

O negócio existe na família há mais de 60 anos, e apesar do nosso entrevistado ser o gerente do restaurante, a sua mãe é quem é a legítima proprietária.
Agostinho já fez meio século de presença assídua naquele espaço. “Nasci em São Roque e para cá vinha de camioneta. De casa trazia os guardanapos e as toalhas de tecidos, porque não havia estas peças de usar à mesa em papel.” O nosso entrevistado recorda-se que “naquele tempo” a mãe “lavava os tecidos à mão”, porque também não havia máquinas de lavar, mas isto tinha de ser feito antes de entrar na escola, porque se entrasse às 09h00 e saísse às 13 horas, tinha ainda de ir para O Avião ajudar o pai, em vez de ir para casa.

Louça lavada à mão e fogões a petróleo

Mais ainda, “a louça tinha de ser lavada à mão” e os fogões eram a petróleo. “Tínhamos dois fogões de dois queimadores a petróleo com duplo depósito. Muitas vezes ia buscar cinco litros de petróleo à mercearia Samuel, no Canto da Cruz. Eram outros tempos, onde a comida que se confecionava era de panela, mas também assavam-se frangos na Padaria Lisbonense ou peixe assado”.
“Os frangos eram gordos, não são como esses de hoje em dia, mais pequenos. Eram criados em casa e um frango dava para quatro doses”.
Para que se saiba, os frangos eram temperados na cozinha do Restaurante Casa de Pasto O Avião e depois eram assados na padaria em forno de lenha.
Com um total de 11 colaboradores, o negócio continua a ser da família, onde ali também trabalha o seu filho.
Entretanto, passado todo este tempo, nada se perde, apenas os hábitos transformaram-se e deram lugar a outras rotinas. “Sou do tempo, em que malta saia da escola e vinha para aqui comer metades de pão com queijo e pé de torresmo, porque não havia mais nada. Até um queijo dava para quatro pessoas e na altura chegamos a vender cerca de 200 queijos brancos por dia, porque queijo de São Jorge, pouco ou nada se vendia e nesse tempo nem se falava em cantinas”.

Iguarias de outros tempos

E porque o restaurante-casa de pasto O Avião chegou também a ser muito apreciado por presentear os seus clientes com uma requintada carne assada, Agostinho reforçou, que de igual modo também ali se degustavam “as iscas de fígado, a carne guisada, o feijão assado no forno, a dobrada com feijão ou a mão de vaca”, ou seja, pratos típicos que nunca se esquecem.
Hoje em dia, os pratos são mais variados, principalmente “o peixe feito na hora”, à excepção de outros, que têm de ser preparados com alguma antecedência, como a carne assada ou o polvo, mas que são cozinhados no dia, com a devida prioridade de tempo para que possam ser servidos ao almoço ou jantar.
Para Agostinho, cinquenta anos de actividade representa muito. “Estou aqui por gostar disto”, começou por dizer, para acrescentar, que “o restaurante -casa de pasto O Avião faz parte da minha vida…”, emocionando-se. Passada a emoção (natural), por se ter recordado dos tempos em que conviveu com o pai e irmão, veio-nos à memória aquela frase: “A partida causa o sofrimento, mas nunca o esquecimento”.
Muitas foram as personalidades que frequentaram aquele restaurante, não amigos e colegas que trabalhavam no comércio da baixa da cidade de Ponta Delgada, mas também muitos alunos do liceu de Ponta Delgada e de várias gerações. A este propósito, Agostinho refere que “no passado nem todos tinham o privilégio de estudar no liceu, realidade que hoje em dia é bem diferente na Escola Secundária Antero de Quental”.

Fregueses de muitas gerações

“O liceu chegou a ter ensino nocturno, onde muita gente que trabalhava durante o dia, saia do emprego para depois estudar à noite, até às 23 horas inclusive. Conheci muita gente que levava a vida assim, de quase todo o lado da ilha e que antes de começar a estudar, fazia paragem obrigatória aqui no restaurante, normalmente para jantar”.
Agostinho conviveu ainda com muitos presidentes, directores e jogadores do Clube Desportivo Santa Clara, cuja sede é mesmo ali ao lado do restaurante, na mesma rua.
Por estes dias, são muitos os jovens que frequentam aquele espaço, que localizado numa rua sem carros continua, também por isto, a ser muito procurado, em especial por ter uma explanada exterior e outra interior, imperdível para turistas.
Instado a pronunciar-se quais os dias de maior movimento, remata: “Todos os dias, no Verão”.
Fora da esfera do trabalho, Agostinho revela que o que mais gostava de fazer “é estar em casa, junto das suas árvores de fruta para distrair e fugir dos afazeres do dia-a-dia”.
Por incrível que pareça, também não usa telemóvel e se alguém precisar de chegar à fala com ele, já sabe onde pode contacta-lo: “No avião”. Para os mais chegados, “podem ligar para casa”, que a sua cara-metade toma nota do recado.
Todos os dias está no restaurante e já são 50 anos de vida nestas andanças. “São dezasseis horas por dia e no ano passado tive três dias de férias. Não abrimos aos domingos, mas estou sempre aqui, porque há sempre coisas para fazer”.
“O passado faz parte do presente e quem disser o contrário está enganado”. Por exemplo, “tenho filhos e netos de clientes antigos que emigraram, que vêm cá de propósito almoçar ou jantar. Da América e Canadá tenho um bom mercado”, remata.  
O futuro a Deus pertence, mas Agostinho “entende que já começa a ser tempo de começar a trabalhar menos e passar o testemunho”. Com a reforma no horizonte, deixou escapar: “Mas, não vou deixar de passar por aqui”.
De referir ainda, que a cozinha no Restaurante Casa de Pasto “O Avião” trabalha a tempo inteiro, no verdadeiro sentido da questão, ou seja, quem passar por ali, e quiser, por exemplo, almoçar fora de horas é atendido, ou seja, das 10h00 até às 22h30. “Esta é uma casa de trabalho e isto faz a diferença naquilo que temos a oferecer ao nosso turismo e a todos aqueles que nos visitam”, finalizou.

 

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