Artista brasileira encontra inspiração para novas jóias em São Miguel

Depois de quase 15 anos a fazer jóias em Portugal continental, Juliana Bezerra viajou em família até à ilha de São Miguel no início do passado Inverno com o principal objectivo de passar alguns dias longe da azáfama que caracteriza cidades grandes como Lisboa, acabando por levar consigo um autêntico herbário de onde viria a nascer uma nova colecção de jóias com esse mesmo nome.
Entre os nomes e locais que mais marcaram a artista ficaram Furnas, Porto Formoso, Santa Bárbara, Rabo de Peixe, Caloura, Pópulo e Dona Beija, dando assim origem a pouco mais de duas dezenas de peças divididas entre anéis, colares e brincos feitos em prata e prata dourada, inspirados em conchas, folhas e flores que fazem parte das muitas paisagens típicas de São Miguel.
“Como não queria perder a emoção do que estava a viver, tudo o que consegui recolher de folhas, flores, imagens e texturas eu tentei transferir para o meu trabalho e fui baptizando as peças conforme os sítios em que encontrei as referências, ou apenas porque gostei do nome. Em São Miguel há vários nomes que funcionam para fazer peças!”, diz divertida a joalheira.
Em todas as viagens que faz, afirma Juliana Bezerra, é comum fazer-se acompanhar de recipientes e livros onde poderá colocar as recolhas que faz, explicando que da passagem por São Miguel saiu “carregada (…), principalmente do Parque Terra Nostra”.
Também a embalagem e, no fundo, a imagem de marca desta colecção tem um fundo 100% açoriano, uma vez que consiste numa hortênsia que secou, transformando-a depois em selos e em embalagens, utilizando esta planta e imagem de marca dos Açores também para dar origem a novos brincos.
Actualmente, explica a criadora de jóias, a sua estética é essencialmente “orgânica, irregular e imperfeita”, referindo que 90% da sua inspiração provém hoje da natureza, desde as texturas, formas e volumes, até às flores, tendência esta que é confirmada pelo nome de quase todas as peças que vai criando ao longo do tempo e que remetem para sítios ou para elementos da natureza.
A partir de Lisboa envia com alguma frequência trabalhos para várias clientes açorianas que, ao longo do tempo, a foram também incentivando a visitar a ilha: “Tenho muitas clientes nos Açores e há temporadas em que chego a fazer um ou dois envios de peças por semana para o arquipélago, então muita gente dizia que eu ia adorar”.
Assim, juntamente com um marido que até já viveu em São Miguel e com a filha ainda bebé rumou aos Açores para descansar. Pelo caminho apaixonou-se de forma “avassaladora” e não conseguiu resistir à recolha de diversos elementos que mais tarde seriam imortalizados em prata.
 “Não fuicom o propósito de procurar uma colecção, só que me apaixonei mesmo, fiquei encantada e por mim até teria casa de férias em São Miguel, foi uma coisa avassaladora. Não estava à espera que fosse tudo tão lindo e tão perfeito, parecia que tudo estava a conspirar para que eu ficasse verdadeiramente apaixonada.
Tudo o que eu comi foi maravilhoso, não imaginava também que as pessoas seriam tão simpáticas e acolhedoras, fiquei mesmo encantada e a natureza é um autêntico “susto do bem” em qualquer sítio que se vá”, relembra a joalheira, salientando que especialmente a beleza do Parque Terra Nostra, que não se importaria de percorrer por completo durante dias a fio.
Depois de se apaixonar, e já com o bichinho atrás da orelha e disposição para começar um novo projecto, Juliana Bezerra conta que comprou diversos livros sobre o artesanato e a cultura açoriana, tendo como principal objectivo “conhecer o máximo possível” nesses dois tópicos.
Por outro lado, por dispor de uma margem de apenas dois meses entre o regresso a Lisboa e o momento em que pretendia lançar a colecção, a joalheira lamenta “não ter tido tempo para fazer uma colecção tão profunda como desejava”.
Quanto ao feedback que tem vindo a receber, Juliana Bezerra destaca que este tem sido positivo, e que as peças podem ser vistas e encomendadas quer online, através do seu site próprio, quer através de uma visita ao seu atelier, referindo ainda que “muitas vezes as pessoas compram as peças porque o nome as relembra de algo, ou porque gostam da peça”, revelando que o anel Porto Formoso é um dos artigos mais populares.
Quanto àquilo que o futuro reserva, Juliana Bezerra adianta que gostaria de não deixar a sua inspiração nos Açores ficar-se por esta colecção apenas, explicando que se imagina a criar novos projectos inspirados nas ilhas do arquipélago.
Seja numa visita à ilha das Flores ou num regresso a São Miguel, na altura do Verão, para que possa ter acesso a novas flores, folhas e a mais conchas e criar a partir daí novos artigos, deixando ainda espaço para uma eventual sessão fotográfica onde se destaque a areia negra das praias açorianas, fica no ar a ideia de que a joalheira pretende regressar.
No atelier, onde conta com a ajuda de mais dois elementos que dão apoio na produção das peças que imagina, diz, “criam-se novas narrativas, cruzam-se referências do Brasil com a cultura portuguesa, com a inspiração pela natureza, com a simplicidade das coisas, sempre pela beleza mais crua das formas”, passando (quase sempre) pelas jóias.
Em Fortaleza, de onde é natural, Juliana Bezerra tinha já o gosto pela criação de jóias. Contudo, tendo em conta que ali não existiam oportunidades nesta área, a artista dedicava-se à criação de várias peças de bijutaria.
“Sempre tive gosto pela joalharia. No Brasil eu fazia bijutaria, mas na cidade em que eu morava não havia nada direccionado para a joalharia. Quando cheguei a Portugal fiquei a saber que existia essa opção, inscrevi-me, fiz o curso durante alguns anos e depois estagiei numa galeria localizada no Bairro Alto.
Depois de algum tempo abri um atelier em conjunto com umas amigas que também trabalhavam joalharia, partilhei o espaço durante dois anos e só depois vim para este espaço sozinha na cidade de Amoreiras”, conclui.

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