21 de março de 2020

Cesto da Gávea

Viruminudências

Não é que me dê grande gosto trazer a estas colunas um assunto de grande gravidade mundial, como este da pandemia do novo coronavírus, batizado pela OMS de Covid-19, para evitar confusões de nomenclatura. Compreende-se que seja assim, porque deste vírus conhecem-se 7 estirpes, todas com origem animal. Uma equipa americana liderada por Beate Crossley, investigadora da Universidade da Califórnia/Davis, publicou em Dezembro de 2012 um artigo científico na revista “Viruses” que descreveu as relações entre um coronavírus da alpaca, uma espécie de carneiro lãzudo dos Andes sul-americanos, com o coronavírus humano 229E, conhecido desde os anos 60 do século XX. Posteriormente, outros autores aprofundaram pela via genética a complexa teia que associa este vírus a outras espécies animais e daí para os humanos. Em todos os estudos publicados, o animal conhecido como origem histórica deste tipo de vírus é um morcego, embora se tenham identificado vários outros hospedeiros com afinidades genómicas, como a citada alpaca, bois, cavalos, camelos, uma baleia, aves, cobras e pangolins asiáticos. Estes últimos, nos estudos mais recentes, chegam a ter 99% do genoma com idêntica sequência, concorrendo com os morcegos chineses (Hu et al., Virology Journal-2015). 
Apesar de toda esta sinalética genómica, resta uma incógnita, que é conhecer o salto intermédio favorecedor desta divergência, só possível com uma enorme plasticidade ecológica dos coronavírus, capazes de se adaptarem a diferentes hospedeiros com a maior das facilidades. É isto que faz deles um perigo temível, como acontece agora com o Covid-19. A situação piora quando os humanos facilitam, colocando num mercado de animais silvestres, espécies conhecidas como repositórios de coronavírus, ignorando os dados dos cientistas e as experiências de anteriores epidemias. Rapidamente, sucederam-se os esforços de governos, universidades e empresas, uns por receio das consequências políticas, outras porque dispunham do conhecimento e ainda outras porque farejaram o negócio subjacente. Verdade seja que algumas empresas da área bio-médico-farmacêutica, vinham investindo milhões no setor desde há muito, pois sabiam da experiência veterinária que entre 15 a 30% das gripes vulgares, eram devidas a coronavírus de origem animal. Ainda bem: neste momento, há cerca de 200 estudos e ensaios realizados na China e nos EUA, sob a supervisão das respetivas autoridades nacionais; na União Europeia (incluindo o Reino Unido, que diz que saiu mas tem os pés dentro) os avanços são tais que o delicioso Trump-o-negociante quis comprar uma patente aos alemães da CureVac (ao que constou, por imensos milhões) desde que os EUA ficassem com o exclusivo da vacina anti Covid-19. Ficou mal na fotografia, mas tentou – e na guerra de mentira em que as relações internacionais se transformaram, isso é que conta para o seu eleitorado.
Embora o que conte de imediato para o mundo pandémico, seja a colocação no mercado global de um medicamento antivírico que trate dos casos existentes e alivie os sistemas de saúde, ao mesmo tempo que salva vidas em perigo. A vacina é importante, mas preventiva: um antivírico eficaz é indispensável, porque paliativo e curativo. Explica-se assim a razão porque  existem neste momento, em fase adiantada de teste, segundo a OMS, 7 tipos diferentes de antivíricos, desde a cloroquina (um medicamento comum, usado contra a malária, que parece “funcionar” como antiviral) aos anti-inflamatórios (empregues contra o reumatismo). Existem dois fármacos anti artrite reumatoide, o tocilizumab e o sarilumab (ambos anticorpos monoclonais, aprovados pelas autoridades americanas e europeias do medicamento, FDA e EMA) nos quais se deposita fundada expectativa. Medicamentos anti HIV, ou anti hepatite C, dão fortes indícios de bons resultados contra o novo coronavírus e permitirão tratar doentes infetados, meses antes de termos vacinas disponíveis. A indústria farmacêutica de alto calibre - a chamada “Big Pharma” - prepara-se para grandes lucros, mas é nela e nos apoios estatais que recebe que reside a esperança de tratamentos em prazo útil. Compete ao Estado, nos respetivos países, assegurar a regulação da indústria, do mercado e do interesse dos consumidores – o que, como sabemos, nem sempre é fácil, nem sempre acontece. A ONU lança apelos, mas não tem força executora; a União Europeia teria essa força, se tivesse avançado na união política, financeira e de defesa comum, mas esbarra com nacionalismos e pressões migratórias. Os europeus atrasaram-se na passada, mas mesmo assim ainda permanecem na vanguarda científica e nos direitos humanos.
Pelo meio, há quem aproveite para especular, jogando com o medo das populações afetadas. A corrida às máscaras protetoras é uma prova: vários sítios online anunciam envios de pacotes de 1000 máscaras fabricadas na China por 500 dólares mais portes, ou de 10 máscaras  inglesas a 12 libras e porte grátis. O mesmo sucede com testes e outros produtos antivírus,  aumentados descaradamente  nos preços, “viruminudências” a eliminar até chegarem soluções eficazes.  
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima