Os Açores vão montar campo de experimentação agrícola na ilha de Santiago em Cabo Verde

Os Açores vão instalar um campo agrícola experimental de quatro hectares e instalar uma bomba submersível num poço de 200 metros de profundidade para elevar a água à superfície com uma bomba movida por cerca de 90 painéis fotovoltaicos no âmbito de um projecto desenvolvido pela associação de desenvolvimento local ASDERP em cooperação com a  Associação Comercial, Agrícola, Industrial e de Serviços da ilha de Santiago, em Cabo Verde e a colaboração técnica da Associação Agrícola de São Miguel.
Este projecto, no valor de 250 mil euros, é co-financiado por fundos da União Europeia em 85% e está a passar, nesta primeira fase, por acções de formação de técnicos cabo-verdianos em São Miguel e a deslocação de técnicos dos Açores a Cabo Verde para formarem agricultores de Santiago.
Presentemente, um núcleo de quatro técnicos de Cabo Verde, com cursos superiores, está em formação em São Miguel sobre a montagem de estufas e o sistema de rega gota a gota.   
O presidente da ASDERP, Carlos Ávila, afirma que a ideia para este projecto surgiu em 2017 quando ainda era presidente da Câmara da Povoação e seu “amigo” João Domingueds era, então, presidente da Câmara Municipal de Tarrafal e que agora é presidente da empresa de telecomunicações cabo-verdiana TLCV.
“Um dia”, recorda Carlos Ávila, “li um artigo em que João Domingues escrevia o seguinte: ‘O aumento do turismo em Cabo Verde é excepcional mas não estamos a aproveitar tudo porque não produzimos produtos agrícolas suficientes e, portanto, o nosso trabalho não é rentabilizado, nomeadamente, junto das cadeias hoteleiras’”.
Foi desde então, explica Carlos Ávila, que “comecei a engendrar um projecto que ajudasse Cabo Verde a produzir mais produtos agrícolas”.
É sabido que, na ilha do Sal, em Cabo Verde, os empresários hoteleiros italianos levam os produtos todos de avião para o Sal e na ilha de Boavista, os alemãs levam os produtos todos de exterior para seus hotéis.
Entretanto, Carlos Ávila encontrou-se em Lisboa com o Ministro da Agricultura e o Director Geral da Agricultura e do Ambiente de Cabo Verde numa reunião em que participavam. Na altura, Carlos Ávila explicou que a ASDERP “era obrigada” a fazer projectos de cooperação internacional no âmbito do Leader e que era seu propósito estabelecer um projecto de cooperação com Cabo Verde que, sendo um país terceiro, é dos poucos que são abrangidos nos mesmos moldes que os restantes países da União Europeia em projectos de cooperação transnacional.
Como explica Carlos Ávila, “eles gostaram muito da ideia e, em 2018, fomos a Cabo Verde fazer um levantamento das necessidades na área da agricultura porque é neste domínio que podemos ter este projecto de cooperação. Estivemos lá cerca de 8 dias a analisar o terreno e a estudar com as instituições locais e com o governo cabo-verdiano o que devíamos fazer”.
Desta deslocação surgiu, em 2019, este projecto de cooperação transnacional que “é, um projecto de formação muito prática. Ou seja, mesmo os técnicos que estão cá hoje, estão a ver como se monta e eles próprios a montar estufas e a verificar a rega gota a gota. Vão trabalhar no terreno. E o mais interessante é que os quatro técnicos que vieram, todos eles são licenciados, mas todos eles trabalham com as mãos na terra. É gente que não é de secretária, é gente que vem para a rua receber formação, trabalhar e, depois, ensinar os outros”.
O mais interessante disto é a montagem do nosso campo porque nós levamos uma série de equipamentos agrícolas para trabalhar o campo, tudo pequenos equipamentos e vamos também pôr a trabalhar um furo para captação de água que eles lá tinham com 200 metros de altura que, inicialmente, se tinha pensado que seria por moto bomba. E, depois, lembrei-me que em vez de moto-bomba, com tanto sol que existe em Cabo Verde, devia era ser com painéis fotovoltaicos. E vamos levar também cerca de painéis fotovoltaicos para puxar a água do furo para além das estufas que vamos levar.

