Devido à greve dos estivadores do porto de Lisboa

Grande parte da fruta e legumes há uma semana em contentores chega Segunda-feira a São Miguel imprópria para consumo

A greve dos estivadores no porto de Lisboa tem resultado em vários problemas para os Açores e nem a requisição civil do Governo da República para que se cumprissem os serviços mínimos parece ter resolvido o impasse. Perante a pandemia devido ao Covid-19 e o facto dos estivadores não quererem cumprir os serviços mínimos, o abastecimento aos Açores, e à Madeira, pode estar em risco uma vez que os contentores não estão a ser carregados. Esta greve arrancou no porto de Lisboa a 100% no dia 9 de Março e o Governo da República teve de avançar com uma requisição civil devido ao não cumprimento dos serviços mínimos por parte das empresas de estiva, mas as empresas estavam a impedir os trabalhadores de cumprir a requisição civil, impedindo o abastecimento às ilhas.
As empresas importadoras de fruta dos Açores são talvez a face mais visível dos prejuízos que podem advir desta greve que tem obrigado os empresários a tentar procurar soluções, nomeadamente através do porto de Leixões. 
O Correio dos Açores falou com três empresas importadoras e revendedoras de fruta, legumes e produtos hortícolas que se queixam que há oito dias que os seus produtos estão em contentores no porto de Lisboa para seguirem viagem para São Miguel. A informação que tiveram foi que ontem o navio que traria os produtos, maioritariamente perecíveis, já estaria a navegar prevendo-se a sua chegada a Ponta Delgada na próxima Segunda-feira. Ou seja, a maior parte das frutas e legumes já não estariam em condições para ser depois comercializada. 
É o caso da empresa Andrade, Alves & Filhos – Comércio, Importação e Exportação de Produtos Alimentares, Lda, que tem cerca de 40 toneladas de fruta e legumes em Lisboa para seguir viagem. Os dois contentores deveriam ter seguido viagem no dia 12 de Março, para conseguirem chegar a São Miguel na passada Segunda-feira, dia 16, mas agora só se prevê que possivelmente a carga chegue na próxima Segunda-feira, dia 23. 
José Leonardo Andrade, responsável da empresa, explica que dentro dos contentores tem por exemplo uma tonelada de morangos e uma tonelada e meia de bananas eu quando chegarem aos Açores “estarão inutilizados”.
O empresário diz que não tem fruta para vender há uma semana seja no seu supermercado seja para revenda por grosso, havendo já algumas superfícies comerciais com quebras de stock de frutas e legumes. José Leonardo Andrade refere que mesmo antes do estado de emergência, decretado no país e na Região, as pessoas têm recorrido às superfícies comerciais para se abastecerem de produtos alimentares e de primeira necessidade mas que frutas e legumes já começam a ser escassos porque muitos dos revendedores deste produtos estão na mesma situação. 
Isso mesmo confirma Gualter Dias, responsável pela empresa Líder Frutas, que também tem dois contentores de fruta parados em Lisboa à espera de embarcarem para São Miguel. Desde o passado dia 11 de Março que os produtos perecíveis estão dentro de contentores para seguir viagem “que tem sido sucessivamente adiada por causa da greve” e que terá acontecido ontem. 
Com um investimento de cerca de 25 mil euros “parado” e na iminência de não poder ser revendido, Gualter Dias confirma que “não temos muitas alternativas para vender o produto” se este chegar em condições. É que a grande maioria dos clientes da Líder Frutas são da restauração e hotelaria que devido à situação actual de pandemia tiveram de encerrar portas. 
“Nem devido a essa situação os estivadores colaboram connosco”, afirma o empresário que acrescenta que alguns desses produtos “poderão até chegar em condições porque vêm directamente do produtor”, mas outros produtos que são adquiridos junto de outros revendedores possivelmente não terão condições para serem comercializados. 
Gualter Dias recorda que devido à perecibilidade dos produtos que comercializa, “quanto mais em cima da hora forem pedidos os produtos, mais frescos chegarão” ao destino já que a viagem de barco demora três dias. No entanto, na semana passada foi pedido que os empresários antecipassem a entrega dos contentores no porto de Lisboa, antevendo a greve dos estivadores, mas que já não foi a tempo de fazer sair a carga. 
Gualter Dias recorda que as frutas e legumes frescos são essenciais nesta altura de pandemia que estamos a atravessar e por isso mesmo a aquisição destes produtos por parte da população também tem sido maior. A Líder Frutas nas suas lojas físicas, também tem vindo a implementar medidas restritivas devido ao Covid-19, nomeadamente limitando a permanência de clientes a 3 ou 4 nas suas lojas e tendo já implementado a entrega de encomendas ao domicílio, depois de encomenda por telefone. O empresário refere que no início, quando houve necessidade de restringir a permanência de clientes nas lojas, “não foi bem recebido” uma vez que as pessoas queixavam-se por ter de ficar muito tempo à espera mas que agora que todas as lojas têm obrigatoriedade de implementar estas medidas “as pessoas já reagem melhor”. 
Na Frutaria São Miguel, António Amaral explica que também foram alterados procedimentos na venda ao público no armazém da empresa. A entrada de clientes está interdita e só a distribuição está a funcionar, acrescenta. 
Quanto aos produtos que estão à espera no porto de Lisboa para embarcarem para São Miguel, António Amaral explica que a empresa tem há cerca de uma semana um contentor com produtos perecíveis a aguardar viagem. Até teriam mais se a empresa não tivesse conseguido arranjar alternativas, nomeadamente através do porto de Leixões e dividindo os produtos por vários contentores. 
A Frutaria São Miguel admite que já terá ruptura de stock em cerca de 90% dos produtos e que, caso o navio chegue a São Miguel na próxima Segunda-feira, “suponho que ainda dê para venda de alguns produtos, salvo alguns que sejam mais perecíveis”.
Os empresários foram informados que a carga que mantinham há uma semana no porto de Lisboa já teria sido embarcada ontem no navio “Corvo” e seguiria rumo a São Miguel, onde deverá chegar na próxima Segunda-feira. Mas poderá já ser demasiado tarde para muitos dos produtos perecíveis que vêm a bordo. 

Navios em Lisboa
O navio “Corvo” da Mutualista Açoriana começou ontem a ser carregado no porto de Lisboa e deverá ter saído rumo aos Açores pelas 23h30 de ontem. O navio, com os contentores dos empresários referidos nesta reportagem, deverá chegar a Ponta Delgada na Segunda-feira de manhã, seguindo depois para a Praia da Vitória e Velas, regressando novamente a Ponta Delgada para seguir rumo a Lisboa.
Já o navio “Furnas”, também da Mutualista Açoriana estava ontem a ser descarregado e deverá ser carregado hoje, Sábado, para sair ao fim da noite rumo a Ponta Delgada onde deverá chegar Terça-feira também durante as primeiras horas da manhã. Seguye depois para a Praia da Vitória, Vila do Porto, Ponta Delgada e regressa depois a Lisboa. 
Relativamente ao navio “Monte Brasil” da Transinsular, estava ontem também a ser descarregado para que fosse novamente carregado no fim-de-semana com bens para a Região. Deverá sair de Lisboa no final do dia de Domingo ou na Segunda-feira de manhã, prevendo-se a sua chegada a São Miguel na quarta ou quinta-feira. Daqui deverá seguir viagem para a Praia da Vitória, regressando a Ponta Delgada e depois rumando para o Caniçal, na Madeira. 
           

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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