Director Regional das Pescas explica

Como o pescado dos Açores pode valer cinco vezes mais do que o preço médio em lota

Correio dos Açores – A valorização do atum rabilo e de outro pescado capturado nos Açores pelo uso de técnicas japonesas, é uma boa notícia na pesca. 
Luís RodRigues (Director regional das Pescas) - A possibilidade que hoje temos de pescar atum rabilo não se verificava há anos. Os Açores não tinham possibilidade de pescar rabilho. E houve um trabalho, que se iniciou há algum tempo, por parte da Região Autónoma dos Açores junto de diferentes instâncias internacionais, nomeadamente do ICCAT- Comissão Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico, e da Comissão Europeia, de forma a defender os interesses da pesca açoriana. Explicamos, com os parceiros sociais da pesca na Região, quais são as especificidades da pesca do atum, destacando a característica artesanal, colectiva da nossa pescaria de salto e vara.
 Há mais de três anos que temos desenvolvido um trabalho de forma a defendermos uma discriminação positiva para a nossa pescaria. 
Há três anos verificava-se um grande decréscimo de descargas de atum em lota. Esta redução de pescarias despoletou o alerta por parte dos Açores. Estávamos preocupados com os sistemas de pesca altamente intensivos, feitos por pescadores recorrendo a sistemas de concentração do pescado que inviabilizavam, muitas vezes, a chegada do atum aos Açores. Como sabemos, o atum é uma espécie migradora num movimento ao longo da corrente do golfo, passando pela costa africana, Canárias, Madeira e Açores antes de regressar para Sul. 
Outras espécies são geridas a nível dos Açores, a nível nacional ou europeu. Já o atum é uma espécie que é gerida pelo mundo. No Atlântico pescam frotas chinesas, da Indonésia, todas as frotas dos países africanos. Consideramos que estas frotas não respeitam, como nós respeitamos, a sustentabilidade e a preservação deste recurso piscícola e daí termos iniciado uma campanha para alertar o mundo para a forma como aqui pescamos.
A Direcção Regional das Pescas organizou, na Horta, um encontro com todos os países no mundo que pescam com salto e vara. Na sequência desse encontro, há cerca de 2 ou 3 anos, saiu uma declaração, a ‘Declaração Açores’, que é um código de conduta para a pesca do atum. 
Várias instituições foram signatárias da declaração ‘Declaração Açores’ e este código de conduta tem sido sistematicamente enviado para vários organismos e para vários países e é hoje considerado quer pelo ICCAT, quer pela Comissão Europeia. Aliás, fruto dos argumentos apresentados pelos Açores para a pesca do atum, tivemos acesso a uma quota extraordinária para a pesca do atum patudo há dois anos e no ano passado.
Quando nos foi atribuída a possibilidade de fazer pesca dirigida ao atum rabilo, nós iniciámos a formação dos pescadores e armadores, de várias formas. De uma forma mais presencial com os formadores em contacto em sala de aula com os pescadores e armadores. O formador apresentava um conjunto de matérias, particularmente a técnica japonesa de pescar com Ike Jime. Fizemos isto em várias ilhas com formação para pescadores e armadores. Depois, fizemos formação também para as próprias associações da pesca. Levámos os responsáveis da APASA ao continente para, em contacto com outras organizações da pesca, ver quais as melhores práticas para valorização da pesca. 
Temos em marcha uma série de campanhas para a valorização do atum, que se consubstanciam não só em desdobráveis para a comunidade piscatória, mas também painéis com assuntos orientados para a valorização do pescado. 
Este ano, o modelo formativo que encontrámos, e vamos experimentar, é um formador que também é broker, comprador, que irá a bordo das embarcações de pesca e acompanha toda a pescaria desde o momento em que o peixe morde o anzol, até chegar ao barco e todo o processo de ike Jime. Depois, o formador que também é comprador, fica com o peixe. Será este o modelo a adoptar este ano.
Naturalmente que a nossa preocupação com a valorização do atum e em concreto do atum rabilo não se esgota aqui. Convidámos a vir aos Açores vários compradores de pescado, não só europeus. E trouxemos cá representantes de diferentes mercados, do germânico e do suíço. Vieram aos Açores compradores desses mercados de alto valor acrescentado para alta restauração, para sushi e sashimi. Temos garantido uma série de modelos de certificação. 
Já tínhamos, através do programa de observação das pescas dos Açores – o POPA – o dolphin safe e o friend of the sea, mas queremos também certificar para os mercados de alto valor acrescentado e estamos a avançar com esse processo de certificação. 
Assim, finalmente e ao fim de muitos anos, conseguimos capturar atum rabilo que é muito valorizado em lota. O preço médio do atum em lota andaria à volta de 1 euro e meio a 2 euros e os primeiros dois exemplares foram vendidos, o primeiro a 11,40 cêntimos o quilo e o segundo foi vendido a 10 euros o quilo. Um atum rabilo com 300 quilos rendeu quase cerca de 3 mil euros.

Esta pode ser considerada uma vitória, depois de várias batalhas perdidas…
É verdade. Como disse, não era permitido pescar esta espécie de atum. É a espécie de atum mais valiosa e que esteve durante muitos anos num plano de recuperação, o que significava que, em determinado momento, foi identificado um problema de stock. E a ICCAT implementou um conjunto de medidas muito restritivas para esta pescaria, ao ponto de implicar não poder ser pescado nos Açores. 
Fruto de todas as diligências que a região efectuou e fruto de uma alteração de comportamento dos armadores açorianos, finalmente conseguimos pôr em marcha esta pescaria e está a dar bons resultados.

Não receia que outras frotas possam vir pescar rabilo para os Açores?
Não. Não existem outras frotas que possam vir pescar rabilo para os Açores. Os armadores dos Açores e Madeira são praticamente os mesmos. Actualmente estão licenciadas cerca de 22 embarcações para pescar atum na Madeira e assim como nós podemos pescar rabilo nos mares da Madeira, também embarcações de pesca madeirenses podem pescar nos Açores.   

A Fat Tuna além de usar o método Ike Jime na pesca do atum rabilho e nos atuns patudos maiores também usa em outras espécies de peixe de fundo, valorizando este pescado. O caminho para combater a escassez de recursos piscícolas nos Açores também passa por aí?
Eu não tenho dúvidas que nós temos que pescar menos e ganhar mais. E não tenho dúvidas também que o pescado é a excelência do mar dos Açores e tem de ser muito valorizado. É esse o caminho.
É verdade que no, âmbito das diferentes campanhas que temos para a valorização do pescado, pusemos em marcha um conjunto de iniciativas para a capacitação dos activos da pesca, e não me refiro apenas a programas de escolarização como programas de profissionalização, como campanhas de sensibilização. Em toda a actividade formativa, incluímos módulos para a valorização do pescado e em concreto para a utilização de técnicas, como Ike Jime e práticas que trazem mais-valias para a qualidade do pescado. 

É apologista da valorização da comunidade piscatória pela diversificação da actividade. O que se tem feito a esse nível?
O que faz parte da nossa prioridade é criar mecanismos para a diversificação das pescarias. E nós hoje temos espécies que podem ter mais valor e um exemplo é o atum. É uma espécie que pode ter mais valor, mas estamos a trabalhar com outras espécies, como algas, chicharro, cavala. Outras espécies em que se pode criar mais valor na primeira venda. Temos uma campanha junto da comunidade piscatória e da sociedade civil orientada para a diversificação da actividade da pesca. Temos várias iniciativas que passam por ir a todas as escolas das 9 ilhas e em contacto com alunos e professores passar a mensagem de que é importante diversificar a nossa dieta. Por várias razões mas também para diminuir o esforço sobre as mesmas espécies. As escolas e as unidades de comercialização de pescado têm sido alvo destas nossas campanhas a par dos pescadores. Sublinho o trabalho que fizemos há três anos nesta área da diversificação, que se consubstanciou na orientação para a pesca da lula que está a ser um sucesso. 

Mas há também acções para a criação de rendimento alternativo da pesca.
Sim, também temos em marcha um conjunto de iniciativas para a criação de rendimento alternativo na pesca. Consideramos que os armadores e activos da pesca podem criar rendimento de uma forma que não seja exclusivamente através do pescado, tornando-se mais resilientes quando o mar está mau ou o tempo não permite a saída das embarcações. Um que é o mais evidente, é o turismo. Mas existem outras áreas em que temos trabalhado.
E a criação de rendimento alternativo da pesca não só torna o sector mais resiliente ao nível do rendimento, como também diminui a pressão sobre os recursos. Subjacente a isto está a seguinte ideia: se o pescador, o armador, se sentir realizado com o rendimento que faz em terra, escusa de ir para o mar tantas vezes apanhar o peixe. 
O pescador e o armador podem obter rendimento através do turismo, da aquicultura, da ciência, porque já temos muitos pescadores a trabalhar em parceria com investigadores do IMAR da Universidade dos Açores. Lançámos há pouco tempo uma portaria no âmbito do ‘Mar Sem Fim’ que permite o desenvolvimento de parcerias entre pescadores e cientistas e tivemos uma reacção quase inesperada. Tivemos muitos projectos apresentados e esgotamos a verba que tínhamos disponível para o primeiro aviso do concurso. Temos já em marcha um segundo aviso para que mais pescadores possam, em contacto com os nossos investigadores, terem um trabalho de proximidade. 
Há também pescadores a trabalhar no comércio e um bom exemplo é o empresário que é pescador e que tem um negócio de comercialização e com sucesso. E isso permite ver que existem pescadores a criar rendimento de uma outra forma que não seja única e exclusivamente na pesca. Através do turismo, da aquicultura, ciência, comercialização e da restauração. Temos casos nos Açores de pescadores que criaram uma pequena unidade de restauração e isso é interessante.

Existem os Grupos de Acção Local da Pesca…
Esta é uma estratégia que gostaria de destacar ligada com a orientação da pesca. A medida tem o nome de Desenvolvimento Local de Base Comunitária, que se consubstancia na associação de parcerias. 
Trata-se de parcerias que são representativas de um determinado território costeiro e são estas parcerias que participam na gestão dos projectos que são implementados no seu território. Estes Grupos de Acção Local da Pesca fazem a gestão de todos os projectos desenvolvidos no âmbito destas parcerias. E a gestão de uma parte do envelope financeiro do MAR 2020 é partilhada por estes Grupos. O principal objectivo da medida é criar rendimento alternativo ou complementar à pesca. 
A Direcção Regional das Pescas, na sequência desta orientação, organizou o primeiro fórum socioeconómico da pesca na ilha Terceira. Foi transmitido a todas as associações da pesca dos Açores que convidassem um projecto internacional, desenvolvido numa comunidade piscatória em outro país europeu, para virem aos Açores apresentar esses projectos. A ideia foi disseminar essas boas práticas que resultaram em rendimento alternativo na comunidade piscatória e trouxemos centenas de novos projectos aos Açores para considerar como é que o pescador hoje pode criar pequenos negócios ligados ao mar, através da pesca e do pescado. 

Tem vindo a incentivar o regresso de pescadores à escola…
E tem sido uma surpresa para mim. Num primeiro momento, as pessoas estranham que colegas e amigos com 30 e 40 anos e que voltam à escola. Actualmente há três turmas, uma da 4ª classe, outra do 6º ano e outra do 9º ano. Ainda há pouco tempo levámos algumas destas turmas ao Expolab para ter aulas de microbiologia. Tivemos pescadores de Rabo de Peixe a ver micróbios ao microscópio. Fomos ver como esses micro-organismos podem afectar o pescado. A partir do momento em que um peixe morde um anzol ou cai numa armadilha começa-se a degradar e a ideia é conseguir evitar, ao máximo, este processo de degradação do pescado. O peixe dos Açores, hoje em dia, chega a mercado como a Austrália ou Estados Unidos e é uma luta contra o tempo, a partir do momento em que sai da água até ao momento que chega ao prato do consumidor. 
Estamos a fazer com que o pescador tenha consciência da higienização da sua embarcação, dos aparelhos, da forma como manuseia o pescado. O exemplo é a técnica do Ike Jime em que se retira o sangue ao peixe. O sangue é como se fosse uma rede de transporte de micro organismos. Esta técnica não é mais do que retirar a possibilidade do peixe se degradar. Sangras e retiras as vísceras do peixe, para evitar essa contaminação por parte de micro organismos. Foi interessante a visita ao EXPOLAB e faz tudo parte de um plano de capacitação dos pescadores. Quem imaginava há uns anos que era possível levar pescadores às escolas, para aprenderem a ler e a escrever? 
A preocupação é capacitar as pessoas, profissionalizá-las. Antes, as pessoas entravam nos barcos como observadores mas eram pescadores e estamos a profissionalizá-los.
Temos em marcha este mega plano de escolarização e profissionalização de activos da pesca. Já escolarizámos em Rabo de Peixe perto de 150 jovens e já profissionalizámos cerca de 700 marítimos nos Açores. E em todos os cursos que promovemos temos um módulo ligado à valorização do pescado. A par do esforço para a capacitação das pessoas, dá-se uma orientação muito forte para a valorização do pescado.
Há relativamente pouco tempo o peixe era quase pescado a granel, mais pela quantidade. O que nos interessa é tratar bem o peixe. Um atum com o sistema japonês Ike Jime vale cinco vezes mais do que tirar o peixe do mar a granel. Tirar um peixe e aplicar a técnica do Ike Jime é a mesma coisa que tirar 5 peixes a granel. 
O rendimento para a pesca está muito condicionado da forma como é dividido. Se o pescador recebe muito pouco, independente do armador receber muito, tem de estar sempre no mar a tirar peixe. Se ele conseguir desenvolver um pequeno negócio, mesmo continuando na pesca, ele sentindo-se materialmente satisfeito e, se calhar, não precisa de ir tantas vezes para o mar. É uma política subjacente em relação aos circuitos curtos de comercialização. 
Além do mais, criámos um modelo em que, nos dias de mau tempo, o pescador pode ir para o mar a partir da rocha, e pode vender através do barco mas com peixe pescado na rocha. São tudo modelos que tentam aproximar o mais possível o pescador do consumidor. Ao aproximar estes dois ‘players’, o valor acrescentado fica com o pescador. O investimento nos circuitos curtos de comercialização é uma realidade em que estamos a trabalhar. Isto para que seja cada vez mais o pescador a vender o seu peixe ao consumidor.

                                                     
                                                     

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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