Fernando Sousa explica o projecto
Na deslocação da ASDERP a Cabo Verde em 2018, Fernando Sousa, então director regional do Desenvolvimento Rural, que é a entidade gestora do programa PRORURAL+, foi convidado a integrar a comitiva e hoje, não assumindo funções governativas, é o director do projecto que está em curso.
Fernando Sousa explicou que, na deslocação, uma das preocupações era perceber qual seria o parceiro para se estabelecer um acordo e formalizar o projecto de cooperação transnacional.
O parceiro encontrado foi a associação cabo-verdiana ACAISA e, no regresso a São Miguel, os dois parceiros começaram a desenhar o projecto com o apoio da ARDE,  associação de desenvolvimento rural do concelho de Ponta Delgada e Santa Maria e com a Associação Agrícola de São Miguel, na cedência de know how “para dar alguma substância” ao que se pretendia.
O projecto foi candidato a fundos comunitários através do programa PRORURAL+ e foi aprovado em Fevereiro do ano passado. E, numa fase posterior, foi assinado na ilha de Santiago um protocolo para se passar à fase de execução.    A primeira acção concreta desenvolveu-se em Novembro do ano passado com a participação de vários empresários do sector agro-alimentar de São Miguel na feira comercial internacional de Cabo Verde. “Os empresários regressaram aos Açores muito satisfeitos”, refere Fernando Sousa.   
A segunda etapa, que “acaba por ser a mais importante do projecto é a que está em curso de formação dos parceiros de Cabo Verde quer da ACAISA, quer também para técnicos do Ministério da Agricultura e Ambiente de Cabo Verde que, desde a primeira hora, se quis envolver neste projecto”.
Esta formação iniciou-se a semana passada, com o técnico Nuno Dias da Associação Agrícola de São Miguel, a deslocar-se a Santiago e fazer uma palestra para 25 agricultores sobre a aplicação de fito fármacos. “Pelas referências que tivemos, inclusive das pessoas de Cabo Verde”, afirma Fernando Sousa, esta formação “foi um sucesso. E, realmente, esta é uma cooperação que resulta”.
Estão programadas mais seis acções de formação em diferentes áreas agrícolas em Cabo Verde. A próxima será em cooperativismo também feita por um técnico da Associação Agrícola. E haverá acções em fruticultura, em floricultura e em estufas. Esta última está a decorrer, neste momento, em São Miguel.
 
“Estreitar os laços de cooperação”
Em Santiago, a associação ACAISA tem uma área disponível de quatro hectares de terreno onde vai ser implantado um campo de demonstração através de um furo de água. Através do projecto vai ser adquirida uma bomba submersível para retirar a água do furo. Uma bomba que vai ser alimentada por um sistema de painéis solares também adquiridos com fundos comunitários. O facto é que, no local não existe energia eléctrica e a alternativa seria um gerador que acarretaria custos com gasóleo, para colocar o sistema de bombagem a funcionar. “Além de que é sempre uma preocupação ambiental relativamente a estas questões”, como afirma Fernando Sousa. Neste campo de experimentação, executando o projecto, vão ser instaladas várias estufas e também terreno aberto com sistema de rega para a produção de produtos agrícolas.
De 1 a 8 de Maio já está programada uma deslocação a São Miguel dos parceiros de Cabo Verde. Neste altura, explica Fernando Sousa, “pretendemos fazer uma série de visitas para eles perceberem, no terreno, como funciona a nossa agricultura e a agro-indústria. E haverá um dia para debatermos a questão da sustentabilidade económica e ambiental da agricultura em regiões insulares. Isto porque as nossas realidades, embora com climas diferentes, são idênticas neste sentido”.
A série de formações vai culminar com mais uma deslocação de empresários das ilhas de São Miguel e de Santa Maria (ilhas onde estão implantadas as ASDERP e a ARDE) para um Workshop em Cabo Verde sobre a legislação aduaneira cabo-verdiana para, “no futuro, estabelecerem também relações comerciais e estarem mais aptos para a poderem concretizar”.
Fernando Sousa explica que “o que se pretende, realmente, é estreitar os laços entre os dois territórios da Macaronésia no âmbito da agricultura para que, no futuro, para além da transferência de conhecimentos, haja também trocas comerciais”.
A ASDERP pretende que este projecto prossiga no próximo quadro comunitário de apoio da União Europeia, já no âmbito da transformação dos produtos agrícolas.
 Quer a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas dos Açores, quer o Ministério da Agricultura e Ambiente de Cabo Verde “estão totalmente comprometidos com este projecto. Apoiam, do ponto de vista logístico, em todas as etapas deste projecto”, concretizou Fernando Sousa.
O objectivo, realçou, “é a troca de conhecimentos que, numa fase posterior, alavancam as trocas comerciais”.  J.P.

 

Técnicos de Cabo Verde acreditam na cooperação comercial com os Açores

 

Os técnicos cabo-verdianos que se encontram em formação nos Açores não escondem a sua satisfação por estarem envolvidos no projecto.
A ACAISA é uma associação Comercial de Santiago do Norte. Organiza todos os agricultores e apoio os agricultores na área agrícola, de organização do projecto e de viabilidade económica.
Como afirmam, “todos temos aprendido com estas acções de formação. É uma troca de experiências. Em Cabo Verde temos uma grande produção de banana. Produzimos também cana-de-açúcar e temos vindo cá para absorver conhecimento e transmitir aos associados da ACAISA. Há uma troca de conhecimentos entre os Açores e Cabo Verde”.
Os técnicos acreditam que, “no futuro, possa haver trocas comerciais entre os dois arquipélagos” realçando que Cabo Verde “tem manifestado abertura para isso. Inclusive, um grupo de empresários açorianos participou na Feira Internacional de Cabo Verde”.
Cabo Verde é um arquipélago constituído por 10 ilhas, uma das quais não é habitada. Das nove, duas estão viradas para a agricultura e que são Santo Antão e Santiago.
“Precisamos de maquinaria agrícola, de sementes novas e de novas técnicas de agricultura para evoluirmos”, afirmou um dos técnicos.
“Todos temos aprendido e vamos continuar a aprender com esta cooperação, com formações também em Cabo Verde em áreas em que estamos a precisar”.

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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