Construção civil açoriana prepara-se para impactos negativos do Covid-19

 Como é que o sector da construção civil dos Açores está a encarar a crise provocada pelo Covid-19?
Alexandra Bragança (Presidente da AICOPA) - Estamos muito preocupados com o que possa acontecer daqui para a frente. Há donos de obras que estão a pedir aos empreiteiros a suspensão de execução de alguns trabalhos. Sendo assim, as empresas não vão conseguir facturar. E não facturando, como é que vão cumprir com as suas obrigações fiscais e, inclusive, com salários dos seus trabalhadores. De facto, estamos muito preocupados.
Entendemos que, em face desta situação, quanto mais cedo o problema for atacado, melhor para que as empresas fiquem inactiva o menos tempo possível. 
Esta é a nossa grande preocupação. Quanto mais tarde se tomarem medidas, se eles têm que ser drásticas, o problema que todos estamos a viver, as empresas vão levar mais temo a voltar e a retomar a sua actividade. Portanto, a tomarem-se medidas drástica, que seja já. Quanto mais cedo melhor para impedir que esta cadeia de transmissão se prolongue no tempo.
A Confederação Portuguesa da Indústria da Construção já está a sensibilizar o Governo nacional para estes problemas que as empresas vão enfrentar, no sentido de o Governo tomar medidas para mitigar os impactos desta paragem de actividade. E vai ter que haver uma ajuda do Governo, quer relativamente a linhas de crédito, quer relativamente à suspensão de obrigações fiscais, quer relativamente ao adiamento do cumprimento de algumas delas. Penso que o Estado vai ter que olhar para estas situações porque as empresas não estavam minimamente preparadas para fazer face a esta situação.

Construção civil açoriana
na expectativa…

Ou seja, num momento em que o sector da construção civil recomeçava uma curva de subida da actividade, é atacado pelo Covid-19.
Exactamente.

E há a expectativa de haver despedimentos no sector?
Esta é uma questão que não foi ainda ponderada mas, obviamente, se calhar algumas empresas vão ter que recorrer ao lay off ou, eventualmente, a despedimentos colectivos ou a outras medidas para fazer face a esta situação. As empresas não estão preparadas, financeiramente, do ponto de vista de tesouraria, para suportar a falta de facturação. Não estão de todo.

Este problema está a colocar-se mais ao nível das pequenas e médias empresas e também das grandes empresas…
Coloca-se ao nível das pequenas e médias empresas e também das grandes empresas de construção civil. As grandes empresas vivem muito de contratação pública e são, exactamente, os donos de obras públicas que estão a solicitar às empresas que suspendam alguns trabalhos. É uma situação que nos está a preocupar.
São donos de obras públicas nacionais com delegação na Região que estão a solicitar a empreiteiros para suspenderem trabalhos. 
Não tenho ainda conhecimento de nenhum dono de obra pública regional que tenha solicitado a suspensão dos trabalhos. Temos, sim, conhecimento, de alguns donos de obras públicas nacionais que têm actividade na Região. 

Está a dizer que esta crise ainda não chegou às pequenas e médias empresas de construção civil da Região? 
Para já ainda não. Mas está tudo em suspenso porque não se sabe até quando vão poder continuar a laborar. Vai depender, também, da evolução da pandemia aqui nos Açores. 

A construção civil açoriana está a viver um estado de apreensão?...
Sim, muita apreensão. 

Considera suficientes as medidas que o Governo dos Açores está a tomar?
Em face da situação que estamos a viver neste momento, – que é um bocado incógnita – para já o que poderíamos requerer mais? Tudo vai depender do evoluir da situação daqui para a frente. Se as empresas ficarem com dificuldade para facturar, se isso vier a verificar-se, com certeza que as medidas que vierem a ser adoptadas a nível nacional vão estender-se às empresas da Região. E o Governo dos Açores vai acompanhar. E algumas delas são de aplicação imediata nas empresas regionais. Nem precisam de transposição.


Impactos na construção nacional

Os empresários da construção estimam um impacto inicial, a nível nacional, de cerca de 500 milhões de euros na sequência da paralisação do sector devido à pandemia da covid-19. 
Em comunicado conjunto, a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) e a Associação de Empresas de Construção, Obras Públicas e Serviços (AECOPS) exigem ao Governo da República medidas extraordinárias para mitigar a crise que se avizinha de forma a ser evitado “um impacto desastroso nas empresas e nos postos de trabalho”.
A AICCOPN e a AECOPS querem ver implementadas “medidas imediatas, orientadas para a gestão de tesouraria e de recursos humanos”. 
Entre as propostas contam-se o acesso sem burocracias e regras desnecessárias às “linhas de crédito Covid-19” e ao regime de “lay-off simplificado”; a suspensão, por dois meses, das obrigações fiscais e contributivas como, no imediato, o pagamento do IVA e contribuições para a Segurança Social; o estabelecimento de uma moratória, por um prazo de três meses, das dívidas das empresas à banca, no âmbito dos contratos de crédito em curso; o pagamento imediato a todos os fornecedores do Estado, independentemente dos prazos de pagamento contratualmente definidos e/ou constantes da facturação dos respectivos bens e serviços; o adiantamento do pagamento pelos donos de obra pública de parte ou da totalidade dos trabalhos não executados, nos termos do plano de trabalhos aprovados, decorrentes da suspensão das obras por efeitos da actual crise e possibilidade de recurso a “modalidades de factoring”, junto do sistema financeiro, para trabalhos contratados, previstos e não executados.
Numa primeira estimativa, as entidades garantem que a paralisação da actividade geraria uma redução de 1,77 mil milhões de euros no volume de negócios, mantendo-se uma despesa mensal a suportar de 435 milhões de euros, relativos aos encargos com salários e remunerações dos 306 mil trabalhadores actualmente registados ao serviço das empresas de construção em Portugal. Segundo a nota, a ainda a acrescentar 58 milhões de euros de encargos mensais de financiamento destas empresas junto do sector financeiro.
Ou seja, num cenário de suspensão das obras, a tesouraria das empresas de construção sofre um impacto directo estimado em 493 milhões de euros, gerando uma crise de liquidez imediata, com impacto transversal. “Seria um verdadeiro desastre económico e social”, conclui o comunicado das duas confederações nacionais.

J.P.

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima